Ano 5 - setembro  2002 - nº 49


BRANCA, BRANQUINHA, MOÇA BRANCA...

FONTE INSPIRADORA

ÁGUA QUE PASSARINHO NÃO BEBE

FEITA DE CANA CRIOULA...

REMÉDIO BOM

BIBLIOGRAFIA

O FOLCLORE DA CACHAÇA NO RIO GRANDE DO SUL

Carlos Galvão Krebs


A bebida popular no Brasil, de Norte a Sul, é a cachaça. O Rio Grande do Sul não escapa a isso. As três armas que o gaúcho usa, paradoxalmente contra o calor e contra o frio, são a pala, o chimarrão e... a cachaça.

Precisamente por ser a bebida popular por excelência é que a cachaça vem despertando a atenção dos folcloristas nos últimos tempos. Desde o sociólogo Gilberto Freyre, desde o respeitabilíssimo Luis da Câmara Cascudo, até José Calasans que publicou Cachaça, moça branca na série oficial das edições do Museu do Estado da Bahia.

Seguindo a trilha, vamos alinhavar aqui o pouco que sabemos a respeito do folclore da cachaça no Rio Grande do Sul.

A sinonímia

Como em toda a parte do país, também aqui a voz mais comum para designar a aguardente é cachaça. Mas se fala muito em caninha, cana e canha, por influência de cana, forma castelhana. Às vezes se ouve dizer branquinha. Um dos sinônimos mais curiosos que temos ouvido é rama, "Meter rama" é beber muito, especialmente caninha. Depois da descoberta de Fleming como na Bahia, também se diz no Rio Grande, "Bota aí uma penicilina".

A mais famosa

Sem dúvida alguma pelo que temos ouvido no estado fora dele referida por gaúchos saudosos do pago, a mais famosa cachaça do Rio Grande do Sul é a caninha azulada, de Santo Antônio da Patrulha. Sob a luz natural apresenta uma bela coloração azulada, conseguida à base de casca de bergamota segundo uns, ou de carvão vegetal segundo outros. Infelizmente como Santo Antônio fica na rota das praias atlânticas, sua cachaça veio sendo por demais solicitada. Disto resulta uma queda de qualidade. Na própria fonte de produção nos chegamos adquirir a azulada ainda morna, recém saída do alambique.

As marcas de cachaça

(...) A coleta de rótulos para coleção exige uma técnica muito simples. Muitos rótulos são impressos em papel de pouco peso, isto é, papel muito fino. E freqüentemente os produtores usam goma muito forte. Daí surgir dificuldades para a retirada dos rótulos que se rasgam à menor tentativa. Entretanto basta deitar a garrafa horizontalmente, cobrindo o rótulo com um pano leve, sobre o qual se derrama vagarosamente o conteúdo de uma chaleira de água fervendo. Ao final o rótulo pode ser destacado com relativa facilidade e com prejuízo mínimo para a sua integridade.

O ritual dos bebedores

Os bebedores da campanha do Rio Grande conservam uma bela forma para beber tradicionalmente sua cachaça. Velha fórmula e sempre nova, porque antiga e atual. Chega um gaúcho a uma venda qualquer. Cumprimenta todos e ordena ao bodegueiro que "bote" uma dose de cana. Sempre há pelos cantos alguns guascas bebericando e conversando. Servida a cana, o recém chegado apanha o copo e o passa sem beber — ao que lhe está mais próximo. Este recusa:

— "Não, senhor está em boa mão!"

— Mas para melhor vai!"

Só então o convidado apanha o copo e bebe um trago. E passa a caninha ao seguinte da roda. Ao terminar a volta, sobra ao pagante um gole exatamente igual ao que todos beberam. Aquele que paga – e isto é essencial à gentileza gaúcha – é sempre o último a beber.

Acreditamos que haverá muitas outras fórmulas para registrar. Entretanto não nos parece existirem no Rio Grande do Sul aquelas loas, lodaças e glosas de que fala Calasans na Bahia, seja para pedir um gole, seja para agradecer uma bicada.

Anedotário

Embora relatando um gaúcho certo dia deu com os costados num consultório médico. Depois do exame o doutor lhe proibiu terminantemente a cachaça. Em casa, o pobre homem deu para sentir uma dor de cabeça tremenda. Não teve dúvida foi à venda e mandou botar a dose que então se chamava "quatrocentão de cana". De uma só vez metia no copo três dedos; o polegar, o indicador e o médio da mão direita. Em seguida enquanto dois dedos esfregavam a cachaça na testa para passar a dor, o guasca chupava o polegar avidamente...

Também a outro pêlo duro foi proibida a cachaça. Ao voltar ao doutor, este não viu nenhuma melhora com o tratamento. Pergunta severamente:

- "O senhor não bebeu cachaça, mesmo?"

- Não senhor! Quando eu tava com muita gana, botava farinha de mandioca num prato, despejava cachaça em cima, mexia bem e... comia o pirão!"

A cachaça na poesia popular

O estudante Mário Vieira recolheu em 1950, na Estância de Umbá, município de Cruz Alta, uma deliciosa "décima" sobre a cachaça. Ouviu-a do negro Adolfo posteiro da fazenda e cantador nas horas vagas. Adolfo morreu no verão de 1953 para 1954. Não fosse a coleta de Mário Vieira e talvez tivéssemos perdido para sempre estes saborosos versos:

Saudade, tenho saudade
Da terra onde nasci
Saudade duma aguardente
Da cachaça que eu bebi

A cachaça é minha prima
O vinho meu primo irmão
A cachaça eu bebo em copo
O vinho em garrafão.

Eu não gosto da cachaça
E o vinho não posso ver
Quando eu pego na garrafa
Deixo os outros sem beber

Uma moça me pediu
Que eu deixasse de beber
Eu de beber eu não deixo
De um porre eu quero morrer

No fundo de um alambique
Vou fazer minha sepultura
Que mesmo depois de morto
Quero viver na fartura

Da garrafa eu faço a vela
Da pipa faço caixão
Do funil faço a mortalha
Me botem um copo na mão

Quando eu morrer ninguém chora
Quem chora são as garrafa
Eu quero que o povo diga
Morreu o pai da cachaça


O pejorativo da cachaça

Bebida barata e popular a cachaça estigmatizada em toda uma classe social. "Negro cachaceiro!" é expressão comum no Rio Grande do Sul. Na frase feita, o negro não funciona como epiderme, como raça, mas sim como classe, a mais baixa e ínfima classe social. Pelo menos essa é a intenção consciente ou inconsciente. Recordamos um fato que torna isto bem flagrante. O advogado Sílvio Faria Correia (agora falecido) foi preso junto com Borges de Medeiros quando peleava nas covilhas a favor dos constitucionalistas de São Paulo, em 1932. Passada a revolução publicou ( no estrangeiro é claro) um livro de memórias, Serro alegre. Narra que, em momentos de frio intenso, ele e seus companheiros se aqueceram com tragos de "rum". O livro circulou clandestinamente em Porto Alegre. Logo um jornal governista apanhou o pião na unha e lançou um artigo ridicularizando o movimento constitucionalista, os revolucionários e o autor do livro. Título do artigo: "Rum, não: cachaça". A darmos crédito ao artigo, o episódio comprova, pelo direito e pelo avesso, aquilo que queremos demonstrar. De um lado, o revolucionário gaúcho transforma a rude e singela cachaça em "rum" sofisticado inteiramente estranho à campanha do Rio Grande do Sul. Isto, para furtar-se ao estigma pejorativo da caninha. De outro lado o jornal, a acentuar precisamente tal estigma. O título "Rum, não: cachaça!" nada mais quer dizer senão este insulto, visando os revolucionários – "Negros cachaceiros".

As misturas de cachaça

Com vistas à medicina lembramos logo a cachaça com arnica, vegetal abundante no estado. Arnica (subentendido: em infusão na cachaça) sempre foi uma verdadeira panacéia. Servia para tudo, desde a simples luxação até o ferimento grave.

Mas foi para a bebida que a cana teve e tem maior utilidade. Não houve uma senhora, mulher de estancieiro, no Rio Grande do Sul que não tivesse feito seus licores à base de caninha. Dentre eles sobressai o universal licor de butiá. O butiazeiro é um palmeira típica do Sul do país. Seus "coquinhos", com cerca de uma polegada de diâmetro são gordos e saborosos. Cachaça, butiás, açúcar, mais algum tempinho para descansar, sempre deram como resultado esse licor tradicional do Rio Grande do Sul. Hoje com o progresso muitas estancieiras adquirem nas farmácias "da cidade" o álcool puro a tantos graus para fazer seus licores.

Em Porto Alegre, mesmo o gaúcho citadino encontra em qualquer bar (e não é força de expressão, é a pura verdade) as mais variadas misturas de caninha.

Por exemplo:

Caninha com "bagos de zimbaro", ou bagas de zimbra, também chamadas de Wacholder em alemão. Desta vez os luso-brasileiros, freqüentemente fazem uma corruptela dizendo "Bachola" com o CH alemão. As bagas de Zimbra são sementes pequenas, redondinhas, de um verde escuro, que se deitam em quantidade dentro de um recipiente cheio de cachaça. Dão um gosto especial à caninha. Sua finalidade é estomacal segundo se afirma. Tal mistura há tempo vem sendo explorada industrialmente por uma empresa da capital do estado.

Caninha com mastruço, erva do gênero das crucíferas medicinais.

Caninha com losna, outro vegetal com qualidades estomacais conforme a crença popular.

Caninha com cabreúva (casca) que deve ser cortadinha para poder entrar pelo gargalo da garrafa. A cabreúva, que é árvore transmite à cachaça um perfume delicado e especial como se lhe tivessem adicionado gotas de perfume.

E ficamos aqui.

Sabemos, melhor de que ninguém, que isto não esgota o tema. Ao contrário constitui apenas um lembrete aos folcloristas e tradicionalistas gaúchos que poderão registrar muito mais coisas do que nós.

(Krebs, Carlos Galvão Krebs. "O folclore da cachaça no Rio Grande do Sul". A Hora. Porto Alegre, 21 de fevereiro de 1959)

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