Ano 5 - setembro  2002 - nº 49


BRANCA, BRANQUINHA, MOÇA BRANCA...

FONTE INSPIRADORA

ÁGUA QUE PASSARINHO NÃO BEBE

FEITA DE CANA CRIOULA...

REMÉDIO BOM

BIBLIOGRAFIA

PINGATERAPIA

João Chiarini

O mal maior de nossa gente é pensar que um “canturião” ou um “dançador” bebem. Quando saímos para realizar folclore puro e colher tudo de cultura popular fora de nossa cidade, é hábito muito comum, freqüentíssimo mesmo, o de oferecer à gente do Centro de Folclore de Piracicaba, bebidas com elevado teor alcoólico, principalmente a “pinga”. É claro que com outro nome. Para que se possa ter uma idéia da nomenclatura da “uca”, bastará que falemos aqui, em número: temos registrado.... 2014 nomes diferentes. Todos interessantes, alguns fabulosos, outros curiosíssimos. Não nomes de rótulos, dos fabricantes, dos engarrafadores. Nomes que registramos nos botequins, nos bares, nas vendolas de estrada e nas dos povoados, capelas, arraiais, etc...

A “brasa” está intimamente ligada à medicina popular como um remédio de primeiríssima ordem.

É um remédio barato. Pouca importância terá se a “chispa” é da boa ou da má. Mesmo porque é muito difícil conhecer se a “malvada” presta ou não. Em geral, toma-se como base para dizer-se, se a “boa” é boa quando esta não é ácida, podre, forte, “ruspiosa”, etc...

Outros costumam agitar a garrafa fechada e se se formar no gargalo, um “colo” acentuado, disse então, que a “caipirinha” é consumível. Há os que esfregam o líquido na costa da mão, persistindo o cheiro é aceitável. Para outros a “urucubaca” deve ser amarelada. Daí a esperteza de alguns em juntar a ela caramelos. Há quem lhe acrescente: canela, limão, coco, sassafraz, etc., para que melhore o seu gosto.

Mas tudo isso está errado. A “traiçoeira” deve ser puríssima. E como tal deve ser tomada. Puríssima e integral é uma de Rio das Pedras. A da xácara Bom Retiro. Lá tem outras: Três Coroas, a do Carlos Padoveze, etc... Aqui em Piracicaba havia a do Forti, agora há a do Mélega.

Não há também pinga velha. Tolice grande. Uma que for colocada em recipiente de carvalho ou peroba-mirim, com o correr dos anos come a madeira. Daí a podridão resultante, não só na madeira, mas sobretudo na própria pinga.

Não existe pinga de “caninha”. É lenda, é saída comercial. A “caninha” não dá pinga nem mesmo a “taquiri”, que chupamos em Caravelas, Itabuna, na Bahia de ruas misteriosas.

A “brava” não envelhece nunca. Sim. Ela sobressatura-se. Que é outra coisa muito distinta e diferente de senilidade.

Já há alguns anos fôramos apresentados a um homem aristocrata dos mais finos, ocupando atualmente uma pasta federal. Dizia-nos grande, imenso entendedor de “aguardente”. Razoalvelmente o homem falara-nos sobre a “alambicada a fogo”, sobre a “ponta de cana” e mais um mundão de coisas. Fizemo-lhes um “test” de Rocharch (é claro, desmoralizado, porque não sabemos bem o que seja isso). Demo-lhe uma xícara de uma das de nossa coleção que o escritor Antônio Osvaldo Ferraz a chamaria de “xodó”. O homem não gostou. Bem mais tarde lhe demos da mesma. Não gostou. Em outra ocasião oferecemo-lhe a mesma. Gostou muito. É que o homem não sabia que tínhamos botado uma gotícula de Lysoform.

Quem complica a “safada” é o bebedor. Não aquela que a tem em casa como remédio. Já vimos a “sucuri”, juntada a centenas de coisas. E cura tudo: picada de escorpião. Que é exemplo costumeiro em Olímpia, lá em cima; em Tietê, aqui em baixo.

A “privação de sentidos” esquenta: Examine-se isto: “tá frio, cachaça; tá quente, cachaça”. Abranda o estado nervoso. Artistas, oradores engolem-na antes de irem ao palco.

Participa a “água que passarinho não bebe” do preparo do peru, do quentão, etc...

Ainda afugenta a traça e a barata. Por isso pulverizam-na por sobre os livros. Um “Rui Barbosa” nosso estava atacando, foi pinga em cima e os bichinhos correram.

A “democrática participa de milhares de manipulações preparadas pelo povo inculto e por gente de destacada cultura. Não vamos dar aqui o receituário, que é longo, mais alguma coisinha:

1. Pinga com açúcar evita a recaída; 2. Pinga com fernet cura dor de barriga; 3. Com sucupira, resfriado; 4. Com açúcar queimado, resfriado; 5. Com artemísia, provoca o ciclo menstrual; 6. Com losna, estômago; 7. Com arruda, estômago; 8. Com chuchu, reumatismo; 9. Com casca d’anta ou com sucupira, tumor; 10. Sucção de pinga. resfriado; 11. Com café quentíssimo e limão, defluxo, resfriado; 12. Com sal, para dor; 13. Com sassafraz, para dor de barriga; 14. Com fumo, para bicho de pé; 15. Com teia de aranha, para ferida; 16. Com cinza, para frieira; 17. Com ameixa, purgativo; 18. Com folhas de abacate, diurético; 19. Com folhas de eucaliptos, suador; 20. Com guiné, fecha o corpo contra os eflúvios, malefícios, etc. etc...


(Chiarini, João. “Pingaterapia”. Diário de Piracicaba. Piracicaba, 22 de janeiro de 1950)

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