Ano 5 - setembro  2002 - nº 49


BRANCA, BRANQUINHA, MOÇA BRANCA...

FONTE INSPIRADORA

ÁGUA QUE PASSARINHO NÃO BEBE

FEITA DE CANA CRIOULA...

REMÉDIO BOM

BIBLIOGRAFIA

ENGENHOS DE AÇÚCAR

Carlos Augusto Taunay


Pelo que precede, podemos concluir que o chefe de um estabelecimento de agricultura no Brasil carecia ser homem quase universal. Legislador e magistrado com a escravatura, arquiteto para edificar as casas, engenheiro e maquinista para os diferentes serviços que pertencem às mesmas artes, naturalista para conhecer os vegetais, deve a tantas partes unir ainda luzes da arte médica, veterinária e outras muitas; e decerto não houve exageração em dizer-se que quem desempenhasse com igual habilidade todas as várias obrigações da sua profissão seria digno de que o monarca lançasse mão dele e lhe confiasse um ministério; porém, se esta conclusão pode ser alguma vez justa, é mormente quando se aplica ao diretor de um engenho de açúcar. Não pode haver no mundo estabelecimento rural que exija igual reunião de fundos e artes diferentes para se pôr em andamento; ou, para melhor dizer, um engenho de açúcar é a reunião de um estabelecimento de cultura não pequeno, e de um estabelecimento fabril mui vasto e complicado; e tanto que cessando o tráfico da escravatura, ou mesmo havendo nele embaraço, de modo que os preços se conservem altos, haveria separação da cultura e da moagem, e o sistema dos lavradores será o único meio de não perdermos este ramo tão importante e rico da nossa indústria.

Hoje acham-se dois homens no administrador de um engenho; o lavrador que fornece as canas à máquina, e o fabricante de açúcar que tira delas o produto conhecido pelo nome de açúcar (Saccharum).

A cana-de-açúcar, ou canamella officinal (Saccharum officinarum, Linneus) da família das gramíneas, é de todos os vegetais da mesma família, depois do arroz e do trigo, o mais interessante e mais útil. Cultivam-no por isso nos quatro continentes, e não há que mais enriqueça os seus cultivadores.

O modo atual de a tratar no Brasil é vulgar e não carece de explanações; qualquer feitor ou preto roceiro tem conhecimento suficiente desta plantação para dar as competentes informações; porém, se nossa agricultura carece de urgentes melhoramentos; se estes melhoramentos devem trazer incalculáveis vantagens, e se existe possibilidade de os adotar desde já, é com especialidade nos engenhos aonde todos os meios estão à mão e de sobejo. Braços, oficiais, gado vacum e cavalar, terrenos desembaraçados acham-se já à disposição dos fazendeiros, e só requerendo arados para triplicar os rendimentos. Os conselhos que temos dado nos capítulos antecedentes, se bem que proveitosos para todos, são peculiarmente úteis aos senhores de engenho, que terão de ver desmerecer todos os anos as suas fábricas, se não tratarem quanto antes de melhorar o método que seguem, particularmente o de cultura, por haver de um lado mais facilidade, e de outro maior urgência, pois que a parte fabril dos engenhos não é tão defeituosa como a parte agrícola, por terem já feito os fazendeiros grandes inovações naquela parte, como sejam a adoção dos ternos de cobre, os fogões de corrente de ar, etc. Tudo quanto temos dito da necessidade de cultivar os mantimentos, de estabelecer uma disciplina perfeita entre os escravos, de tornar acessíveis as partes mais remotas da fazenda, de adotar as carretas e carroças em lugar de carros, etc., é de rigorosa obrigação para o senhor de engenho. Os outros lavradores poderão, por pobres ou faltos de certos acessórios indispensáveis, negligenciar alguns dos nossos preceitos, mas aquele não tem desculpa alguma.

Entretanto, a respeito dos mantimentos poderá acontecer, ou que as terras do engenho sejam tão escassas que as não hajam devolutas para a cultura do pão, ou que a escravatura seja pouca, e não lhe sobeje tempo para esse serviço.

A excelência das terras, no primeiro caso, dá naturalmente bastantes lucros para poder sustentar continuamente os pretos, mas o estabelecimento mais se parece com uma manufatura do que com uma lavoura. No segundo, a adoção do arado será ainda de maior urgência, e reparará esta falta que interessa figadalmente a prosperidade.

Logo que o arado trabalhar, deverão pôr-se em prática os princípios de cultura mais favoráveis à vegetação das canas; todas as plantas precisam de ar, cuja circulação e renovação promove a vegetação tanto ou mais do que os mesmos sucos do solo, e portanto será bom abandonar o sistema dos tabuleiros quadrados, e repartir o roçado em retângulos, ou tabuleiros estreitos e compridos, que dêem somente lugar para cinco fileiras de canas, plantadas a cordel, com distância de dois ou três pés de uma fileira à outra, e de outra igual distância de estaca a estaca, que deverão colocar-se em forma de xadrez. A maior ou menor distância será determinada pela natureza dos terrenos, maior nas terras fortes e abundantes em sucos, menor nas terras areentas e fracas. Os retângulos serão portanto de oito a doze pés de largura, sobre um comprimento arbitrário; plantar-se-á um de dois de canas, e os devolutos nos intervalos serão destinados à plantação do milho, feijão, arroz, etc. e até mesmo da mandioca, observando que, como este vegetal percorre um período igual ao da cana, para amadurecer, deverá meter-se na terra quando a cana dos tabuleiros vizinhos estiver na metade da sua altura, isto é, no sexto ou sétimo mês. Desta forma, a mandioca alcançará a segunda colheita da cana ainda nova enquanto precisa de frescura; e quando esta estiver na metade da sua altura, e necessitar de ar ambiente, vai a mandioca para a roda.

Bem entendido que o método de semear feijão, milho, etc., nos canaviais, enquanto novos, não se deve desprezar; portanto, a primeira limpa se fará à enxada, e a segunda ao cultivador.

É evidente que cansados os tabuleiros de canas, hão de servir para os devolutos a plantação, e que aqueles descansarão, ou receberão por seu turno, depois de arados, feijão, milho, arroz, abóbora, &c., podendo-se desta forma alternar eternamente a cultura no mesmo terreno, mormente se for de massapé, se as lavras forem amiudadas, e se se lançar mão do socorro dos adubos e irrigações. Neste caso, nunca haverá necessidade de mudar de roçados, porque a cana não exige solo superabundante em sucos, e novamente despido de matas; verdade é que em tais terras cresce a cana com rapidez e viço, e chega a uma altura que espanta; mas na moagem dá uma calda aquosa, difícil de se purificar e cozer, e que contém pouca matéria cristalizável.

As melhores terras para a cana são, como já dissemos, as de massapé de cor escura, untuosas e porosas, sem mistura de pedregulho, areia ou barro, e que foram levadas pelas aluviões para as vargens próximas aos rios e montes; algumas vezes, a oportunidade das chuvas e boa exposição compensam a mediocridade dos terrenos destinados à cultura deste preciosíssimo vegetal.

A cana veio originariamente da Índia. Os chinas a cultivam desde tempo imemorial. Os povos da nossa Antigüidade, como persas, hebreus, romanos, etc. não a conheceram. No fim do século décimo terceiro foi transportada para a Arábia feliz, e cem anos depois para a Síria, Chipre e Sicília. O infante dom Henrique, tendo descoberto a ilha da Madeira, mandou para ali canas da Sicília, e de lá propagaram-se por todas as regiões e colônias da América; as canas sicilianas eram as que hoje chamam crioulas, para as distinguir das canas de Taiti, que de Caiena, na época da conquista, foram introduzidas no Brasil, e que hoje, por serem de proporções dobradas, suplantam por toda a parte aquelas, apesar da resistência que fizeram. Ouvimos mais de uma vez as renhidas discussões que na Bahia os senhores de engenho de maior experiência e posses tinham entre si sobre o merecimento das duas espécies; e pareceu-nos que os mais aferrados partidistas da crioula não podiam negar que, se bem que o açúcar de Caiena fosse inferior em qualidade e cristalização ao da outra, não podia haver comparação no que diz respeito à quantidade e, por conseqüência, lucro. Semelhante defesa vale, decerto, uma proscrição, e com efeito é raro achar agora grandes tabuleiros de cana-crioula; alguns pés conservam-se por curiosidade, ou para se comer a cana por ser mais saborosa.

Como nos capítulos anteriores, e nos que hão de seguir, se achará tudo quanto diz respeito aos acessórios da cultura da cana, acaba aqui o que temos a dizer sobre a parte agricultural dos engenhos de açúcar, e pouco diremos também acerca da parte manufatural. Pequenos detalhes seriam insuficientes, e, para abranger todos os desenvolvimentos da matéria, seria de mister um tratado mais extenso do que este manual. As dependências da fabricação são imensas: ao maquinismo propriamente chamado engenho, e a todos os outros aparelhos necessários à moagem e fabricação do açúcar, os quais ocupam imensas casarias, devemos acrescentar as oficinas de destilação, carpintaria, ferraria, olaria e serraria. De todos estes ofícios o administrador deve ter ao menos uma idéia, para poder seguir a olho os trabalhos que nas oficinas se fizerem, e julgar o talento dos mestres de que dependem os bons resultados de tão complicado serviço.

O principal destes mestres, aquele cujo merecimento influi mais na perfeição dos produtos, é, sem contradição, o mestre-de-açúcar. É preciso que este reúna grande experiência e prática, uma certa faculdade para observar o ponto, que não pertence tanto à reflexão e observação, como à mesma organização, natural ou modificada pelo longo hábito. Tais mestres são raros, e não há ordenado que seja grande quando se podem encontrar: de ordinário faltam-lhes muitas das qualidades precisas; então guiam-se por uma rotina e tradições imperfeitas, e daí nasce em grande parte a diferença imensa dos açúcares que aparecem no mercado, se bem que as qualidades dos terrenos, temperatura do ano e circunstâncias acidentais exercem influência não pequena; porém, o bom mestre sabe conhecer, aproveitar ou corrigir as influências do clima, terreno e cultura pela proporção de cal, grau de calor e outras operações da sua arte, a qual depende das ciências mais do que se pensa, e especialmente da química, de que é um ramo mui importante.

Um engenho de moer açúcar pode ser movido por animais, vento, vapor ou água.

O serviço dos animais é mais demorado e custoso do que qualquer outro; mas em lugares secos e longínquos, e na proximidade dos sertões aonde toda a casta de gado é

barato, talvez seja o preferível.

O vento não se pode aproveitar como motor de um engenho senão em certas localidades regularmente visitadas por virações.

O vapor é de todos os motores o mais possante, porém as máquinas são sujeitas a reparações de que só um hábil oficial pode dar conta, além do que gastam muito combustível, e se não há muito cuidado com elas, são sujeitas a explosões desastrosas; portanto, não daremos de conselho que as adotem senão aqueles proprietários que, possuindo grandes fundos, e fábricas que, pela sua extensão, exigem os agentes mais poderosos, estão em circunstâncias de nada pouparem para o perfeito andamento dos seus estabelecimentos.

A água no atual estado das artes no Brasil é o motor que nos parece reunir todos os quesitos necessários à economia e comodidade; e os engenhos que, por sua posição, não têm um rio ou corgo para mover as moendas estão em muito pior condição do que aqueles que possuem este bem sem igual; e o primeiro cuidado do homem que quer levantar ou comprar um engenho deve ser o de examinar se há possibilidade de o mover por água.

Um conselho que merece não menor atenção é o de substituir os cilindros a prumo ou verticais, que são os geralmente usados, pelos cilindros deitados ou horizontais. Vimos já no Brasil alguns desta última sorte e achamo-los tão superiores pela simplicidade, força e segurança do seu serviço, que não é possível imaginar comparação alguma com os ordinários; devendo acrescentar-se que exigem mecanismo muito menos complicado, pois que o cilindro central se adapta ao eixo da mesma roda-d’água.

Não omitiremos de recomendar aos senhores de engenho o emprego do carvão animal para purgar os açúcares e tirar às cachaças o cheiro empireumático, no caso de serem aplicadas à destilação. Nada há mais fácil e menos custoso do que a confeição do dito carvão. Por toda a parte se encontram ossos; e havendo um cilindro ou caixa de ferro que feche exatamente, enche-se de ossos quebrados em pilões, e põe-se dentro do mesmo fogão a calcinar: desta sorte fabrica-se toda a porção que for necessária.

O artigo das cachaças merece particular consideração. Dando-se a seu fabrico toda a devida atenção, seu rendimento talvez seja suficiente para fazer frente às despesas do engenho, ficando como ganho líquido toda a importância do açúcar.

O método geralmente seguido de destilar as cachaças é mui defeituoso, e a mor parte dos alambiques de um feitio que tem tanto de antigo como de incômodo. Todavia, não aconselharemos que se adotem os alambiques da última invenção de Derosne de destilação contínua, senão àqueles que podem reunir todos os quesitos necessários para a sua marcha e reparo. Estamos no caso das máquinas de vapor. Os oficiais capazes de reparar qualquer desarranjo em um maquinismo complicado são tão raros, que, a não se poder obter um hábil que efetivamente dirija essas máquinas, seria temeridade estabelecê-las. Um alambique de modelo ordinário, mas bem-feito, com a cucúrbita larga, o colo comprido e o refrigerante com bastantes voltas para que o espírito corra frio, dará resultados satisfatórios, bem entendido havendo o cuidado de destilar com fogo brando, e não apurar demais as águas fracas. Mas isto depende do mestre alambiqueiro, empregado indispensável em um engenho, e de cuja escolha depende essencialmente o bom ou mau resultado.

Estas observações a respeito da destilação das cachaças aplicam-se igualmente às aguardentes de cana, muito mais finas e de preço mais subido no mercado. Este emprego da cana convém maravilhosamente a quem tem posses medíocres, porque pode principiar com uma engenhoca e dez pretos, e não existe gênero algum de cultura capaz de oferecer lucros tão avultados; porém tendo saído já da alçada da agricultura para entrar na da fabricação, não nos devemos estender mais sobre uma especulação que, como acontece com todas as outras especulações, ninguém pode empreender com vantagem se não reunir todos os meios, obras e luzes que a ela pertencem.

Repetimos que não temos a ambição de pôr uma pessoa em estado de levantar e dirigir um engenho sem o socorro dos mestres de todos os ramos de que se compõe tão complicado serviço. Explicar minuciosamente tudo quanto lhe pertence pediria, como já dissemos, um tratado ad hoc do dobro deste, e por fim de contas não eximiria o empreendedor da obrigação de procurar os diferentes mestres que devem concorrer tanto para a prontificação, como para a boa marcha do estabelecimento.

Por motivos idênticos não nos demoraremos no cálculo dos rendimentos de um engenho. Os lucros dependem de tal forma do talento do administrador, qualidade dos terrenos, habilidade dos mestres e outras circunstâncias concomitantes, que todo o cálculo poderia sair errado. Há engenho que com cem pretos apresentará 9 ou 10 mil pães, quando o vizinho, com duzentos ou trezentos escravos, não fabricará nem metade desta quantia. Geralmente falando, os pretos trabalham menos no Brasil (e seja isto tomado em abono da humanidade da nação) do que em qualquer outro país onde são aplicados como escravos ao serviço da agricultura. Raynal apresenta como resultado ordinário do trabalho de dois pretos, em um engenho favoravelmente situado e bem dirigido, sessenta quintais de açúcar bruto.

(...) Antes de concluir este capítulo, falaremos da obra do senhor Calmon, que nos parece dever fazer a base indispensável da biblioteca de todo o senhor de engenho. Se houvessem iguais tratados sobre todos os ramos da agricultura brasileira, a nossa tarefa se teria tornado mais suave; e em vez de entrar no detalhe dos misteres de cultura, se limitaria a preceitos gerais, como fizemos a respeito do fabrico do açúcar.

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(Taunay, Carlos Augusto. Manual do agricultor brasileiro. São Paulo, Companhia das Letras, 2001, p.105-117)

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