Ano 5 - setembro  2002 - nº 49


BRANCA, BRANQUINHA, MOÇA BRANCA...

FONTE INSPIRADORA

ÁGUA QUE PASSARINHO NÃO BEBE

FEITA DE CANA CRIOULA...

REMÉDIO BOM

BIBLIOGRAFIA

NO BOTEQUIM DO PIMPÃO

Vicente Sales


Bar, boteco, botequim, birosca — em toda cidade, em todo subúrbio, nos bairros proletários é sempre o local de reunião dos bebedores inveterados. Todos eles ostentam nomes curiosos, às vezes gaiatíssimos. E invariavelmente há avisos como este: "Fiado só amanhã". Ou, ainda: "Bebeu, cuspiu, pagou, saiu".

"Botequim do Pimpão" é o nome que aparece numa quadra de "comédia" de boi-bumbá, de Belém, e foi recolhida por Mário de Andrade:

Eu vi boi pular na frente
Eu vi boi pular balcão.
Eu vi boi beber cachaça
No botequim do Pimpão.
[1]

Nesta brincadeira são freqüentes as alusões à cachaça, além do seu consumo habitual pelos brincantes, inclusive o próprio "boi". Em alguns grupos, a figura do "doutor", que é chamado para "curar" o boi, denomina-se ironicamente "Doutor Cachaça", como o que representou Bruno de Menezes no seu ensaio sobre o bumbá de Belém:

Doutor Cachaça
Eu quero lhe falá,
Pra curá este boi
Que eu quero me arritirá!
[2]

Outrora os grupos de bumbás se insultavam mutuamente e havia encontros memoráveis, com saldos às vezes fatais. Essas rivalidades provocaram tantas brigas que a polícia de Belém, atendendo a preservação da ordem, resolveu proibir o desfile pelas ruas e limitar as exibições aos terreiros onde os grupos ensaiavam o chamado "curral". Em 1929, o chefe de polícia, Augusto Rangel Borborema, mediante portaria, baixou as seguintes instruções:

Alínea b — "Determinar que os ensaios de bois-bumbás e de outros "cordões" semelhantes só possam ser feitos nas quintas-feiras, sábados e domingos, isso das 19 às 24 horas (meia-noite), ficando, desde já, expressamente proibido que durante essas funções se faça uso de aguardente (lei municipal nº 1 107, de dezembro de 1922), medida essa da qual é responsável o dono da diversão".

E alínea c — "Que aos ditos "cordões" não sejam, em absoluto, concedidas licenças para se exibir nas ruas ou praças desta capital, mas exclusivamente nas respectivas sedes, devendo as funções ter começo na véspera de Santo Antônio, 12 de junho vindouro, para terminar impreterivelmente, a 30 do referido mês, não sendo permitido a prática de jogos de azar, nem tampouco que as ditas diversões se prolonguem além de uma hora da madrugada, salvo nas quintas-feiras, sábados e domingos que poderão ir até ás 3 horas".

Foram licenciados, entre outros, os bumbás Treme Terra e Está Cavando, os dois maiores da época. Deu-se licença ao proprietário do Sousa Bar, famoso centro da boêmia local e uma espécie de teatro-bar, para exibir a brincadeira denominada Nau Catarineta.

Raimundo Pinheiro publicou outros versos, não exatamente folclóricos, mas arranjados à maneira do povo a fim de serem cantados por um cordão ali da região marajoara:

Rainha da cana verde
Sou dona do canaviá
Quem me procura não perde
Peso igual ao meu não há...
Eu faço mulher danada
Que dá baile, que desanca,
Fica macia amansada,
Eu sou a Raposa Branca.
[3]

Não apenas nesses folguedos populares a cachaça era louvada. José Coutinho de Oliveira registrou, como contribuição ao folclore da cachaça, duas cantigas populares. A primeira diz estes versos:

Ai que saudades que eu tenho
Da terra em que eu nasci
Daquela rapaziada
Da cachaça que eu bebi.

Se eu bebo, me alegra a vista,
Se eu fumo, me dá prazer,
Quem não bebe, quem não fuma,
Que alegria pode ter.

E esta outra, paródia popular à conhecida cantiga sulista e com certo caráter humorístico:

Garibaldi já morreu
Já foi dar contas a Deus
Da farinha que comeu
Da cachaça que bebeu.

Viva Garibaldi
Vitório Emanuel
Comendo macarrão
Embrulhado no papel.
[4]

Também variante de versos que correm todo o Brasil são estes registrados por Armando Bordallo da Silva na cidade de Bragança, no interior paraense:

O vinho feito da uva,
A cerveja da banana,
A malvada da cachaça,
Feita do suor da cana.
[5]

A cachaça, largamente difundida na Amazônia desde os tempos coloniais, está presente na pajelança, quase sempre associada ao fumo do tauari. Eduardo Galvão presenciou em "Itá" (nome fictício de uma comunidade do Baixo Amazonas) uma sessão de pajelança, na qual o pajé narrou a estória em que explica a origem da cachaça. Infelizmente, não está anotada em seu livro [6] o texto cantado pelo pajé, mas apenas um resumo da estória: "Em tempos passados a cana-de-açúcar era muito venenosa, e quiseram matar Jesus Cristo com o seu caldo. Mas ele soube de que tramavam e com seu poder milagroso decidiu que daí em diante somente se fariam coisas boas da cana. Assim foi que fez o açúcar, a rapadura, e melhor que tudo, a cachaça". Além disso, acrescenta Eduardo Galvão, o pajé recitava uma reza-poesia, versos que diziam de Cristo e das maravilhosas propriedades do tauari, do fumo e da cana-de-açúcar.

Nas sessões de pajelança a cachaça é bebida em cuias pequeninas, sem o verniz característico das tão famosas "cuias pitingas". Também nos cultos afro-brasileiros, dos subúrbios de Belém, a cuia já penetrou com a mesma função e característica. São cuias apropriadas para beber cachaça, menores, bem menores do que as comumente usadas para beber tacacá ou aquelas de utilidade doméstica.

Num romance antigo, largamente difundido na Amazônia, e que tem origem na poesia "A tapuia", publicada no livro Lira das selvas (Belém, 1868), de Severiano Bezerra de Albuquerque — e de que há registradas várias versões coletadas diretamente do povo tanto na Amazônia como no Nordeste —, aparece esta referência à cuia:

"Não quero, cariua, que a pobre tapuia
Não bebe no copo, só bebe na cuia".

Também do século passado é a melodia Pirulito que bate, bate, talvez de remota origem folclórica, e que Santana Néri publicou no apêndice musical do seu livro Folk-lore brésilien (Paris, 1888), com os versos traduzidos para o francês:

Pirulito que bate, bate,
Pirulito que já bateu,
Quem gosta de mim é ela,
Quem gosta dela sou

Bastante difundida na Amazônia está igualmente a quadrinha que alude a São Benedito bebedor de cachaça:

Meu São Benedito
É santo de preto;
Ele bebe cachaça,
Ele ronca do peito.

Sabe-se que São Sebastião, devoção especial dos negros, em toda parte, também é muito festejado na Amazônia, especialmente no Pará.

A Amazônia não tem a tradição da cantoria, do desafio ao som da viola, em porfias poéticas infindáveis, como ocorre com freqüência nos sertões do Nordeste. Os cantadores populares cultivam outros gêneros, alguns romances e baladas, chulas "atrevidas", ou desfeiteiras, sem aquele cunho peculiar do canto improvisado e memorizado narrador de estórias extensas e novelescas, como as que circulam nos livrinhos de cordel. Mas houve a transmigração em massa de nordestinos para os seringais e as lavouras amazônicas. O homem espalha cultura: crenças, costumes, tradições. Assim, cantadores se aventuraram nas plagas amazônicas, tangidos do Ceará, do Rio Grande do Norte, da Paraíba, das Alagoas etc. E como essa migração nordestina criou um mercado consumidor de poesia em potencial, a chamada literatura de cordel também se espalhou largamente na planície. Em Belém, além das bancas do Ver-o-peso, que ainda hoje oferecem os tais livrinhos, houve até editoras especializadas, como a Guajarina. Em Manaus e no Acre também se editaram folhetos. E os nordestinos, chegando às feiras, ouviam os cantadores e compravam os seus livrinhos, tal como hoje ocorre na feira de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, ou na feira de Caxias, no estado do Rio de Janeiro. São pois de procedência nordestina os versos que Adelino Brandão coletou da tradição oral, em Belém do Pará, e que, segundo ele, se referiam a desafios acontecidos no interior do Ceará:

a — Quero que você me diga
Me diga, me diga já
O que é macumba-cumba
O que é macumba-bá
E o que é pinga-repinga
Que não para de pinga?

b — Macumba-cumba é u’a velha
Que ainda quer se casar
Macumba-bá é um menino
Que chora pra acalentar
Pinga-repinga é u’a pipa
Que fura e pega a pingá.
[8]

Desse documento literário, Adelino Brandão dá também o registro musical. Outra coleta, do mesmo folclorista, e nas mesmas condições, são os versos abaixo também originários do Nordeste:

a — Quero que você me diga
O que a tem a tal cachaça
Que se tomando pra baixo
Assobe qui nem fumaça?

b — Assobe qui nem fumaça?
Eu não sei te espilicá (explicar)
Mas parece que comigo
Tu queres desafiá
Pois agüenta a carreira
Que eu quero te derrubá.
[8]

etc.

Correm também os versos duma cantiga, comum em vários estados, que é um verdadeiro "insulto" à cachaça:

Cachaça não seja tola,
Cachaça não seja besta,
Desça logo pra barriga
Mas não suba pra cabeça.

E assim, muita coisa mais podemos recolher no Botequim do Pimpão, onde às vezes acontecem coisas impossíveis.


Notas

1. Mário de Andrade. Danças dramáticas do Brasil, v.III, p.184.
2. Bruno de Menezes. Boi-bumbá, p.59.
3. Raimundo Pinheiro. "Quadros e Costumes do Norte", XII, in Cultura Política, Rio de Janeiro, 2 (16), junho de 1942, p.320.
4. José Coutinho de Oliveira. Folclore amazônico, II. Sentenças populares e adivinhas. Belém, Imprensa Universitária, 1965, p.789.
5. Armando Bordalo da Silva, "Contribuição ao estudo do folclore amazônico na zona bragantina", in Boletim do Museu Paraense Emilio Goeldi. Nova Série, Antropologia nº 5, julho de 1959, p.41.
6. Eduardo Galvão. Santos e visagens, p.142.
7. F. J. de Santana Néri. Folklore brésilien, doc. musical n.9 11.
8. Adelino Brandão. Recortes de folclore, p.93.



(Sales, Vicente. "No botequim do Pimpão". Brasil açucareiro. Rio de Janeiro, abril de 1969, p.33-38)

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