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Os maracatus de Capiba

Manuel Bandeira

Uma das mais fortes impressões que guardo do tempo da meninice foi o meu primeiro encontro com um maracatu. Era terça-feira gorda e eu ia para a rua da Imperatriz, no Recife, assistir de um sobrado à passagem das sociedades carnavalescas – Filomonos, Pás, Vassourinhas… De repente, na esquina da rua da Aurora, me vi quase no meio de um formidável maracatu. De que nação seria? Porto Rico? Cabinda Velha? Leão Coroado? Não me lembra. Dos melhores era, a julgar pelo apuro e dignidade do rei, da rainha e seu cortejo – príncipes, damas de honra, embaixadores, baianas.

Pasmei assombrado. Tudo o mais, em volta de mim, era carnaval: aquilo, não. Mas o que é que me fazia o coração pulsar assim em pancadas de medo? Analisando agora, retrospectivamente, o meu sentimento, creio que o motivo do alvoroço estava na música, naquela música que mal parecia música, – percussão de bombos, tambores, ganzás, gonguês e agogôs, num ritmo obsessor, implacável…

Mesmo de longe, lembro-me de certas noites em que, na velha casa de Monteiro, a virada trazia uns ecos do batuque, o ritmo dos maracatus que invocava.

Todas essas memórias dos meus oito anos, impagáveis como o cheiro entre-mar-e-rio dos cais da rua da Aurora, buliram em mim, mais vivas do que nunca, à leitura do livrinho, É de Tororó, primeiro de uma série, Danças pernambucanas, com o qual Arquimedes de Melo Neto, diretor da Editora da Casa do Estudante, acaba de enriquecer a nossa literatura musical.

A coleção é organizada e dirigida por Hermilo Borba Filho. Nesse primeiro volume, colaboram Ascenço Ferreira, o grande poeta do Nordeste, e Ariano Suassuna. Ascenço expõe a origem dos maracatus e como eles, destacando-se do grupo das festas dos Reis Magos (coroação dos reis das nações negras exiladas no Brasil), entraram para o Carnaval, como os temas de evocação da pátria perdida vieram sendo substituídos pelos de acontecimentos contemporâneos; e, finalmente, como eles têm degenerado no Recife por se afastarem da velha tradição. Ariano Suassuna escreve substancioso ensaio crítico sobre a obra de Capiba. Na verdade, o livrinho é uma coleção de maracatus de Capiba, ilustrada pelos estudos de Ascenço e Suassuna e pelos desenhos de Lula Cardoso Aires e Perci Lau.

Mas quem é Capiba? Capiba é o apelido de Lourenço da Fonseca Barbosa, pernambucano de Bom Jardim, criado na Paraíba, músico desde menino na banda regida pelo pai, o “professor Capiba”. Quando voltou ao Recife, homem feito, foi para se tornar o compositor popular mais festejado com os seus frevos-canções, sambas, valsas e maracatus.

Informa-nos, porém, Suassuna, que Capiba não parou aí. Procurou transpor o popular para a música erudita. Assim, usou do ritmo do frevo no primeiro movimento de uma sua sonata para violoncelo e piano, escreveu toda uma série de Canções nordestinasonde se utilizou das formas englobadas no litoral sob o nome de “moda”, e fixou temas da música negra em batuque e numa Suíte nordestina, esta última transcrita, depois, para orquestra por Guerra-Peixe.

Nada conheço de tudo isso. E mais – que mau pernambucano que sou! – ignorava o próprio nome de Capiba. No entanto, vejo que Suassuna dá como “a mais audaz e mais musicalmente perfeita” entre as canções do compositor nordestino aquela que tem por letra a tradução que fiz de um pequenino poema de Langston Hughes. O fragmento transcrito deixou-me com água na boca…

Dez são os maracatus de Capiba apresentados nesta coleção. Três letras são de Ascenço, as demais são do mesmo Capiba. De todos eles, o que me empurrou para mais perto da minha visão no cais da rua da Aurora foi Eh! Luanda! Reconheci longe nos acordes da mão esquerda aquele ritmo obsessor, implacável pressago a que me referi atrás. Está ele também, mas mitigado, quase caricioso, em É de Tororó, onde, no quinto compasso, há uma sétima abaixada que é uma pura delícia. Esses dois e mais Cadê os guerreiros Onde o sol descamba, este com um tema que figura igualmente na Dança de negros de Camargo Guarnieri, são os que me pareceram mais originais. Todos, aliás, tem o mesmo sabor forte de Nordeste.

(Bandeira, Manuel. “Os maracatus de Capiba”. Folha de Minas, 30 de agosto de 1958)

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