Téo Brandão
O segundo motivo abordado por José Calasans na sua
interessante obra Cachaça, moça branca, diz respeito ao culto à bebida. Revela o
folclorista sergipano a existência de um verdadeiro culto à cachaça em Maroim (Sergipe)
que ele denominou de culto da serpente venenosa do alto mar, culto que ele
equipara à célebre procissão ou festa do deus Baco, realizada na antiga província de
Pernambuco e descrita por Pereira da Costa.
Em Alagoas, embora como em todo o Brasil, haja devotos da Santa caninha e
estes sejam denominados de irmãos da opa, não há nem houve, ao que me
consta, nenhum culto religioso organizado nos moldes daquele de que nos noticia o
ensaísta de Aracaju.
Contudo, se não há um culto religioso, há pelo menos um culto cívico ou melhor uma
macaqueação ou arremedo de organização militar com o grêmio tradicional e bastante
conhecido, mormente na época carnavalesca, do 44º Espadas dÁgua.
Este célebre batalhão de pés de cana é formado por um certo número de
aficionados da branquinha e se apresenta organizado em estado-maior, quartel
general, oficialidade, possuindo hino, ordens do dia, etc.
Inquirindo um dos seus comandantes a respeito da origem da denominação de
44º Espadas dÁgua, nada nos pode responder, afirmando que o nome era muito antigo
e que já existia quando verificara praça há trinta e tantos anos passados.
Nessa data ou em época pouco anterior, lembramo-nos de que em Viçosa saía por ocasião
do Carnaval um Clube Carnavalesco Espadas dÁgua. Também informante
residente nesta capital diz-nos que aí por 1910 existiu em Maceió um Clube Carnavalesco
Espadas dÁgua naturalmente predecessor da atual organização.
O que parece é que a criação de tal organismo se deve à influência de Pernambuco
pois, refere-nos Pereira da Costa no verbete Espada dÁgua de seu
precioso Vocabulário pernambucano que em 1900 fundou-se no Recife o 13º
Batalhão Espada dÁgua, sob o comando do marechal Maia Maravilhoso e quem em
1902 já tinha filial em Tejipió (A Pimenta, 1902).
Quanto à adoção do número 44, ou foi meramente acidental ou poderia
significar o número dos primitivos componentes do grupo.
A sua organização íntima foi-nos prometida por altos oficiais do quadro mas
infelizmente até o momento de traçar estas notas não chegou às nossas mãos. Veio-nos,
porém, o hino do Batalhão, letra (diz a cópia que nos foi fornecida) do capitão Chico
Papaovo (?) para ser cantada com a música da Tirolesa. Hino portanto, recente, a menos
que não seja substituído de algum outro mais antigo:
Estr.
44,
Espada dágua força de grande valor
44,
Tem general, só não tem governador.
I
Eu vou passar a vida inteira
Na bebedeira, na bebedeira...
Honrando as nossas tradições
Tomando cana de alambique aos garrafões.
II
Viva o nosso chefe em ação
O general Luís Falcão
Que comanda de boa fé
A nossa carga de cavalaria a pé
Da existência desta corporação é que talvez tenha vindo a expressão comum em certas
rodas de bebaças para os indivíduos que se encontram embriagados de
fardados, dizendo-se além disso que o indivíduo está de talabarte e
perneira quando a embriaguez é completa.
A estas atividades pseudo-militares possivelmente se prende também uma cançoneta que
ouvi muitas vezes na minha infância, e que se não nos enganamos é por sua vez paródia
de outra canção, da mesma época que o professor Luís Lavenere registra na segunda
edição de sua interessante e preciosa coleção Nossas cantigas:
Assentei praça na polícia eu digo.
Por ser amigo da distinta farda.
Agora é tarde: me recordo e penso.
Trabalho imenso, não se folga nada.
Adeus, compadre, adeus também amigos.
Há 12 anos que na praça eu vivo,
Tomando cálice de cognac fino
Vou vencer batalhas e sofrer castigos
mas da qual só conseguimos as duas estrofes que aqui vão transcritas até que um
veterano do 44 ou das tropas irregulares possa um dia enviar-me o
restante:
Tomei um porre na semana santa
Que a vizinhança de mim teve dó:
Segunda-feira fui saindo à rua
Vestindo a calça pelo paletó.
Adeus, Levada, bairro da cachaça
Assentei praça com destino ao Rio,
Um alagoano como eu não corre
Ou mata de morre mas sustenta o brios.
Voltando porém às manifestações de culto religioso da cachaça podemos ainda
informar que tivemos certa feita notícia da existência entre nós de uma ladainha
possivelmente símile do decálogo que Americano do Brasil (Cancioneiro de trovas do
Brasil Central), registra e José Calasans transcreve, a qual entretanto não foi
possível chegar ainda em nossas mãos.
Todavia podemos assegurar que o culto à bebida referendado por orações não existe só
em Sergipe, Bahia ou Pernambuco. Em Paraíba transcreveu Sabino Campo em seu romance
Catimbó um interessante Creio em Deus Padre recitados pelos
crentes da cotréia:
Creio na fertilidade do solo todo produtor, criador da casa e da caninha; creio na
aguardente, nosso alimento, a qual foi concebida por obra e graça do alambique; nasceu da
puríssima cana, padeceu sob o poder da moenda, foi derramada e sepultada no copo, desceu
ao fundo da caldeira, ao terceiro dia ressurgiu da garrafa, subiu ao céu da boca, está
no tonel, bem arrolhado, de onde há de vir alegrar os grandes e os pequenos. Creio no
espírito de 40º, na santa safra anual, na comunicação dos pifões, na remissão dos
chinfrins, na ressurreição dos pileques e na ressaca eterna, amém.
Também em Minas Gerais o meu prezado confrade e querido amigo Saul Martins me mandou como
saudação de Natal, uma variante deste credo, por ele coligido num botequim de Belo
Horizonte no dia 20 de dezembro de 1951:
Creio tenho fé e esperança nos grandes canaviais, na utilidade do gole e todo
produto da cana e caninha;
Creio na aguardente que é o nosso alimento, o qual foi concebido por obra e graça do
alambique.
Nasceu de um puríssimo canudo, padeceu sob os apertões e pressões das moendas, foi
derramado e sepultado no cocho; no terceiro dia ressurgiu da garrafa, subiu ao céu da
boca dos cachaceiros e paus dágua, está nas garrafas bem arrochadas, de onde há
de vir alegria pra os grandes e pequenos.
Creio no espírito de 40º, na santa safra de mel, na diminuição dos impostos, na
remissão dos sem pena, na eternidade da cana, na salvação dos pinguços, na ressaca
eterna, assim seja.
(Brandão, Téo. Ainda o folclore da
cachaça. Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 21 setembro 1952) |