Alceu Maynard Araújo
Adotamos o neologismo pingaterapia para designar panacéia folclórica na monografia
que trata de alguns ritos mágicos numa cidade paulista.[1] Embora em Piaçabuçu o
nome mais comum seja cachaça e não pinga, conservamos o "pingaterapia",
neologismo que para nós possui alguns anos de vida. A pinga faz parte da
deuterose brasílica. Em geral, pelas muitas cidades brasileiras que tivemos o privilégio
de conhecer nos mais distantes rincões de nossa pátria, é "ali que se prepara a
melhor do Brasil". Daí os muitos "apelidos" para tão nefasto produto cuja
função medicinal é "pingaterápica". Aliás, acreditamos seja o produto que
maior número de nomes possua; até loas cantam-lhe seus prodígios e dão-lhes louvores (ver Loas).
O nome mais comum é cachaça; há porém outros pelos quais é também conhecida:
imaculada, faísca, isca, água-que-boi-não-bebe, água-que-passarinho-não-bebe,
lagringa, limpa, lisa, malafo (no candomblé), "couina" (no toré),
moça-branca, menina-de-azul, mamãe-de-luana (Luanda), teimosa, santinha, martelada (é
um martelo de cachaça), sipa, pé-de-briga, lambada, mata-bicho, mijo-santo, óleo,
perigosa, pura, a limpinha, limpa-goela, suor-da-cana-torta, januária (é marca famosa
indicadora da proveniência), giribita, meladinha, mindorra, abrideira, bom-pra-tudo,
aço, azulada, azuladinha, de-colarzinho, berinata, branca, branquinha, sem-nata, caiana,
caninha, cobertor-de-pobre, sete-virtudes (também é nome de marca famosa), cipó,
danada, pé-de-ouvido, fogo-molhado, cospe-fogo, tira-prosa, tira-teima, cura-tudo,
pra-tudo, graxa, fecha-corpo, mamadeira.[2]
Duas misturas populares de cachaça são: o
"quente". que é um vermute ou outra bebida colorida e o "cachimbo",
cachaça, mel de abelha e gotas de limão. Este nos faz lembrar a bebida predileta dos
Aweikoma o mong que Herbert Baldus [3] descreve e na qual o mel de
abelha é o ingrediente principal.
Muitas são as virtudes suas: no calor refresca e no frio esquenta; abre o apetite e
engana o estômago quando com fome; dá coragem e alegra os "brabos". Na
medicina popular tem lugar de destaque servindo para curtir, para fazer massagens, para
misturar com outros "preparos" ou para inalação.
Curtimento
O curtimento é feito com a colocação da planta (ou suas partes) numa garrafa ou
litro. Só deverá ser tomada após determinado número de dias: três, sete, nove, quinze
ou vinte e um. Observam também as fases da lua para o preparo e curtimento.
Há também precauções quanto à posologia: três goles de cada vez. Verifica-se sempre
a presença de números cabalísticos,[4] quer no preparo, quer para a ingestão do medicamento.
Mistura
A mistura é feita com infusão de plantas, às vezes com drogas de farmácia e até
elementos outros como, por exemplo, pitadas de cinza, terra de cemitério, cordão
umbilical torrado. Umbigo de recém-nascido é cousa que se não joga fora: tem alta
finalidade medicinal, por isso é guardado.
Massagem
Para massagem é mais comum a cachaça com alcânfora. Tem várias aplicações nas
massagens nos pulsos das pessoas que sofrem dos nervos, ataques ou "chiliques".
Inalação
Para fazer inalação quando misturada com vinagre ou alcânfora para curar dor de
cabeça, resfriados e também evitar desmaios.
Pingafobia
Na própria pingaterapia são encontrados os remédios para curar o terrível vício da
embriaguez, em cujo preparo há qualquer cousa de magia. O embriagado com três pingos de
limão no ouvido despertará, mas para deixar o vício, eis algumas receitas: torra-se a
moela de galinha preta e dissolve-se na cachaça. O resguardo é um tabu: nunca mais
poderá comer carne de galinha preta, caso o faça, voltará o vício. Outras receitas:
terra de cemitério; pingos de sangue de urubu; cavalo-marinho (hipocampo); minhoca
ralada; deixar a carne de vaca magra de molho durante 15 dias, colocar uma pitada de
ácido tartárico. Em qualquer dos casos acima, a via é sempre cachaça. Na
excretoterapia há uma receita para curar o vício: titica de galinha na cachaça. Deve-se
dar quando o paciente já estiver bem "chupado" a fim de não perceber o que é
que está bebendo.
A cachaça panacéia vulgar, é merecedora de um melhor estudo na medicina popular
brasileira.
Cachaça
Cachaça é moça bonita
Ainda bebida de luxo
ela bate comigo no chão,
eu bato com ela no bucho. (Loa de cachaça)
A cachaça é muito usada. Serve para esquentar, para esfriar, para abrir apetite, para as
comidas gordurosas não fazerem mal, para melhorar a voz, para matar as tristezas, afogar
mágoas e saudades, para dar coragem para brigar, para evitar um resfriado. Além destas
há uma infinidade de usos e benefícios até medicinais atribuídos à cachaça.
Há na comunidade muitos cachaceiros inveterados que nada fazem, ou melhor, prestam
pequenos serviços para ganhar apenas o suficiente para beber.
Em Piaçabuçu, grande número de bodegas vendem somente cachaça e nada mais. O velho
Pedro de Castro disse: "Quanto maior é a pobreza de uma região, maior é o número
de bodegas e de cachaceiros. Homens esquálidos, inchados, paquidérmicos no andar, sorvem
diariamente a cachaça. Quando não conseguem o dinheiro pelos pequenos serviços
prestados, pedem um "agrado", esmolam, mendigam para poder beber. Não fazem um
obséquio para o próximo sem esperar um "agrado". O "agrado" é uma
importância em dinheiro. "o senhor me dá um agrado ou senão pode deixá pago, na
bodega do Lulu, um quente".
Hábito enraizado entre a população, é o de ingerir cachaça. As pessoas de melhor
condição econômica preferem o uso de cerveja ou vinho.
Houve, por ocasião do carnaval de 1953, um concurso para saber qual seria o concorrente
capaz de ingerir maior porção de cachaça. Dentre os dezoito concorrentes saiu vencedor
o telegrafista. Nesse concurso participaram elementos de destaque social da cidade, um
alto funcionário estadual, que foi classificado em terceiro lugar. É desolador relatar
tais fatos, porém, por eles poder-se-á aquilatar o quanto é disseminado o uso da
cachaça.
É grande o cortejo de misérias que o uso da cachaça acarreta. Pedro Manuel já teve
casa de negócios, disse um informante, hoje vive na cachaça. "Dizem que a esposa
dele abandonou-o porque não tem mais dinheiro, vive com um velho. Pedro Manuel vivia
jogando com o Sérgio. Não sabia jogar, o Sérgio limpou seu dinheiro e hoje nem quer
saber do Pedrinho. Ele é bom pedreiro, mas agora vive aí na cachaça desde que amanhece.
Anda pedindo dinheiro para beber, chegou a esse grau de tristeza. Não tem vergonha de
pedir um óleo (cachaça) até para desconhecidos."
É muito comum no Brasil, como já apontamos, quer no Norte, Nordeste ou Sul as pessoas se
referirem à cachaça preparada no local como sendo a melhor do país. Em Piaçabuçu não
poderia deixar de acontecer o mesmo. O velho e saudoso João Gama narrou que "Dona
Ana das Barreiras tinha um processo para preparar cachaça ficando esta uma verdadeira
delícia. Ela chegava a mandar corote de cachaça até para Portugal. Em Maceió e Recife,
havia doutores que esperavam ansiosos a cachaça daqui. Hoje nem alambique temos! O
segredo do preparo morreu com ela. E foi uma pena, pois agora só temos bebidas de
fora".
Muitas vezes é a cachaça mais preferida do que o pão, ou melhor a farinha de mandioca.
O trabalhador braçal depois da semana árdua de trabalhos de sol a sol, quando recebe os
minguados níqueis, se dirige ao povoado, à feira, levando um pequeno picuá ou samburá
para trazer farinha de mandioca que é o seu alimento básico e o inseparável litro para
comprar cachaça.
Convite para beber cachaça É muito comum o convite para beber cachaça ou
um "quente", isto é, mistura de aguardente de cana com vermute ou outra bebida
amarga de infusão de folhas, frutos ou sementes dando colorido à bebida. O
"cachimbo" está mais ou menos excluído disto por ser mais uma bebida caseira,
é um aperitivo doméstico e não de boteco.
Rodada A "rodada" é o cerimonial no qual o participante precisa
dizer loas à cachaça. Na "rodada", aproximam-se do balcão de uma bodega, e
num copo comum o bodegueiro entorna a cachaça até quase transbordar. A pessoa de quem
partiu o convite da "rodada", tomará o copo, derramará um pouquinho no chão e
dirá: "este é para os santo", e o dará a um dos companheiros, o qual, tomando
um gole passará depois o copo para outro. É a "rodada".
Às vezes, por causa da "rodada" acaba acontecendo algum crime. Se a pessoa que
oferece já está mais ou menos embriagada, e uma qualquer se recusa a beber, tem
acontecido surgir aí um desentendimento e conseqüentemente a "peixeira" entra
em ação, porque a pessoa que oferece espera que não haja recusa por parte de ninguém.
Às vezes, de nada vale a recusa "já tomei o meu gole"; o que oferece espera
que a pessoa, pelo menos, tome o copo e faça que bebe.
Loas As loas de cachaça se dão em geral por ocasião de alguma festa ou,
mais comumente, quando há a ajuda vicinal que é o "batalhão". Reúnem-se
várias pessoas e ao passar o copo ou cuia de cachaça, proferem uma loa. Há também na
maconha idêntico cerimonial. A pessoa ao tomar o gole de cachaça profere uma loa, a que
recebe faz o mesmo ao passar à outra e assim vão se sucedendo elogios versificados,
improvisados ou não, à cachaça. A loa é uma forma lúdica muito em voga nesta
comunidade.
As loas de cachaça colhidas em julho de 1953 foram gravadas em fita plástica de gravador
Ampro. Dela participaram: Porfírio, Sabino, João Sacristão, Mané das Dores e
Juvêncio.
Loa de cachaça
Porfírio, tomando o primeiro gole, disse:
Do copo eu não recuso
e nem eu deixo de bebê.
Bebe eu. bebe você,
Bebe Dão Pedro Segundo,
vem do começo do mundo
e não é defeito o bebê. (ver Loas)
Notas
1. Monografia do autor. Alguns ritos mágicos.
2. Calasans, José. Cachaça, moça-branca. Bahia, Secretaria de Educação e
Cultura, 1951. Um dos mais completos estudos sobre o folclore da cachaça. O A. no final
de seu livro publica um vocabulário deveras interessante.
3. Baldus, Herbert. "Bebidas e narcóticos dos índios do Brasil", Revista
Sociologia. São Paulo, v.5, nº 3, 1943, p.161-169.
4. No Egito o número cabalístico em medicina é o quatro, ao qual atribuíam uma virtude
mágica especial, como nós atribuímos ao número três. Erman, Adolf. Aegypten and
agyptisches Leben ia Altertum, apud Dr. Ernest Hemeneter, Atas Oeba, Rio de
Janeiro, março de 1941, nº 3, ano 8.
(Araújo, Alceu Maynard. Medicina rústica.
3ª ed. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1979. Brasiliana, 300, p.127-132) |