Guilherme Santos Neves
Segundo informação que vejo em O Jornal, do Rio
de Janeiro, edição de 29 de setembro passado, o carioca está chamando jocosa e
pitorescamente, vacina de pobre à conhecida batida-de-limão. Isso
porque, em conseqüência do surto incoercível da gripe asiática, o pobre
desesperançado de conseguir a vacina preventiva e sem ânimo de andar à cata da
vitamina contida em limões de 144 cruzeiros a dúzia (de difícil abordagem mesmo para os
ricos, pois é escassa a sua presença no mercado) recorre às populares
batidas-de-limão, cujo fabrico informa ainda a reportagem de O
Jornal, aumentou de 100%, conforme afiançam os proprietários de bares da
Cidade Maravilhosa.
Pelo clichê que estampa o jornal carioca, no reino da asiática, batida
de limão é vacina de pobre. Abre o apetite, satisfaz as exigências do
paladar e imuniza contra a gripe.
Não vamos aqui fazer a propaganda da famosa batida-de-limão propaganda de que ela
absolutamente não precisa... Mas porque como cachaça que é está ela
intimamente misturada ao folclore brasileiro, bem que merece ao menos por isso
um comentário especial.
A batida-de-limão se costuma dar também o nome de batida paulista. José
Calasans, no seu livro tão ricamente informativo sobre a Cachaça, moça branca
(Bahia, Livr. Progresso, 1951, 1ª ou 2ª ed. p.9), nos dá a seguinte definição da batida
paulista: Mistura de cachaça com limão, água e açúcar. E acrescenta:
A melhor mistura de cachaça, conforme Mário de Andrade. E depois, com base
neste folclorista de São Paulo: Eruditamente se faz acrescentando clara de ovo
batida e um bocado de gim.
Por acaso tenho à mão um tópico de Mário de Andrade, onde faz ele menção a essa batida
paulista. (É evidente tratar-se da mesma fonte que Calasans consultou). Está o
informe em artigo que, sob o título de Os eufemismos da cachaça, foi
publicado na revista Hoje (ano 7, abril de 1944, nº 75), e transcrito em 1950, no Correio
Paulistano, edição de 5 de novembro. Diz assim o trecho do eminente e saudoso
folclorista de São Paulo, citando misturas não consignadas no Vocabulário analógico
de Firmino Costa: Esqueceu por exemplo a caninha de manga mineira, a
imbiriba nordestina (...) a meladinha que também se diz cachimbo
(...) E esqueceu imperdoavelmente a batida paulista, que não sei
porque chamam assim por toda parte; em Campos, num boteco bem digno, se apelidava como
chamariz de famosa batida paulista. E continua: Mas
paulista é palavra que serve mesmo pra coisas boas e coisas péssimas neste
país, a principiar pelos seus homens que vão de melhor ao pior. Serve até pra designar
cidadinhas, em Pernambuco e Paraíba, e mais alimentarmente na Bahia, para um certo
pedaço de carne-de-vaca. A batida paulista é realmente a melhor das misturas da
cachaça. Quando legítima, isto é, com limão, água e açúcar apenas. (...) As demais
batidas com maracujá e outras perfumarias, se alistam no exército do Pará.
Em todos os bares de Vitória (quando há limão, está claro...) prepara-se essa batida
ou batidinha-de-limão. Mas não consegui até agora saber se, de fato, aqui
entre nós se conhece também pelo nome de batida paulista.
No cardápiodiário do mais típico restaurante brasileiro, o Cabeça
chata do Manezinho Araújo, não encontro referência à batida paulista, na lista
do instóque pra faze diluivo im bêbo. Mas lá está, no rol dos bate-bates,
a batida-de-limão.
Além de referência de Calasans e de Mário de Andrade, só encontrei alusão à batida
paulista num livro lançado em 1935 pela Editora Nacional, de São Paulo Maraia,
de Marques de Rebello classificado no Grande Concurso de Romances Machado de Assis.
Lê-se aí, à página 53, este tópico que aqui nos interessa: O dia em que ele
mais gozou, foi na segunda-feira, quando viu os Furrecas. Vi-os de madrugada, por acaso,
na Lapa, quando, de lanternas apagadas calados os instrumentos, voltavam da Avenida.
Vinham murchos, num passo de enterro, desmantelados, vencidos. (...) pobres coitados!
que cara traziam com o último lugar no concurso do Jornal do Brasil.
/ Teixeirinha regalou a tripa. Quá, quá, quá gargalhava de se ouvir no
outro mundo. / Tira uma linhada só, Rizoleta! / Rizoleta nem viu direito. Passavam longe
e ela estava vesga de cachaça com limão, de que é composta a famosa batida paulista.
Ele também. Beberam mais: quá, quá, quá!
Mas nessa altura, o leitor ou leitora estão interessados, talvez, em saber como se
prepara essa famosa batida-de-limão, tão boa contra a gripe
asiática.
Ouvi alguns barmen da cidade (esse barmen, para
alguns informantes, é uma maneira de dizer...) Do que apurei, aqui vai a informação:
A coisa mais simples do que parece. A receita é facílima, e pode ser preparada num
instante a batida se houver limão.
Tome-se um rico limão, esprema-se-lhe o suco num cálice. Para esta quantidade
corresponderá um copo de cachaça pura (ou, para não melindrar a gente-bem: um copo de cau-de-vie
nome francês da nossa água que passarinho não bebe). Nessa mistura,
juntem-se duas colheres (ou uma colher e meia) de açúcar para abrandar a força
da cachaça, como está na informação de Calasans e Mário de Andrade. Feito isso,
bate-se, bate-se, bate-se, bate-se bem, e serve-se então a gostosa batida-de-limão,
em cálices ou copinhos com gelo. Depois... estala-se a língua. E se quiser cumprir à
risca o ritual, entorne-se antes de beber, um pouquinho dela no chão, pro santo ou pro
cabôco...
(Neves, Guilherme Santos. Batida de limão é
vacina de pobre.... A Gazeta. Vitória, 6 de outubro de 1957,
segundo caderno, p.1) |