André João Antonil
Ainda que o nome de engenho compreenda todo o edifício, com as oficinas e casas
necessárias para moer a cana, cozer e purgar o açúcar, contudo, tomado mais em
particular, o mesmo é dizer casa do engenho que casa de moer a cana, com o artifício que
engenhosamente inventaram. E tendo nós já chegado a esta casa com a cana conduzida para
a moenda, daremos alguma notícia do que ela é e do que nela se obra, para espremer o
açúcar da cana, valendo-me do que vi no engenho real de Sergipe do Conde, que entre
todos os da Bahia é o mais afamado.
Levanta-se à borda do rio sobre dezessete grandes pilares de tijolo, largos quatro
palmos, altos vinte e dois, e distantes um do outro quinze, uma alta e espaçosa casa,
cujo teto coberto de telha assenta sobre tirantes, frechais e vigas de paus, que chamam de
lei, que são dos mais fortes que há no Brasil, a quem nenhuma outra terra leva nesta
parte vantagem, com duas varandas ao redor: uma para receber cana e lenha, outra para
guardar madeiras usuais de sobressalente. E a esta chamam casa da moenda, capaz de receber
comodamente quatro tarefas de cana sem perturbação e embaraço dos que necessariamente
hão de lidar na dita casa, e dos que por ela passam, sendo caminho aberto para qualquer
outra oficina, e particularmente para as casas imediatamente contíguas das fornalhas e
das caldeiras, contando de comprimento todo este edifício cento e noventa e três palmos
e oitenta e seis de largo. Mói-se nesta casa a cana com tal artifício de eixos e rodas
que bem merece particular reflexão e mais distinta notícia.
Tomam para mover a moenda do rio acima, aonde faz a sua queda natural, a que chamam
levada, que vem a ser uma porção bastante de água do açude ou tanque, que para isso
tem, divertida com represas de pedra e tijolo do seu curso, e levada com declinação
moderada por um rego capaz e forte nas margens, para que a água vá unida e melhor se
conserve, cobrando na declinação cada vez maior ímpeto e força, com seu sangrador para
a divertir, se for necessário, quando por razão das chuvas ou cheias viesse mais do que
se pretende e com outra abertura para duas bicas, uma que leva água para a casa das
caldeiras, e outra que vai a refrescar o aguilhão da roda grande dentro da moenda,
servindo-se, para a comunicar ao outro aguilhão, de uma tábua, e assim vai a entrar no
cano de pau, que chamam caliz, sustentado de pilares de tijolo e na parte superior
descoberto, cujo extremo inclinado sobre os cubos da roda se chama feridor, porque por ele
vai a água a ferir os ditos cubos, donde se origina e continua o seu moto. Assentam os
aguilhões do eixo desta roda, um pela parte de fora e outro pela parte de dentro da casa
da moenda, sobre seus chumaceiros de pau, com chapa de bronze, e a estes sustentam duas
virgens, ou esteios de fora, e duas de dentro, com seu brinquete, que é a travessa em que
os aguilhões se encostam. E, sobre estes, como dissemos, vai sempre caindo uma pequena
porção de água, para os refrescar, de sorte que pelo contínuo moto não ardam,
temperando-se com a água suficientemente o calor.
As aspas da roda larga e grande sustentam aos arcos ou círculos dela, e dentro aparecem
os cubos ou covas feitas no meio da roda e unidos um a outro com o fundo fechado do forro
interior da mesma roda entre os dois arcos dela, assegurados com muitas cavilhas de ferro,
e com suas arruelas e chavetas metidas e atravessadas para enchavetar as pontas das
cavilhas, causa de não bulirem os arcos nem os cubos ao cair da água e de ir a roda com
suas voltas segura. Perto da roda, pela banda de fora, estão dois esteios, altos e
grossos, com três travessas, asseguradas também de outra parte, uma das quais sustenta a
extremidade do caliz, duas ao feridor e outra ao pejador do engenho. É o pejador uma
tábua, pouco mais larga que a roda, de dez ou doze palmos de comprimento, com suas
bordas, semelhante a um grande tabuleiro, debaixo do feridor, com uma cavilha chavetada,
de sorte que se possa jogar e bulir com ela sem resistência e, por isso, se faz o buraco
da cavilha bastantemente largo; e na parte inferior tem, no lado que se vai a encostar à
parede da moenda, um espigão de ferro, preso também com uma argola de ferro que,
entrando por uma abertura pela dita parede, com sua mão ou cabo, em o qual se encavilha
sobre um esteio que chamam mourão, à maneira de engonços, fica à disposição de quem
está na moenda o mandá-la parar ou andar como quiser, empurrando ou puxando pelo
pejador, o qual, pondo-se sobre os cubos, impede ao feridor o dar-lhe o moto com a queda
da água; e tornando a descobrir aos cubos, torna a mover-se a roda e com a roda a moenda.
E isto é muito necessário em qualquer desastre que pode acontecer, para lhe acudir
depressa e atalhar os perigos. E chamam a esta tábua pejador, porque também ao parar do
engenho chamam pejar; porventura, por se pejar um engenho real de ser retardado ou
impedido, ainda por um instante e de não ser sempre, como é razão, moente e corrente. E
isto quanto à parte exterior da moenda, donde principia o seu movimento.
Entrando, pois, na casa interior, o modo com que se comunica o moto por suas partes a
moenda é o seguinte. O eixo da roda grande que, como temos dito, pela parte de fora se
mete dentro da casa do engenho, tem no seu remate interior, chegado aonde assenta o
aguilhão sobre o brinquete e esteios, um rodete fixo e armado de dentes, que o cerca; e
este, virado ao redor pelo caminho do dito eixo, apanha sucessivamente na volta, que dá
com seus dentes, outros de outra roda superior, também grande, que chamam volandeira,
porque o seu modo de andar circularmente no ar sobre a moenda se parece com o voar de um
pássaro, quando dá no ar seus rodeios. Os dentes do rodete que eu vi eram trinta e dois,
e os da volandeira, cento e doze. E porque as aspas da volandeira passam pelo pescoço do
eixo grande da moenda, por elas se lhe comunica o impulso, e este, recebido do dito eixo
grande, cercado de entrosas e dentes, se comunica também a dois outros eixos menores que
têm, de ambas as ilhargas, dentados e abertos igualmente, com suas entrosas do mesmo modo
que temos dito do grande; e com estes dentes e entrosas se causa o moto, com que
uniformemente o acompanham.
As aspas da volandeira são oito, quatro superiores e quatro inferiores, e as inferiores
têm suas contraspas, para maior segurança. Os três eixos da moenda são três paus
redondos de corpo esférico, alto nos menores iguais cinco palmos e meio, e no maior, que
é o do meio, alto seis palmos e também de esfera maior que os outros, e por eleição o
melhor, porque, jogando com os dois, que nas ilhargas continuamente o apertam, gasta-se
mais que os outros, e, por isso, por boa regra, os menores têm nove dentes e o maior onze
e só este (para falarmos com a língua dos oficiais) tem seu pescoço e cabeça alta,
conforme a altura do engenho e, comumente, ao todo vem a ter o dito eixo doze palmos de
alto, cuja cabeça de dois palmos e meio, mais delgada que o pescoço, entra por um pau
furado que chamam porca, sustentado de duas vigas de quarenta e dois palmos, as quais
assentam sobre quatro esteios altos dezessete palmos e grossos quatro, com suas travessas
proporcionadamente distantes. E, ainda que os outros dois eixos menores não têm
pescoço, contudo, pela parte de cima, entram quanto basta com sua ponta ou aguilhão, por
uns paus furados, que chamam mesas ou gatos, com que ficam direitos e seguros em pé. Os
corpos dos três eixos, da metade para baixo, são vestidos igualmente de chapas de ferro
unidas e pregadas com pregos feitos para este fim com a cabeça quadrada e bem entrante,
para se igualarem com as chapas, debaixo das quais os corpos dos eixos são torneados com
tornos de paus de lei para que fique a madeira mais dura e mais capaz de resistir ao
contínuo aperto que há de padecer no moer. Sobre as chapas aparece um círculo ou faixa
de pau, que é a outra parte do corpo dos mesmos eixos, despida de ferro; e logo
imediatamente se segue o círculo dos dentes de pau de lei, encaixados no eixo com suas
entrosas (que são umas cavaduras ou vãos repartidos entre dente e dente) para entrarem e
saírem delas os dentes dos outros eixos colaterais, que para isso são em tudo iguais os
dentes e as entrosas, a saber: os dentes na grossura e na altura e as entrosas na largura
e profundeza do encaixamento ou vazio que comumente saem do corpo do eixo, comprimento de
cinco ou seis dedos, de largura de uma mão, e de quatro ou cinco dedos de costa, de forma
quase chata e nos extremos redonda. E, ainda que entre dente e dente dos eixos menores
haja espaço medido por compasso de igual medida, que é um palmo grande, os do eixo maior
têm de mais a mais tanto espaço além do palmo, quanto ocuparia a grossura de uma moeda
de dois cruzados, e isto se faz para que estejam em sua conta e não entrem no mesmo tempo
os dentes dos eixos colaterais, mas um se siga atrás de outro e desta sorte se continue
em todos três o moto que se pretende. E, por isso, também os dentes e as entrosas de um
eixo se hão de desencontrar dos dentes e entrosas de outro, a saber, ao dente do eixo
grande há de corresponder a entrosa do pequeno, e ao dente do pequeno a entrosa do
grande. São os dentes (como dizia) na parte que sai fora do eixo algum tanto chatos, e no
fim quase redondos, largos quatro ou cinco dedos, e outro tanto grossos, e entram quase
outros quatro dedos pela sua raiz no eixo, aonde se asseguram, além da parte com que
fazem parede às entrosas, que são na mesma conta quatro ou cinco dedos profundas. Sobre
os dentes dos eixos menores fica a terceira parte do pau descoberta e se remata a modo de
degraus em dois círculos menores, vestidos de duas argolas de ferro da grossura de um
dedo e meio, largura de três dedos; e na ponta do pau se vaza de tal sorte que entre nele
uma bucha quadrada de dois ou três palmos, de sapupira-mirim, a qual bucha também em
parte se vaza e nela se encaixa o aguilhão de ferro, comprimento de três palmos,
grossura de um caibro, à força de pancadas, com um vaivém de ferro. E, para melhor
segurança do aguilhão e da bucha, se abre na cabeça dos quatro lados da bucha, com uma
palmeta de ferro, à força de pancadas do vaivém, e se lhe metem umas palmetas ou cunhas
menores de pau de lei, para não aluir. E, pelo mesmo estilo de degraus e argolas, bucha e
aguilhão, com que temos dito, se remata a parte superior dos dois eixos menores, se
rematam também as partes inferiores de todos três, ajuntando, demais, a cada aguilhão,
seu pião de ferro, calçado de aço da grossura de uma maçã, que também se encaixa
pela parte superior até dois dedos dentro do aguilhão e pela parte inferior põem a
ponta sobre outro ferro chato, que chamam mancal, de comprimento de um palmo, também
calçado de aço, para que se não fure com o contínuo virar que sobre ele faz o pião. E
todos estes três eixos ou corpos da moenda, aonde chega o pião ao mancal, assentam sobre
um pau, que chamam ponte, de comprimento de quinze ou dezesseis palmos, e para sustentar
toda a moenda forte e segura, servem quatro virgens, que são quatro esteios, altos da
terra nove palmos, e grossos sete, semelhantes no seu ofício de suster aos que sustentam
as vigas grandes e a porca ou pau furado, por onde passa a ponta do eixo grande que sobre
os outros colaterais se levanta até a dita altura, como parte principal da moenda. Sobre
estas virgens, de ponta a ponta, vão uns paus, que chamam mesas, quase um palmo de
grossura, e vinte de comprimento, sobre as quais descansam as travessas, que chamam gatos,
em que se movem os eixos pela parte superior; e sobre estes vai outro andar ao comprido,
de tábuas, que chamam agulhas, as quais servem para segurar as cunhas, com que se aperta
a moenda.
O lugar aonde se põem os feixes da cana, que imediatamente há de passar para se espremer
entre os eixos, são dois tabuleiros, um de uma parte, e outro de outra, que têm seus
encaixos ou meio-círculos ao redor dos eixos da moenda, afastados deles tanto quanto
basta para não lhes impedir suas voltas. E o estarem os tabuleiros chegados aos eixos é
para que não caia a cana, ou o bagaço dela, perto dos aguilhões e retarde de algum modo
aos piões, e para que se não suje o caldo que sai da cana moída.
(Antonil, André João. Cultura e opulência do
Brasil. 3ª ed. Belo Horizonte, Editora Itatiaia / São Paulo, Editora da Universidade
de São Paulo, 1982. Reconquista do Brasil (nova série), 70, p.107-111) |