Veríssimo de Melo
Os nossos prezados amigos e confrades José Calasans Brandão da Silva, da Bahia, e
Guilherme Santos Melo, do Espírito Santo, têm divulgado através dos Boletins da
Comissão Nacional do Folclore, interessantes contribuições ao folclore da cachaça.
Pelo que já publicaram, com repercussão até mesmo no estrangeiro, e nós bastaremos
citar este brilhante trabalho do doutor J. A. Pires de Lima, intitulado "As bebidas
alcoólicas no folclore americano", inserto na Revista de Dialectologia y
Tradiciones Populares, de Madri, tomo 6, cad.3, 1959, que acabamos de receber, onde
há merecidas referências a esses dois estudiosos do populário nacional, não resta a
menor dúvida que eles são, no momento, os nossos mais autorizados especialistas no
assunto.
E nós podemos garantir que isso vai aqui sem a mais leve ironia, porque, em verdade, uma
coisa é ser estudioso da cachaça e outra muito diferente é o de gostar de cachaça,
embora haja quem prefira reunir o útil ao agradável.
O assunto é realmente vasto e tem sido abordado, sob variados aspectos, por uma
infinidade de escritores nacionais. Só o anedotário, bem coligido, daria para um volume
fabuloso. Mas, como acreditamos que o folclore da cachaça está a exigir não artigos ou
contribuições esparsas, porém um livro massudo e denso (e este seria um dos livros mais
divertidos da bibliografia brasileira), somos de opinião de que ninguém estaria mais
capacitado para fazê-lo do que José Calasans ou Guilherme Santos Neves ou os dois
juntos.
Contudo, enquanto aqueles nossos amigos não escrevem o livro que estamos esperando, sobre
o folclore da cachaça, é sempre oportuno que lhes enviemos contribuições regionais.
Para o capítulo da linguagem popular em torno da "branca", vão aqui estes
sinônimos de embriaguez ou de bêbado, todos registrados por nós em Natal, embora
saibamos que não é só a cachaça que produz os tipos que iremos examinar, mas todas as
bebidas alcoólicas:
Tocado; triscado; bicado; comendo um galo; puxando fogo; puxando um trem; queimado;
chumbado; encarraspando; meio fumado; comendo uma cuíca; em água; envenenado; puxando um
trote; melado.
O ato de beber, além do clássico matar o bicho (aliás este é o bicho mais difícil de
ser morto que se tem notícia na história), temos também empinar a coruja, ou
simplesmente tomar uma.
Sinônimos de certa quantidade de cachaça, entre vários outros, são estes: grog,
bicada, lenhada, trago, chamada, dose, lapada, pancada, talaga e uma.
Contudo, a nossa maior contribuição neste artigo será no que se refere às marcas de
aguardente. Certa vez na Prefeitura de Natal, reunimos um grupo de operários e alguns
funcionários (estes eram folcloristas...) e começamos a perguntar quem se lembrava (só
por ouvir dizer) de rótulos de cachaça. Da colheita, que foi farta, destaco estas
marcas, suprimindo muitas outras de nomes inexpressivos:
Mocotolina; Dois Tombos; Olho dÁgua; Serra Grande; Chuva Grossa; Pitu; Chora no
Copo; Quebra Jura; Inspiração; Bomba Atômica; Penicilina; Cigana; Neblina; Destacada;
Lourinha; Galo (que eles chamam "marca galo"); Mulata; Gilda; Escandalosa;
Tiquira; Bagaceira; Vergonha; Juízo (para que se diga: "Tome Vergonha! Tome
Juízo"); Grã-Fina; Asa Branca; Aratu; Bateria; Espiridina; Bofetada; V-8; Moleque
no Frevo; Meu Desejo; Chica Boa; Várzea Grande; Pé de Serra; Fosqueira; Maliciosa;
Bumba; Chora na Rampa; O-bá; Tambu; Monte Castelo; Volúpia; Cruz Vermelha e Trompete.
(Melo, Veríssimo de. "Achegas ao folclore da
cachaça". Em Diário de Natal. Natal, 15 de dezembro de 1950) |