Ano 5 - setembro  2002 - nº 49


BRANCA, BRANQUINHA, MOÇA BRANCA...

FONTE INSPIRADORA

ÁGUA QUE PASSARINHO NÃO BEBE

FEITA DE CANA CRIOULA...

REMÉDIO BOM

BIBLIOGRAFIA

BATIDA DE LIMÃO É "VACINA DE POBRE"

Guilherme Santos Neves

Segundo informação que vejo em O Jornal, do Rio de Janeiro, edição de 29 de setembro passado, o carioca está chamando jocosa e pitorescamente, “vacina de pobre” à conhecida batida-de-limão. Isso porque, em conseqüência do surto incoercível da gripe “asiática”, o pobre “desesperançado de conseguir a vacina preventiva e sem ânimo de andar à cata da vitamina contida em limões de 144 cruzeiros a dúzia (de difícil abordagem mesmo para os ricos, pois é escassa a sua presença no mercado) — recorre às populares “batidas-de-limão”, cujo fabrico — informa ainda a reportagem de O Jornal, — aumentou de 100%, conforme afiançam os proprietários de bares da “Cidade Maravilhosa”.

Pelo clichê que estampa o jornal carioca, “no reino da “asiática”, batida de limão é “vacina de pobre”. Abre o apetite, satisfaz as exigências do paladar e imuniza contra a gripe”.

Não vamos aqui fazer a propaganda da famosa batida-de-limão — propaganda de que ela absolutamente não precisa... Mas porque — como cachaça que é — está ela intimamente misturada ao folclore brasileiro, bem que merece — ao menos por isso — um comentário especial.

A batida-de-limão se costuma dar também o nome de batida paulista. José Calasans, no seu livro tão ricamente informativo sobre a Cachaça, moça branca (Bahia, Livr. Progresso, 1951, 1ª ou 2ª ed. p.9), nos dá a seguinte definição da batida paulista: “Mistura de cachaça com limão, água e açúcar”. E acrescenta: “A melhor mistura de cachaça, conforme Mário de Andrade”. E depois, com base neste folclorista de São Paulo: “Eruditamente se faz acrescentando clara de ovo batida e um bocado de gim”.

Por acaso tenho à mão um tópico de Mário de Andrade, onde faz ele menção a essa batida paulista. (É evidente tratar-se da mesma fonte que Calasans consultou). Está o informe em artigo que, sob o título de “Os eufemismos da cachaça”, foi publicado na revista Hoje (ano 7, abril de 1944, nº 75), e transcrito em 1950, no Correio Paulistano, edição de 5 de novembro. Diz assim o trecho do eminente e saudoso folclorista de São Paulo, citando misturas não consignadas no Vocabulário analógico de Firmino Costa: “Esqueceu por exemplo a “caninha de manga” mineira, a “imbiriba” nordestina (...) a “meladinha” que também se diz cachimbo (...) E esqueceu imperdoavelmente a “batida paulista”, que não sei porque chamam assim por toda parte; em Campos, num boteco bem digno, se apelidava como chamariz de “famosa batida paulista””. E continua: “Mas “paulista” é palavra que serve mesmo pra coisas boas e coisas péssimas neste país, a principiar pelos seus homens que vão de melhor ao pior. Serve até pra designar cidadinhas, em Pernambuco e Paraíba, e mais alimentarmente na Bahia, para um certo pedaço de carne-de-vaca. A batida paulista é realmente a melhor das misturas da cachaça. Quando legítima, isto é, com limão, água e açúcar apenas. (...) As demais batidas com maracujá e outras perfumarias, se alistam no exército do Pará”.

Em todos os bares de Vitória (quando há limão, está claro...) prepara-se essa batida ou  batidinha-de-limão. Mas não consegui até agora saber se, de fato, aqui entre nós se conhece também pelo nome de batida paulista.

No “cardápio”diário do mais típico restaurante brasileiro, o “Cabeça chata” do Manezinho Araújo, não encontro referência à batida paulista, na lista do “instóque pra faze diluivo im bêbo”. Mas lá está, no rol dos bate-bates, a batida-de-limão.

Além de referência de Calasans e de Mário de Andrade, só encontrei alusão à batida paulista num livro lançado em 1935 pela Editora Nacional, de São Paulo — Maraia, de Marques de Rebello – classificado no Grande Concurso de Romances Machado de Assis. Lê-se aí, à página 53, este tópico que aqui nos interessa: “O dia em que ele mais gozou, foi na segunda-feira, quando viu os Furrecas. Vi-os de madrugada, por acaso, na Lapa, quando, de lanternas apagadas calados os instrumentos, voltavam da Avenida. Vinham murchos, num passo de enterro, desmantelados, vencidos. (...) pobres coitados! —  que cara traziam com o último lugar no concurso do Jornal do Brasil. / Teixeirinha regalou a tripa. Quá, quá, quá —  gargalhava de se ouvir no outro mundo. / Tira uma linhada só, Rizoleta! / Rizoleta nem viu direito. Passavam longe e ela estava vesga de cachaça com limão, de que é composta a famosa batida paulista. Ele também. Beberam mais: quá, quá, quá!”

Mas nessa altura, o leitor ou leitora estão interessados, talvez, em saber como se prepara essa famosa batida-de-limão, tão boa contra a gripe “asiática”.

Ouvi alguns “barmen” da cidade (esse “barmen”, para alguns informantes, é uma maneira de dizer...) Do que apurei, aqui vai a informação:

A coisa mais simples do que parece. A receita é facílima, e pode ser preparada num instante a “batida” — se houver limão.

Tome-se um rico limão, esprema-se-lhe o suco num cálice. Para esta quantidade corresponderá um copo de cachaça pura (ou, para não melindrar a gente-bem: um copo de cau-de-vie – nome francês da nossa “água que passarinho não bebe”). Nessa mistura, juntem-se duas colheres (ou uma colher e meia) de açúcar para abrandar a força da cachaça, como está na informação de Calasans e Mário de Andrade. Feito isso, bate-se, bate-se, bate-se, bate-se bem, e serve-se então a gostosa batida-de-limão, em cálices ou copinhos com gelo. Depois... estala-se a língua. E se quiser cumprir à risca o ritual, entorne-se antes de beber, um pouquinho dela no chão, pro santo ou pro cabôco...


(Neves, Guilherme Santos. “Batida de limão é “vacina de pobre”...”. A Gazeta. Vitória, 6 de outubro de 1957, segundo caderno, p.1)

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