Renato Almeida
Não lhe vou falar da importância da
cana-de-açúcar, determinante de um ciclo na história do Brasil, e que, sendo econômico
e social, também é densamente folclórico. Não é a planta em si, é tudo que motiva, o
banguê, o engenho e a usina. É o centro da vida colonial, a casa grande e a senzala, e,
além do mais, o açúcar, alimento básico de nossa vida e de toda a doçaria. A
industrialização do fabrico do açúcar tirou à cana esse imenso prestígio popular,
mas o que vem dela e o que lhe é devido, é imenso.
Ainda há muita coisa a ver nos canaviais e nos engenhos e usinas. O fenômeno, porém,
não é de ordem folclórica, mas histórico e social: se, porém, a região de sua coleta
for açucareira, deve ver o folclore que persiste.
Como sempre, se se tratar de levantamento geral, observar todos os fatos, mas com
particular atenção os que disserem respeito à cana e ao açúcar. Observe, sobretudo na
região nordestina do açúcar, as cantorias, as versalhadas, as emboladas e cocos do tipo
Engenho novo, Engenho novo
Bota a roda pra rodá!
ou então
O meu engenho
É de Humaitá,
É de Humaitá,
É de Humaitá.
As adivinhas, como aquela: "que é, que é? tem pé, porém não anda; tem olho,
porém não vê; tem junta, porém não se ajoelha; tem cabelo, porém não se
penteia." Não preciso dizer que é uma engenhosa descrição da cana. E as
superstições dos canaviais e dos engenhos e usinas, os signos protetores, os nomes que
dão às peças do mecanismo, aos utensílios e pertences. As estórias e causos. E as
lendas. Muito conhecida é aquela que explica a origem do açúcar e da aguardente, que se
conta assim: Nosso Senhor andava pelo mundo e certo dia, morto de fome e de sede, dia de
calor bravo, sentou-se embaixo de um canavial para repousar. Descansou, chupou uns gomos
de cana, matou a sede e ao sair abençoou as canas, para que dessem um alimento bom e doce
aos homens. E assim veio o açúcar. Acontece que, no mesmo dia, o diabo saiu das
caldeiras de Pedro Botelho, com os chifres e o rabo pegando fogo. Deu no mesmo canavial,
onde se espojou. As canas lhe atiraram pêlos que deram nele uma coceira tremenda. Chupou
um gomo da cana, mas o caldo estava azedo, caiu-lhe no goto e lhe queimou as goelas. Ficou
uma fera e amaldiçoou a cana, e disse que os homens dela tirariam uma bebida tão ardente
como o fogo do inferno. E daí veio a cachaça.
Veja se ainda fazem as festas da botada e da peja, início e fim da moagem, que era
celebrada não só pelos donos dos engenhos, como pelos trabalhadores, havendo também a
bênção dos canaviais e da maquinaria, São manifestações de ritos agrícolas e
convém registar o que hoje se encontre, porque a usina vai tornando o fabrico do açúcar
uma indústria como outra qualquer.
O número de quadras populares sobre ou apenas com referência à cana, ao açúcar, à
cachaça, ao melado, ao engenho é muito grande, deste e de outros tipos:
Senhor de engenho me disse
Que eu não comesse melado;
Eu já fui senhor de engenho
De açúcar mascavado.
Também em cantorias, desafios, romances, modas, em suma, em diversas formas
lírico-narrativas, bem assim em ditos e provérbios, encontramos referências à vida
açucareira. E é natural, porque, como já disse, girando o grupo humano em torno de uma
atividade, se cria o folclore com relação à mesma, muitas vezes em meras adaptações
de formas tradicionais. Não insisti na cachaça, sobre a qual existe um verdadeiro ciclo,
porque a ela me refiro nas bebidas. Também não falo de rapadura, nem do emprego do
açúcar na doçaria, matéria do capítulo relativo à alimentação. Tampouco ao uso
comum, e já mencionado, do açúcar como remédio.
Por fim, encerro com uma anedota, recolhida na baixada fluminense, por Joaquim Ribeiro,
autor de notável estudo sobre o Folclore do açúcar, que a ouviu de um tapiocano
e assim a registou, nesse seu trabalho:
"Dizem que as abêias cunversam toda veiz que os home levantam moenda:
Pra que esse mundo de coisa?
Pra que tanta gente?
E a mais veia das abêia, fazendo mofa:
Esses home são burro. Ainda não aprendero fazer mé...
(Almeida, Renato. Manual de coleta folclórica.
Rio de Janeiro, Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, 1965, p.114-116) |