Joaquim Ribeiro
Trata-se de uma versalhada em que o vinho e a água debatem as suas virtudes e qualidades.
Ora, o mesmo tema vamos encontrar no folclore canavieiro do Brasil.
Está claro que, aqui, o tema havia de ser enriquecido com outro elemento: a cachaça.
Recolheu-o o folclorista Americano do Brasil e publicou-o no Cancioneiro de trovas do
Brasil Central (1925, p.104-107).
Tal é o texto:
Cachaça Sou a cachaça e no mundo
Tenho grande estimação
Já não se fala no vinho
Só eu entro em função.
No batismo ou casamento
Todos trazem o seu vidrinho
Para levar para casa
O seu gostoso pinguinho.
Já tenho pena do vinho
Desse pobre desprezado,
Mas o povo tem razão
"Ele é tão preto, coitado".
Vinho Sim, sou preto, isso é verdade
Porém esse é meu estado;
Assim manda a natureza
De quem sou grande enviado.
Sou vermelho e tenho um trono
Pela igreja alevantado,
Fica sabendo, cachaça,
De sangue de Deus sou formado.
Entro no cálix sagrado
Em mim se rende a Deus graça,
Sou fidalgo, não misturo
Ando sempre numa massa.
Fica sabendo, cachaça,
Sou fidalgo de boa lei
Não é qualquer que me prova
Eu sou bebida de rei.
Você é feita de pau
Eu de fruta de caroço;
Você é bebida de negro,
Eu sou bebida de moço.
Cachaça, você é gente
No batuque e na folia;
Eu nas bodas, nos banquetes
Mostro minha fidalguia.
Cachaça Sou a cachaça e tu água
És mesmo bebida à toa
Andas no lodo do chão
Eu no amude da patroa.
Tu és uma porcaria
Que não dá nenhum prazer
Corres suja pelo chão
Pra qualquer bicho beber.
Saio branca do alambique
Batizada jeribita,
Vou direto pra cabeça
De toda mulher bonita.
Bichos não me bebem nunca
Não é isto novidade
Pois agora sou chamada
O elixir da humanidade.
Até o pobre endividado
Quando tem o seu vintém,
Fica alegre parecendo
Não dever nada a ninguém.
Água Verdade é dona Cachaça
Eu pertenço a toda gente,
Bebe a água qualquer bicho,
Como bem nosso regente.
Mas, quando o chão fica seco
Fazem-se preces pra eu vir,
E para chover cachaça
Nunca vi ninguém pedir.
E ai de ti, dona Cachaça,
Se não caio pelo chão,
Era uma vez o alambique
Que perdia a sua ação.
Também nunca ouvi dizer
Aos garantidores da ordem
Que ninguém por beber água
Fizesse alguma desordem.
E tu, senhora Cachaça
Com seu cheiro nauseabundo
É a maior responsável
Pelas desgraças do mundo.
(Em Ribeiro, Joaquim. Folclore do açúcar.
Rio de Janeiro, Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, 1977, p.214-216) |