Dulce Martins Lamas
O Centro de Pesquisas Folclóricas da Escola Nacional de
Música possui recolhido em gravação fonográfica por Luís Heitor Correia de Azevedo,
em Diamantina (Minas Gerais), no disco nº 44, por mim reduzido à notação literal, o
seguinte Lundu da cachaça:
Partitura [PDF:21KB] |
MIDI [MID:38KB]
Estrofe 1
Desprezo vosso conselho,
Pra deixar de beber
Quero cumprir minha sina,
Na chuva quero morrer.
Refrão
Se beber alegra a gente
Fumar nos dá prazer
Quem não fuma, quem não bebe
Que alegria pode ter?
Estrofe 2
No fundo de um alambique
Quero a minha sepultura,
Pois mesmo depois de morto
Quero me estar na fartura.
Refrão
Se beber alegra, etc,
Estrofe 3
Do funil quero a mortalha,
Da pipa faça o caixão;
Se não tiver na garrafa,
Mas, ponha um copo na mão.
Estrofe 4
A cachaça é moça branca,
Filha de homem trigueiro.
Quem toma amor à ela
Não pode ajuntar dinheiro.
Refrão
Se beber alegra, etc.
Estrofe 5
Mandei fazer uma ponte
De madeira, de canela,
Pra passar toda a cachaça
Da ponte pra minha goela.
Refrão
Se beber alegra, etc.
Estrofe 6
A minha cabeça inclina,
A minha cabeça derrama.
Dizem que todos bebes,
Eu sou é quem leva fama.
Refrão
Se beber alegra, etc.
Estrofe 7
A cachaça na garganta
Escorrega como o quiabo;
Quando chaga na cabeça
Faz arte do diabo...
Na primeira quadra do lundu verifica-se a teimosia, e sentido de fatalidade do viciado.
A quadra-refrão repete-se sempre,.intercalando quadras diferentes. Sua idéia parece ser:
"Perdôo o mau que me faz, pelo bem que me sabe".
É curioso, comparar nesta quadrinha recolhida por Guilherme Santos Neves em Ponte Grande:
Não quero conselho amigo
Para eu largar de beber.
Quem não fuma, quem não bebe,
Que alegria pode ter?
A fragmentação por que passou, dando o motivo dos dois primeiros versos à versão da
estrofe 1 do lundu, e os dois últimos versos correspondendo exatamente aos dois últimos
da quadra-refrão.
Nas quadras 2 e 3 há obstinação pela bebida, até mesmo depois da morte, na
preparação do testamento.
Encontramos no cancioneiro português, registrado por Armando Leça na Beira-Litoral:
Eu hei de morrer na adega,
o tonel é o meu coração:
Hei de ir amortalhado
Com um copo cheio na mão.
Outra versão de M. C. Pires Lima:
Hei de morrer numa adega
O tonel é o meu caixão,
Hei de levar de mortalha
Um copo do vinho na mão...
Esses ilustres folcloristas lusos, por sua vez, lembram o auto de Gil Vicente Pranto de
Maria Parda, cuja heroína é uma bêbeda inveterada, que com sua língua em pitoresca
e grosseira deplora a escassez do vinho, em Lisboa no ano de 1522, e, faz um testamento,
que assim determina:
A minha alma. encomendo
A Noé e a outrem não
E meu corpo enterrarão
Onde estão sempre bebendo
..............
Bem mais mando levar
Por todos copos de vinho,
E hua borracha minha
Com que me hajam d'ensensar
..............
E irei, pois mais não pude,
Num quarto por ataúde,
Que não tivesse água pé.
..............
Diante irão sem pejo
Trinta e seis odres vazios,
Que despejei nestes frios,
Sem nunca matar desejo"
Nota.: Segundo Cândido de Figueiredo o termo "borracha" significa vaso de
coiro, bojudo, com bocal estreito de madeira. Para levar água ou vinho em jornada.
"Odre" vasilha de coiro destinada a transportar líquidos.
As quadras 2 e 3 do lundu, apesar das alterações de estrutura, comparadas a esse
Testamento, tentam-nos a muitas sugestões...
A quadra 4 é uma das mais divulgadas no folclore da cachaça, é cuidadosamente apreciada
por Guilherme Santos Neves no Doc.133.
Na quadra 5, que ainda não encontramos registrada, continua o fascínio pela bebida.
A quadra 6:
A minha cabeça inclina,
A minha cabeça derrama;
Dizem que todos bebem,
Eu sou é quem leva a fama.
A versão. dos dois últimos versos é registrada na Cantiga de Capoeira. por Manuel
Querino Costumes africanos no Brasil:
Marimbondo dono do mato,
Carrapato dono da fôia,
Todo mundo bebe caxaxa
Negro angola só leva fama.
O sentido da quadra do lundu, parece ser, louvar a aguardente e combater o preconceito:
"Cachaça é bebida de negro".
Finalmente a quadra 7, também muito divulgada, encerra uma sabia advertência: alimentar
o vício é gostoso, mas, as conseqüências....
Quanto à expressão d.a melodia com o seu ritmo sincopado é bem característica da
música popular brasileira com influência negra. Indicando ser um lundu muito antigo.
* * *
Voltando ao cancioneiro vindimeiro
de Portugal, ainda achamos quadras, que podemos aproximar ao nosso folclore da cachaça..
Coligida por A. Leça no Douro-Litoral:
O vinho é coisa santa,
que nasce da cepa torta;
a uns faz perder o tino,
a outros errar a porta.
Recolhida no Espírito Santo por Guilherme Santos Neves:
A cachaça geribita.
A neta de. cepa torta,
Faz uns perder o tino
E outros errar a porta.
Como vemos, a quadra é quase que fielmente repetida no populário brasileiro, onde se
adapta às condições de ambiente e se relaciona às atividades agrárias,
substituindo-se o vinho pela cachaça; entretanto, continua a cepa como avó da
cachaça...
Da Vila Real dá-nos notícia Luiz Chaves:
Não se me dá da vindima,
Nem tampouco de vindimar,
Dá-se me das tristes noites,
Que eu passo no lagar.
Armando Leça esta outra:
Vindimas, vindiminhas,
As vindimas boas são;
Saí de casa c'um pataco,
Entrei com meio tostão.
Encontra-se em Melo Morais, A festa da moagem:
Cana verde, cana verde,
Cana do canavial.
Eu já fui mestre d'açúcar,
Hoje sou oficial.
As idéias de um modo geral relacionam-se, apesar das diferenças de estrutura dos versos.
* * *
Esperamos com essas informações
que se juntam às interessantes comunicações de José Calasans Brandão da Silva
(Doc.72, 14/01/1949.) e Guilherme Santos Neves (Doc.138; 29/09/1949) ter contribuído para
o estudo do pitoresco populário da cachaça no folclore brasileiro.
(Lamas, Dulce Martins. Achegas à genealogia da
cachaça. Ibecc/Cnfl/Doc.182, 16 de maio de 1950) |