José Calasans
É natural que a cachaça seja exaltada pelos seus amigos e consumidores. A embriaguez
não faz ingratos. Os "amigos da pinga", são geralmente, pessoas reconhecidas.
Dedicam ao "parati" sincera e até comovente estima. Não esquecem jamais sua
bebida predileta. Louvam a "geritiba" a qualquer hora, em qualquer lugar.
Vou dizer a minha loa
Aqui nesta freguesia
Seja de noite ou de dia
Aguardente é coisa boa.
O conceito de boa bebida não é não poderia ser uniforme. Cada paladar
vale uma opinião. Há quem goste da "teimosa" de um modo geral, sem fazer
restrição de espécie alguma.
Toda onda que vem passa
Os navios tão chegando
O farol tá escutando
Mais bom só tem a cachaça.
Outros preferem as "misturadas"
Conheça poeta e home
Falando no corrimão
Como Deus formou Adão
Dizendo às grandes pessoas:
A cachaça só e boa
Preparada com limão.
Os alambiques também dividem a opinião das "pipas". Em Sergipe, por exemplo, a
cachaça de Zé de Hanequim, fabricada na cidade de Maroim, desfruta prestígio geral. A
favor da cachaça de Hanequim falam muitos poetas. Está num samba:
Relógio bom
O de Maroim
Cachaça boa
A de Hanequim.
O poeta popular Josias Pereira da Silva defende o mesmo ponto de vista.
Conheça Manué Joaquim
Pois minha sina é assim
Depois que tamo falando
Cachaça qui nós tá tomando
Boa só tem Hanequim
Evidentemente manifestações diversas poderão ser relacionadas. Num tom lírico, bardo
desconhecido fala da "sauna" destilada nos Oiteirinhos, uma das grandes usinas
de Sergipe.
Minha negrinha é cachaça
Da usina dos Oiteirinho
Tem um gosto de manteiga
Na boca do seu neguinho.
Outro elogio à "pindaiba" de procedência laranjeirense, que possui o mérito
de deixar o "pingareiro" lépido, correndo:
Cachaça boa
é de Laranjeiras
Quem bebe ela
Sai na carreira
Cada estado do Brasil, sem dúvida alguma, produz suas "jurupingas"
preferenciais. A "abrideira" de Santo Amaro na Bahia, é a mais gabaritada.
Santo Amaro é a terra da "desmancha samba":
Ele é santamarense
Ou da terra da caninha
Não quero que você pense
Que ele gosta da "branquinha".
No Rio de Janeiro, desde os tempos coloniais ganhou fama a aguardente de Parati, cujo nome
ficou sendo sinônimo de cachaça. A cidade fluminense atrai, seduz, envolve e prende...
por causa do "tempero".
Quem vai a Parati
Não sai dali.
No campo do chamado folclore bairrista, assunto a merecer um estudo nem sempre encontramos
referências elogiantes às bebidas alcoólicas de certos lugares. Artur Ramos, no São
Francisco recolheu:
Pilão Arcado da miséria
Xique-Xique dos bundões
Icatu cachaça ruim
Barra ficou pra ladrões
Ao lado do elogio das fábricas e das cidades produtoras temos também a exaltação da
"bodega" onde se vende a "penicilina". Em Aracaju, ouvimos uma
"louvação" deste gênero:
Preto largue de abuso
Que eu já venho co meu destino
Porque a cachaça boa
É só bebo no Aspirino
A "congonha" também se recomenda pelos efeitos rápidos que causa. O conceito
já referido anteriormente, está expresso na quadra:
Cachaça boa
É a de pé de áio
Aqui mesmo eu bebo
Aqui mesmo eu caio
Muito boa não será, com efeito, aquela "friinha" , desobediente, tola, que
sobe pra cabeça em vez de ir para a barriga. Em Alagoas, conforme o saudoso José Lima, o
"aguardenteiro" costuma advertir, defendendo-se:
Cachaça tola
Não se faça besta
Desça pra barriga
Não vá pra cabeça.
A velha quadra nordestina, há poucos anos aproveitada em um samba carnavalesco, é, em
última análise, a luta tantas vezes desigual entre o homem e a bebida.
Ai cachaça
Por favor não me aborreça
Você desce pra barriga
Mas não vá pra cabeça.
(Calasans, José. "O elogio da cachaça". Jornal
da Bahia, 31 de março de 1963) |