Luís da Câmara Cascudo
Pelo interior do Brasil ainda resiste o costume do bebedor derramar um pouco de bebida no
chão. Antes ou depois de servir-se, joga aguardente no solo. É um gesto maquinal mas
alcançando todo o território nacional.
Outrora era mais comum o líquido ser atirado antes de beber-se. Presentemente o uso é
lança-lo ao final, esgotando o copo. Este deve ficar limpo. Sem bebida. Identicamente em
Portugal, Espanha, França, Itália etc.
Já tenho, desde 1941, publicado observações a respeito do rito da cachaça e seus
respeitos no âmbito popular. Quando comecei a estudar o catimbó (Meleagro. Rio de
Janeiro, Editora Agir, 1951) encontrei o mesmo complexo no mundo da magia branca e negra,
entre os "mestres" do catimbó e os babalorixás do Xangô.
Quantas vezes nas minhas pesquisas em Natal ouvi o diálogo clássico entre os veteranos
cachaceiros. Enchido o copo, o que paga diz a frase ritual: Vamos dar-lhe! O
homenageado deverá responder: Venha de lá, valendo exigir que o outro beba em
primeiro lugar. Este retruca: Venha de lá que eu vou de cá! Tradução:
"Beberei depois de você"; O homenageado sacode uma porção de
"branquinha" no chão, e ingere. Passa o copo ao outro que sorve sua parte.
Atualmente é o ofertante que joga no solo o que sobrou da bebida.
É o comum, diariamente verificável, cerimonial antiqüíssimo porque é cumprido sem que
mais se conheça sua significação. Desapareceu qualquer elemento compulsivo mas continua
obrigatório, indispensável no costume, fazendo parte integrante da etiqueta normal, da
boa educação no plano da camaradagem.
No catimbó todo o cauim (aguardente) bebido foi preliminarmente defumado com a
"marca" (cachimbo do mestre) e deve uma parte ser atirada no chão em homenagem
aos mestres, os soberanos dos reinos invisíveis, doadores dos "bons saberes".
Em certos catimbós a obrigação deve ser feita antes e depois de beber. Antes de tocar
com os lábios e depois de haver sorvido a porção protocolar. Nos mais rústicos e
antigos catimbós, o de mestre Dudu da Serrana, na margem esquerda do rio Potengi, diante
da cidade do Natal, derramava-se um copo inteiro de cachaça antes de qualquer
"trabalho", logo depois de aberta a sessão e cantada a "Linha de
abertura".
Nos mais adiantados onde os "mestres" tinham lido e viajado (Pará, Bahia,
Recife ou Rio de Janeiro) a oferta cingia-se às gotas jogadas ao solo, antes ou depois de
beber-se.
Era fatal, com os "mestres" fiéis à tradição catimbozeira na legitimidade da
expressão, o gesto para que o bebedor deixasse o copo inteiramente vazio. O copo com
algum líquido, depois da bebida, era uma falta manifesta de respeito aos
"mestres", invisíveis e poderosos.
Só existe uma explicação para este costume arraigado e natural no nosso povo. É a Libatio
dos romanos e gregos, desaparecida há quase dois mil anos no uso religioso e mantida no
costume inconsciente, pelos herdeiros da cultura que se dissolveu, no tempo, em Portugal
e, decorrentemente, no Brasil colonial. E ficou resistindo até nossos dias.
O ato de Libaro era justamente derramar água, vinho ou óleo perfumado, no
chão, no lume ou no altar, oferenda aos deuses.
Não se começava uma refeição grega ou romana sem a libação. Provava-se o líquido e
despejava-se o restante no solo. Sem esta pequena cerimônia os deuses teriam inveja da
alegria do banquete e vingar-se-iam. Para contentá-los ofereciam, antecipadamente, parte
do simpósio, expresso no Libatio ritual. Era a participação sagrada no alimento
terrestre.
Comumente faziam a Libatio como súplica. Homero (Ilíada, XVI, 221-233)
descreve a libação de Aquiles, na tenda diante de Tróia, a Zeus, senhor do raio,
oferecendo-lhe vinho em taça virgem. Devia ser o primeiro ato diário dos homens
virtuosos aconselhava Hesíodo, no Trabalhos e os dias.
O apóstolo Paulo, I Filipenses 11, 17, fala em "derramar meu sangue à
maneira de libação", mostrando a contemporaneidade da cerimônia. O Velho
testamento abunda em citações comprovadoras, Números, XXVIII, 7-8, Reis,
VII, 1-6 etc.
Em Burna o tamarineiro (Tamarindus Indica, L) é venerado e ofertam vinho e água às suas
raízes. Entre os jeje-nagô, o Irôco, gameleira (Ficus religiosa), lôco dos bantu,
recebe culto idêntico na África, e na Bahia, estudado por Nina Rodrigues, Artur Ramos,
Edison Carneiro. Seabrook registrou semelhantemente no Haiti. Na Índia os
"ficus", Banian (F. indica) e Pipal (F. religiosa, a nossa gameleira), têm
direitos idênticos, despejando-se ghee, manteiga clarificada, no tronco.
Igualmente o Tulusi, outro ficus, é sagrado, com manifestações da libação.
Diga-se, de passagem, que o deus Crisna se casou com a árvore Tulusi.
Petrônio (Satiricon, LXXIV) conta no banquete de Trimalxião o arrepio de susto
quando um galo inopinadamente cantou. Anunciava incêndio próximo ou a morte de alguém.
O dono da casa passou o anel da mão esquerda para direita. Aspergiram o azeite das
lâmpadas. Todo o vinho foi derramado sob a mesa. "Vinum sub mensa jussit effundi".
Era uma libação, evitando o presságio para os alegres convivas.
Nos antigos povos caçadores o costume da libação aos troféus era elemento decisivo
para felicidade e seqüência da fartura. Os crânios de certos animais eram molhados de
vinho, como ainda hoje fazem os Ainos com as cabeças de ursos.
Lembro um episódio que presenciei no Recife durante o Carnaval de 1939, creio. Um popular
mandou abrir uma garrafa de cerveja e derramou-a no chão, junto ao porta-bandeira de um
clube barulhento e querido que vinha sendo acompanhado por uma multidão entusiastica. O
porta-bandeira, sorridente e orgulhoso, molhou a extremidade da haste do estandarte,
perfeitamente certo da alta significação simbólica que sua agremiação merecera. Era,
irretorquivelmente, uma libação clássica.
Num romance recente de Nevil Shute (A Hora Final, Rio de Janeiro, 1958, p.1000) a libatio
aparece como uma normalidade inglesa, norte-americana, australiana. Fala um general
reformado, Sir Douglas Froude: "Ergueu o seu cálice de xerez: Bem. Agradeçamos à
Providência por você ter voltado são e salvo. Creio que devíamos derramar um pouco no
chão em sinal de júbilo".
No monitórios do Santo Ofício nos séculos XVI e XVII perguntava-se cuidadosamente se na
residência suspeita de judaísmo, em caso de falecimento, esvaziavam toda água
existente, despejando-a fora, como fizeram com o vinho no banquete de Trimalxião. A
explicação do monitorio era bem diversa mas com a libação com água pura existiu entre
os israelitas (Reis I, VII, 1-6), bem podia tratar-se de uma representação
típica aos manes funerários.
Esta superstição ainda existe, usual e viva, no Brasil.
O tempo vai passando mas não leva todas as coisas. Muitas vão ficando dentro do
cotidiano, vividas numa vitalidade surpreendente, manifestações sem conteúdo místico
mas reais no gesto notário que lhes denuncia a existência milenar.
(Cascudo, Luís da Câmara. "Derramar bebida no
chão". O Estado de São Paulo. 16 de novembro de 1958) |