João Chiarini
O mal maior de nossa gente é pensar que um
canturião ou um dançador bebem. Quando saímos para realizar
folclore puro e colher tudo de cultura popular fora de nossa cidade, é hábito muito
comum, freqüentíssimo mesmo, o de oferecer à gente do Centro de Folclore de Piracicaba,
bebidas com elevado teor alcoólico, principalmente a pinga. É claro que com
outro nome. Para que se possa ter uma idéia da nomenclatura da uca, bastará
que falemos aqui, em número: temos registrado.... 2014 nomes diferentes. Todos
interessantes, alguns fabulosos, outros curiosíssimos. Não nomes de rótulos, dos
fabricantes, dos engarrafadores. Nomes que registramos nos botequins, nos bares, nas
vendolas de estrada e nas dos povoados, capelas, arraiais, etc...
A brasa está intimamente ligada à medicina popular como um remédio de
primeiríssima ordem.
É um remédio barato. Pouca importância terá se a chispa é da boa ou da
má. Mesmo porque é muito difícil conhecer se a malvada presta ou não. Em
geral, toma-se como base para dizer-se, se a boa é boa quando esta não é
ácida, podre, forte, ruspiosa, etc...
Outros costumam agitar a garrafa fechada e se se formar no gargalo, um colo
acentuado, disse então, que a caipirinha é consumível. Há os que esfregam
o líquido na costa da mão, persistindo o cheiro é aceitável. Para outros a
urucubaca deve ser amarelada. Daí a esperteza de alguns em juntar a ela
caramelos. Há quem lhe acrescente: canela, limão, coco, sassafraz, etc., para que
melhore o seu gosto.
Mas tudo isso está errado. A traiçoeira deve ser puríssima. E como tal deve
ser tomada. Puríssima e integral é uma de Rio das Pedras. A da xácara Bom Retiro. Lá
tem outras: Três Coroas, a do Carlos Padoveze, etc... Aqui em Piracicaba havia a do
Forti, agora há a do Mélega.
Não há também pinga velha. Tolice grande. Uma que for colocada em recipiente de
carvalho ou peroba-mirim, com o correr dos anos come a madeira. Daí a podridão
resultante, não só na madeira, mas sobretudo na própria pinga.
Não existe pinga de caninha. É lenda, é saída comercial. A
caninha não dá pinga nem mesmo a taquiri, que chupamos em
Caravelas, Itabuna, na Bahia de ruas misteriosas.
A brava não envelhece nunca. Sim. Ela sobressatura-se. Que é outra coisa
muito distinta e diferente de senilidade.
Já há alguns anos fôramos apresentados a um homem aristocrata dos mais finos, ocupando
atualmente uma pasta federal. Dizia-nos grande, imenso entendedor de
aguardente. Razoalvelmente o homem falara-nos sobre a alambicada a
fogo, sobre a ponta de cana e mais um mundão de coisas. Fizemo-lhes um
test de Rocharch (é claro, desmoralizado, porque não sabemos bem o
que seja isso). Demo-lhe uma xícara de uma das de nossa coleção que o escritor Antônio
Osvaldo Ferraz a chamaria de xodó. O homem não gostou. Bem mais tarde lhe
demos da mesma. Não gostou. Em outra ocasião oferecemo-lhe a mesma. Gostou muito. É que
o homem não sabia que tínhamos botado uma gotícula de Lysoform.
Quem complica a safada é o bebedor. Não aquela que a tem em casa como
remédio. Já vimos a sucuri, juntada a centenas de coisas. E cura tudo:
picada de escorpião. Que é exemplo costumeiro em Olímpia, lá em cima; em Tietê, aqui
em baixo.
A privação de sentidos esquenta: Examine-se isto: tá frio, cachaça;
tá quente, cachaça. Abranda o estado nervoso. Artistas, oradores engolem-na antes
de irem ao palco.
Participa a água que passarinho não bebe do preparo do peru, do quentão,
etc...
Ainda afugenta a traça e a barata. Por isso pulverizam-na por sobre os livros. Um
Rui Barbosa nosso estava atacando, foi pinga em cima e os bichinhos correram.
A democrática participa de milhares de manipulações preparadas pelo povo inculto
e por gente de destacada cultura. Não vamos dar aqui o receituário, que é longo, mais
alguma coisinha:
1. Pinga com açúcar evita a recaída; 2. Pinga com fernet cura dor de barriga; 3. Com
sucupira, resfriado; 4. Com açúcar queimado, resfriado; 5. Com artemísia, provoca o
ciclo menstrual; 6. Com losna, estômago; 7. Com arruda, estômago; 8. Com chuchu,
reumatismo; 9. Com casca danta ou com sucupira, tumor; 10. Sucção de pinga.
resfriado; 11. Com café quentíssimo e limão, defluxo, resfriado; 12. Com sal, para dor;
13. Com sassafraz, para dor de barriga; 14. Com fumo, para bicho de pé; 15. Com teia de
aranha, para ferida; 16. Com cinza, para frieira; 17. Com ameixa, purgativo; 18. Com
folhas de abacate, diurético; 19. Com folhas de eucaliptos, suador; 20. Com guiné, fecha
o corpo contra os eflúvios, malefícios, etc. etc...
(Chiarini, João. Pingaterapia. Diário
de Piracicaba. Piracicaba, 22 de janeiro de 1950) |