Vicente Sales
Bar, boteco, botequim, birosca em toda cidade, em todo subúrbio, nos bairros
proletários é sempre o local de reunião dos bebedores inveterados. Todos eles ostentam
nomes curiosos, às vezes gaiatíssimos. E invariavelmente há avisos como este:
"Fiado só amanhã". Ou, ainda: "Bebeu, cuspiu, pagou, saiu".
"Botequim do Pimpão" é o nome que aparece numa quadra de "comédia"
de boi-bumbá, de Belém, e foi recolhida por Mário de Andrade:
Eu vi boi pular na frente
Eu vi boi pular balcão.
Eu vi boi beber cachaça
No botequim do Pimpão. [1]
Nesta brincadeira são freqüentes as alusões à
cachaça, além do seu consumo habitual pelos brincantes, inclusive o próprio
"boi". Em alguns grupos, a figura do "doutor", que é chamado para
"curar" o boi, denomina-se ironicamente "Doutor Cachaça", como o que
representou Bruno de Menezes no seu ensaio sobre o bumbá de Belém:
Doutor Cachaça
Eu quero lhe falá,
Pra curá este boi
Que eu quero me arritirá! [2]
Outrora os grupos de bumbás se insultavam mutuamente
e havia encontros memoráveis, com saldos às vezes fatais. Essas rivalidades provocaram
tantas brigas que a polícia de Belém, atendendo a preservação da ordem, resolveu
proibir o desfile pelas ruas e limitar as exibições aos terreiros onde os grupos
ensaiavam o chamado "curral". Em 1929, o chefe de polícia, Augusto Rangel
Borborema, mediante portaria, baixou as seguintes instruções:
Alínea b "Determinar que os ensaios de bois-bumbás e de outros
"cordões" semelhantes só possam ser feitos nas quintas-feiras, sábados e
domingos, isso das 19 às 24 horas (meia-noite), ficando, desde já, expressamente
proibido que durante essas funções se faça uso de aguardente (lei municipal nº 1
107, de dezembro de 1922), medida essa da qual é responsável o dono da diversão".
E alínea c "Que aos ditos "cordões" não sejam, em absoluto,
concedidas licenças para se exibir nas ruas ou praças desta capital, mas exclusivamente
nas respectivas sedes, devendo as funções ter começo na véspera de Santo Antônio, 12
de junho vindouro, para terminar impreterivelmente, a 30 do referido mês, não sendo
permitido a prática de jogos de azar, nem tampouco que as ditas diversões se prolonguem
além de uma hora da madrugada, salvo nas quintas-feiras, sábados e domingos que poderão
ir até ás 3 horas".
Foram licenciados, entre outros, os bumbás Treme Terra e Está Cavando, os dois maiores
da época. Deu-se licença ao proprietário do Sousa Bar, famoso centro da boêmia local e
uma espécie de teatro-bar, para exibir a brincadeira denominada Nau Catarineta.
Raimundo Pinheiro publicou outros versos, não exatamente folclóricos, mas arranjados à
maneira do povo a fim de serem cantados por um cordão ali da região marajoara:
Rainha da cana verde
Sou dona do canaviá
Quem me procura não perde
Peso igual ao meu não há...
Eu faço mulher danada
Que dá baile, que desanca,
Fica macia amansada,
Eu sou a Raposa Branca.[3]
Não apenas nesses folguedos populares a cachaça era
louvada. José Coutinho de Oliveira registrou, como contribuição ao folclore da
cachaça, duas cantigas populares. A primeira diz estes versos:
Ai que saudades que eu tenho
Da terra em que eu nasci
Daquela rapaziada
Da cachaça que eu bebi.
Se eu bebo, me alegra a vista,
Se eu fumo, me dá prazer,
Quem não bebe, quem não fuma,
Que alegria pode ter.
E esta outra, paródia popular à conhecida cantiga sulista e com certo caráter
humorístico:
Garibaldi já morreu
Já foi dar contas a Deus
Da farinha que comeu
Da cachaça que bebeu.
Viva Garibaldi
Vitório Emanuel
Comendo macarrão
Embrulhado no papel.[4]
Também variante de versos que correm todo o Brasil
são estes registrados por Armando Bordallo da Silva na cidade de Bragança, no interior
paraense:
O vinho feito da uva,
A cerveja da banana,
A malvada da cachaça,
Feita do suor da cana.[5]
A cachaça, largamente difundida na Amazônia desde
os tempos coloniais, está presente na pajelança, quase sempre associada ao fumo do
tauari. Eduardo Galvão presenciou em "Itá" (nome fictício de uma comunidade
do Baixo Amazonas) uma sessão de pajelança, na qual o pajé narrou a estória em que
explica a origem da cachaça. Infelizmente, não está anotada em seu livro [6] o
texto cantado pelo pajé, mas apenas um resumo da estória: "Em tempos passados a
cana-de-açúcar era muito venenosa, e quiseram matar Jesus Cristo com o seu caldo. Mas
ele soube de que tramavam e com seu poder milagroso decidiu que daí em diante somente se
fariam coisas boas da cana. Assim foi que fez o açúcar, a rapadura, e melhor que tudo, a
cachaça". Além disso, acrescenta Eduardo Galvão, o pajé recitava uma reza-poesia,
versos que diziam de Cristo e das maravilhosas propriedades do tauari, do fumo e da
cana-de-açúcar.
Nas sessões de pajelança a cachaça é bebida em cuias pequeninas, sem o verniz
característico das tão famosas "cuias pitingas". Também nos cultos
afro-brasileiros, dos subúrbios de Belém, a cuia já penetrou com a mesma função e
característica. São cuias apropriadas para beber cachaça, menores, bem menores do que
as comumente usadas para beber tacacá ou aquelas de utilidade doméstica.
Num romance antigo, largamente difundido na Amazônia, e que tem origem na poesia "A
tapuia", publicada no livro Lira das selvas (Belém, 1868), de Severiano
Bezerra de Albuquerque e de que há registradas várias versões coletadas
diretamente do povo tanto na Amazônia como no Nordeste , aparece esta referência
à cuia:
"Não quero, cariua, que a pobre tapuia
Não bebe no copo, só bebe na cuia".
Também do século passado é a melodia Pirulito que bate, bate, talvez de remota
origem folclórica, e que Santana Néri publicou no apêndice musical do seu livro Folk-lore
brésilien (Paris, 1888), com os versos traduzidos para o francês:
Pirulito que bate, bate,
Pirulito que já bateu,
Quem gosta de mim é ela,
Quem gosta dela sou
Bastante difundida na Amazônia está igualmente a quadrinha que alude a São Benedito
bebedor de cachaça:
Meu São Benedito
É santo de preto;
Ele bebe cachaça,
Ele ronca do peito.
Sabe-se que São Sebastião, devoção especial dos negros, em toda parte, também é
muito festejado na Amazônia, especialmente no Pará.
A Amazônia não tem a tradição da cantoria, do desafio ao som da viola, em porfias
poéticas infindáveis, como ocorre com freqüência nos sertões do Nordeste. Os
cantadores populares cultivam outros gêneros, alguns romances e baladas, chulas
"atrevidas", ou desfeiteiras, sem aquele cunho peculiar do canto improvisado e
memorizado narrador de estórias extensas e novelescas, como as que circulam nos livrinhos
de cordel. Mas houve a transmigração em massa de nordestinos para os seringais e as
lavouras amazônicas. O homem espalha cultura: crenças, costumes, tradições. Assim,
cantadores se aventuraram nas plagas amazônicas, tangidos do Ceará, do Rio Grande do
Norte, da Paraíba, das Alagoas etc. E como essa migração nordestina criou um mercado
consumidor de poesia em potencial, a chamada literatura de cordel também se espalhou
largamente na planície. Em Belém, além das bancas do Ver-o-peso, que ainda hoje
oferecem os tais livrinhos, houve até editoras especializadas, como a Guajarina. Em
Manaus e no Acre também se editaram folhetos. E os nordestinos, chegando às feiras,
ouviam os cantadores e compravam os seus livrinhos, tal como hoje ocorre na feira de São
Cristóvão, no Rio de Janeiro, ou na feira de Caxias, no estado do Rio de Janeiro. São
pois de procedência nordestina os versos que Adelino Brandão coletou da tradição oral,
em Belém do Pará, e que, segundo ele, se referiam a desafios acontecidos no interior do
Ceará:
a Quero que você me diga
Me diga, me diga já
O que é macumba-cumba
O que é macumba-bá
E o que é pinga-repinga
Que não para de pinga?
b Macumba-cumba é ua velha
Que ainda quer se casar
Macumba-bá é um menino
Que chora pra acalentar
Pinga-repinga é ua pipa
Que fura e pega a pingá.[8]
Desse documento literário, Adelino Brandão dá também o registro musical. Outra coleta,
do mesmo folclorista, e nas mesmas condições, são os versos abaixo também originários
do Nordeste:
a Quero que você me diga
O que a tem a tal cachaça
Que se tomando pra baixo
Assobe qui nem fumaça?
b Assobe qui nem fumaça?
Eu não sei te espilicá (explicar)
Mas parece que comigo
Tu queres desafiá
Pois agüenta a carreira
Que eu quero te derrubá.[8]
etc.
Correm também os versos duma cantiga, comum em vários estados, que é um verdadeiro
"insulto" à cachaça:
Cachaça não seja tola,
Cachaça não seja besta,
Desça logo pra barriga
Mas não suba pra cabeça.
E assim, muita coisa mais podemos recolher no Botequim do Pimpão, onde às vezes
acontecem coisas impossíveis.
Notas
1. Mário de Andrade. Danças dramáticas do Brasil, v.III, p.184.
2. Bruno de Menezes. Boi-bumbá, p.59.
3. Raimundo Pinheiro. "Quadros e Costumes do Norte", XII, in Cultura
Política, Rio de Janeiro, 2 (16), junho de 1942, p.320.
4. José Coutinho de Oliveira. Folclore amazônico, II. Sentenças populares e
adivinhas. Belém, Imprensa Universitária, 1965, p.789.
5. Armando Bordalo da Silva, "Contribuição ao estudo do folclore amazônico na zona
bragantina", in Boletim do Museu Paraense Emilio Goeldi. Nova Série,
Antropologia nº 5, julho de 1959, p.41.
6. Eduardo Galvão. Santos e visagens, p.142.
7. F. J. de Santana Néri. Folklore brésilien, doc. musical n.9 11.
8. Adelino Brandão. Recortes de folclore, p.93.
(Sales, Vicente. "No botequim do
Pimpão". Brasil açucareiro. Rio de Janeiro, abril de 1969, p.33-38) |