Ano 5 - setembro  2002 - nº 49


BRANCA, BRANQUINHA, MOÇA BRANCA...

FONTE INSPIRADORA

ÁGUA QUE PASSARINHO NÃO BEBE

FEITA DE CANA CRIOULA...

REMÉDIO BOM

BIBLIOGRAFIA

DO ENGENHO OU CASA DE MOER A CANA, E COMO SE MOVE A MOENDA COM ÁGUA

André João Antonil


Ainda que o nome de engenho compreenda todo o edifício, com as oficinas e casas necessárias para moer a cana, cozer e purgar o açúcar, contudo, tomado mais em particular, o mesmo é dizer casa do engenho que casa de moer a cana, com o artifício que engenhosamente inventaram. E tendo nós já chegado a esta casa com a cana conduzida para a moenda, daremos alguma notícia do que ela é e do que nela se obra, para espremer o açúcar da cana, valendo-me do que vi no engenho real de Sergipe do Conde, que entre todos os da Bahia é o mais afamado.

Levanta-se à borda do rio sobre dezessete grandes pilares de tijolo, largos quatro palmos, altos vinte e dois, e distantes um do outro quinze, uma alta e espaçosa casa, cujo teto coberto de telha assenta sobre tirantes, frechais e vigas de paus, que chamam de lei, que são dos mais fortes que há no Brasil, a quem nenhuma outra terra leva nesta parte vantagem, com duas varandas ao redor: uma para receber cana e lenha, outra para guardar madeiras usuais de sobressalente. E a esta chamam casa da moenda, capaz de receber comodamente quatro tarefas de cana sem perturbação e embaraço dos que necessariamente hão de lidar na dita casa, e dos que por ela passam, sendo caminho aberto para qualquer outra oficina, e particularmente para as casas imediatamente contíguas das fornalhas e das caldeiras, contando de comprimento todo este edifício cento e noventa e três palmos e oitenta e seis de largo. Mói-se nesta casa a cana com tal artifício de eixos e rodas que bem merece particular reflexão e mais distinta notícia.

Tomam para mover a moenda do rio acima, aonde faz a sua queda natural, a que chamam levada, que vem a ser uma porção bastante de água do açude ou tanque, que para isso tem, divertida com represas de pedra e tijolo do seu curso, e levada com declinação moderada por um rego capaz e forte nas margens, para que a água vá unida e melhor se conserve, cobrando na declinação cada vez maior ímpeto e força, com seu sangrador para a divertir, se for necessário, quando por razão das chuvas ou cheias viesse mais do que se pretende e com outra abertura para duas bicas, uma que leva água para a casa das caldeiras, e outra que vai a refrescar o aguilhão da roda grande dentro da moenda, servindo-se, para a comunicar ao outro aguilhão, de uma tábua, e assim vai a entrar no cano de pau, que chamam caliz, sustentado de pilares de tijolo e na parte superior descoberto, cujo extremo inclinado sobre os cubos da roda se chama feridor, porque por ele vai a água a ferir os ditos cubos, donde se origina e continua o seu moto. Assentam os aguilhões do eixo desta roda, um pela parte de fora e outro pela parte de dentro da casa da moenda, sobre seus chumaceiros de pau, com chapa de bronze, e a estes sustentam duas virgens, ou esteios de fora, e duas de dentro, com seu brinquete, que é a travessa em que os aguilhões se encostam. E, sobre estes, como dissemos, vai sempre caindo uma pequena porção de água, para os refrescar, de sorte que pelo contínuo moto não ardam, temperando-se com a água suficientemente o calor.

As aspas da roda larga e grande sustentam aos arcos ou círculos dela, e dentro aparecem os cubos ou covas feitas no meio da roda e unidos um a outro com o fundo fechado do forro interior da mesma roda entre os dois arcos dela, assegurados com muitas cavilhas de ferro, e com suas arruelas e chavetas metidas e atravessadas para enchavetar as pontas das cavilhas, causa de não bulirem os arcos nem os cubos ao cair da água e de ir a roda com suas voltas segura. Perto da roda, pela banda de fora, estão dois esteios, altos e grossos, com três travessas, asseguradas também de outra parte, uma das quais sustenta a extremidade do caliz, duas ao feridor e outra ao pejador do engenho. É o pejador uma tábua, pouco mais larga que a roda, de dez ou doze palmos de comprimento, com suas bordas, semelhante a um grande tabuleiro, debaixo do feridor, com uma cavilha chavetada, de sorte que se possa jogar e bulir com ela sem resistência e, por isso, se faz o buraco da cavilha bastantemente largo; e na parte inferior tem, no lado que se vai a encostar à parede da moenda, um espigão de ferro, preso também com uma argola de ferro que, entrando por uma abertura pela dita parede, com sua mão ou cabo, em o qual se encavilha sobre um esteio que chamam mourão, à maneira de engonços, fica à disposição de quem está na moenda o mandá-la parar ou andar como quiser, empurrando ou puxando pelo pejador, o qual, pondo-se sobre os cubos, impede ao feridor o dar-lhe o moto com a queda da água; e tornando a descobrir aos cubos, torna a mover-se a roda e com a roda a moenda. E isto é muito necessário em qualquer desastre que pode acontecer, para lhe acudir depressa e atalhar os perigos. E chamam a esta tábua pejador, porque também ao parar do engenho chamam pejar; porventura, por se pejar um engenho real de ser retardado ou impedido, ainda por um instante e de não ser sempre, como é razão, moente e corrente. E isto quanto à parte exterior da moenda, donde principia o seu movimento.

Entrando, pois, na casa interior, o modo com que se comunica o moto por suas partes a moenda é o seguinte. O eixo da roda grande que, como temos dito, pela parte de fora se mete dentro da casa do engenho, tem no seu remate interior, chegado aonde assenta o aguilhão sobre o brinquete e esteios, um rodete fixo e armado de dentes, que o cerca; e este, virado ao redor pelo caminho do dito eixo, apanha sucessivamente na volta, que dá com seus dentes, outros de outra roda superior, também grande, que chamam volandeira, porque o seu modo de andar circularmente no ar sobre a moenda se parece com o voar de um pássaro, quando dá no ar seus rodeios. Os dentes do rodete que eu vi eram trinta e dois, e os da volandeira, cento e doze. E porque as aspas da volandeira passam pelo pescoço do eixo grande da moenda, por elas se lhe comunica o impulso, e este, recebido do dito eixo grande, cercado de entrosas e dentes, se comunica também a dois outros eixos menores que têm, de ambas as ilhargas, dentados e abertos igualmente, com suas entrosas do mesmo modo que temos dito do grande; e com estes dentes e entrosas se causa o moto, com que uniformemente o acompanham.

As aspas da volandeira são oito, quatro superiores e quatro inferiores, e as inferiores têm suas contraspas, para maior segurança. Os três eixos da moenda são três paus redondos de corpo esférico, alto nos menores iguais cinco palmos e meio, e no maior, que é o do meio, alto seis palmos e também de esfera maior que os outros, e por eleição o melhor, porque, jogando com os dois, que nas ilhargas continuamente o apertam, gasta-se mais que os outros, e, por isso, por boa regra, os menores têm nove dentes e o maior onze e só este (para falarmos com a língua dos oficiais) tem seu pescoço e cabeça alta, conforme a altura do engenho e, comumente, ao todo vem a ter o dito eixo doze palmos de alto, cuja cabeça de dois palmos e meio, mais delgada que o pescoço, entra por um pau furado que chamam porca, sustentado de duas vigas de quarenta e dois palmos, as quais assentam sobre quatro esteios altos dezessete palmos e grossos quatro, com suas travessas proporcionadamente distantes. E, ainda que os outros dois eixos menores não têm pescoço, contudo, pela parte de cima, entram quanto basta com sua ponta ou aguilhão, por uns paus furados, que chamam mesas ou gatos, com que ficam direitos e seguros em pé. Os corpos dos três eixos, da metade para baixo, são vestidos igualmente de chapas de ferro unidas e pregadas com pregos feitos para este fim com a cabeça quadrada e bem entrante, para se igualarem com as chapas, debaixo das quais os corpos dos eixos são torneados com tornos de paus de lei para que fique a madeira mais dura e mais capaz de resistir ao contínuo aperto que há de padecer no moer. Sobre as chapas aparece um círculo ou faixa de pau, que é a outra parte do corpo dos mesmos eixos, despida de ferro; e logo imediatamente se segue o círculo dos dentes de pau de lei, encaixados no eixo com suas entrosas (que são umas cavaduras ou vãos repartidos entre dente e dente) para entrarem e saírem delas os dentes dos outros eixos colaterais, que para isso são em tudo iguais os dentes e as entrosas, a saber: os dentes na grossura e na altura e as entrosas na largura e profundeza do encaixamento ou vazio que comumente saem do corpo do eixo, comprimento de cinco ou seis dedos, de largura de uma mão, e de quatro ou cinco dedos de costa, de forma quase chata e nos extremos redonda. E, ainda que entre dente e dente dos eixos menores haja espaço medido por compasso de igual medida, que é um palmo grande, os do eixo maior têm de mais a mais tanto espaço além do palmo, quanto ocuparia a grossura de uma moeda de dois cruzados, e isto se faz para que estejam em sua conta e não entrem no mesmo tempo os dentes dos eixos colaterais, mas um se siga atrás de outro e desta sorte se continue em todos três o moto que se pretende. E, por isso, também os dentes e as entrosas de um eixo se hão de desencontrar dos dentes e entrosas de outro, a saber, ao dente do eixo grande há de corresponder a entrosa do pequeno, e ao dente do pequeno a entrosa do grande. São os dentes (como dizia) na parte que sai fora do eixo algum tanto chatos, e no fim quase redondos, largos quatro ou cinco dedos, e outro tanto grossos, e entram quase outros quatro dedos pela sua raiz no eixo, aonde se asseguram, além da parte com que fazem parede às entrosas, que são na mesma conta quatro ou cinco dedos profundas. Sobre os dentes dos eixos menores fica a terceira parte do pau descoberta e se remata a modo de degraus em dois círculos menores, vestidos de duas argolas de ferro da grossura de um dedo e meio, largura de três dedos; e na ponta do pau se vaza de tal sorte que entre nele uma bucha quadrada de dois ou três palmos, de sapupira-mirim, a qual bucha também em parte se vaza e nela se encaixa o aguilhão de ferro, comprimento de três palmos, grossura de um caibro, à força de pancadas, com um vaivém de ferro. E, para melhor segurança do aguilhão e da bucha, se abre na cabeça dos quatro lados da bucha, com uma palmeta de ferro, à força de pancadas do vaivém, e se lhe metem umas palmetas ou cunhas menores de pau de lei, para não aluir. E, pelo mesmo estilo de degraus e argolas, bucha e aguilhão, com que temos dito, se remata a parte superior dos dois eixos menores, se rematam também as partes inferiores de todos três, ajuntando, demais, a cada aguilhão, seu pião de ferro, calçado de aço da grossura de uma maçã, que também se encaixa pela parte superior até dois dedos dentro do aguilhão e pela parte inferior põem a ponta sobre outro ferro chato, que chamam mancal, de comprimento de um palmo, também calçado de aço, para que se não fure com o contínuo virar que sobre ele faz o pião. E todos estes três eixos ou corpos da moenda, aonde chega o pião ao mancal, assentam sobre um pau, que chamam ponte, de comprimento de quinze ou dezesseis palmos, e para sustentar toda a moenda forte e segura, servem quatro virgens, que são quatro esteios, altos da terra nove palmos, e grossos sete, semelhantes no seu ofício de suster aos que sustentam as vigas grandes e a porca ou pau furado, por onde passa a ponta do eixo grande que sobre os outros colaterais se levanta até a dita altura, como parte principal da moenda. Sobre estas virgens, de ponta a ponta, vão uns paus, que chamam mesas, quase um palmo de grossura, e vinte de comprimento, sobre as quais descansam as travessas, que chamam gatos, em que se movem os eixos pela parte superior; e sobre estes vai outro andar ao comprido, de tábuas, que chamam agulhas, as quais servem para segurar as cunhas, com que se aperta a moenda.

O lugar aonde se põem os feixes da cana, que imediatamente há de passar para se espremer entre os eixos, são dois tabuleiros, um de uma parte, e outro de outra, que têm seus encaixos ou meio-círculos ao redor dos eixos da moenda, afastados deles tanto quanto basta para não lhes impedir suas voltas. E o estarem os tabuleiros chegados aos eixos é para que não caia a cana, ou o bagaço dela, perto dos aguilhões e retarde de algum modo aos piões, e para que se não suje o caldo que sai da cana moída.


(Antonil, André João. Cultura e opulência do Brasil. 3ª ed. Belo Horizonte, Editora Itatiaia / São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1982. Reconquista do Brasil (nova série), 70, p.107-111)

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