Ano 5 - setembro  2002 - nº 49


BRANCA, BRANQUINHA, MOÇA BRANCA...

FONTE INSPIRADORA

ÁGUA QUE PASSARINHO NÃO BEBE

FEITA DE CANA CRIOULA...

REMÉDIO BOM

BIBLIOGRAFIA

PINGATERAPIA

Alceu Maynard Araújo

Adotamos o neologismo pingaterapia para designar panacéia folclórica na monografia que trata de alguns ritos mágicos numa cidade paulista.[1] Embora em Piaçabuçu o nome mais comum seja cachaça e não pinga, conservamos o "pingaterapia", neologismo que para nós possui alguns anos de vida. A pinga faz parte da deuterose brasílica. Em geral, pelas muitas cidades brasileiras que tivemos o privilégio de conhecer nos mais distantes rincões de nossa pátria, é "ali que se prepara a melhor do Brasil". Daí os muitos "apelidos" para tão nefasto produto cuja função medicinal é "pingaterápica". Aliás, acreditamos seja o produto que maior número de nomes possua; até loas cantam-lhe seus prodígios e dão-lhes louvores (ver Loas).

O nome mais comum é cachaça; há porém outros pelos quais é também conhecida: imaculada, faísca, isca, água-que-boi-não-bebe, água-que-passarinho-não-bebe, lagringa, limpa, lisa, malafo (no candomblé), "couina" (no toré), moça-branca, menina-de-azul, mamãe-de-luana (Luanda), teimosa, santinha, martelada (é um martelo de cachaça), sipa, pé-de-briga, lambada, mata-bicho, mijo-santo, óleo, perigosa, pura, a limpinha, limpa-goela, suor-da-cana-torta, januária (é marca famosa indicadora da proveniência), giribita, meladinha, mindorra, abrideira, bom-pra-tudo, aço, azulada, azuladinha, de-colarzinho, berinata, branca, branquinha, sem-nata, caiana, caninha, cobertor-de-pobre, sete-virtudes (também é nome de marca famosa), cipó, danada, pé-de-ouvido, fogo-molhado, cospe-fogo, tira-prosa, tira-teima, cura-tudo, pra-tudo, graxa, fecha-corpo, mamadeira.
[2]

Duas misturas populares de cachaça são: o "quente". que é um vermute ou outra bebida colorida e o "cachimbo", cachaça, mel de abelha e gotas de limão. Este nos faz lembrar a bebida predileta dos Aweikoma o mong que Herbert Baldus [3] descreve e na qual o mel de abelha é o ingrediente principal.

Muitas são as virtudes suas: no calor refresca e no frio esquenta; abre o apetite e engana o estômago quando com fome; dá coragem e alegra os "brabos". Na medicina popular tem lugar de destaque servindo para curtir, para fazer massagens, para misturar com outros "preparos" ou para inalação.

Curtimento

O curtimento é feito com a colocação da planta (ou suas partes) numa garrafa ou litro. Só deverá ser tomada após determinado número de dias: três, sete, nove, quinze ou vinte e um. Observam também as fases da lua para o preparo e curtimento.

Há também precauções quanto à posologia: três goles de cada vez. Verifica-se sempre a presença de números cabalísticos,
[4] quer no preparo, quer para a ingestão do medicamento.

Mistura

A mistura é feita com infusão de plantas, às vezes com drogas de farmácia e até elementos outros como, por exemplo, pitadas de cinza, terra de cemitério, cordão umbilical torrado. Umbigo de recém-nascido é cousa que se não joga fora: tem alta finalidade medicinal, por isso é guardado.

Massagem

Para massagem é mais comum a cachaça com alcânfora. Tem várias aplicações nas massagens nos pulsos das pessoas que sofrem dos nervos, ataques ou "chiliques".

Inalação

Para fazer inalação quando misturada com vinagre ou alcânfora para curar dor de cabeça, resfriados e também evitar desmaios.

Pingafobia

Na própria pingaterapia são encontrados os remédios para curar o terrível vício da embriaguez, em cujo preparo há qualquer cousa de magia. O embriagado com três pingos de limão no ouvido despertará, mas para deixar o vício, eis algumas receitas: torra-se a moela de galinha preta e dissolve-se na cachaça. O resguardo é um tabu: nunca mais poderá comer carne de galinha preta, caso o faça, voltará o vício. Outras receitas: terra de cemitério; pingos de sangue de urubu; cavalo-marinho (hipocampo); minhoca ralada; deixar a carne de vaca magra de molho durante 15 dias, colocar uma pitada de ácido tartárico. Em qualquer dos casos acima, a via é sempre cachaça. Na excretoterapia há uma receita para curar o vício: titica de galinha na cachaça. Deve-se dar quando o paciente já estiver bem "chupado" a fim de não perceber o que é que está bebendo.

A cachaça — panacéia vulgar, é merecedora de um melhor estudo na medicina popular brasileira.

Cachaça

Cachaça é moça bonita
Ainda bebida de luxo
ela bate comigo no chão,
eu bato com ela no bucho. (Loa de cachaça)

A cachaça é muito usada. Serve para esquentar, para esfriar, para abrir apetite, para as comidas gordurosas não fazerem mal, para melhorar a voz, para matar as tristezas, afogar mágoas e saudades, para dar coragem para brigar, para evitar um resfriado. Além destas há uma infinidade de usos e benefícios até medicinais atribuídos à cachaça.

Há na comunidade muitos cachaceiros inveterados que nada fazem, ou melhor, prestam pequenos serviços para ganhar apenas o suficiente para beber.

Em Piaçabuçu, grande número de bodegas vendem somente cachaça e nada mais. O velho Pedro de Castro disse: "Quanto maior é a pobreza de uma região, maior é o número de bodegas e de cachaceiros. Homens esquálidos, inchados, paquidérmicos no andar, sorvem diariamente a cachaça. Quando não conseguem o dinheiro pelos pequenos serviços prestados, pedem um "agrado", esmolam, mendigam para poder beber. Não fazem um obséquio para o próximo sem esperar um "agrado". O "agrado" é uma importância em dinheiro. "o senhor me dá um agrado ou senão pode deixá pago, na bodega do Lulu, um quente".

Hábito enraizado entre a população, é o de ingerir cachaça. As pessoas de melhor condição econômica preferem o uso de cerveja ou vinho.

Houve, por ocasião do carnaval de 1953, um concurso para saber qual seria o concorrente capaz de ingerir maior porção de cachaça. Dentre os dezoito concorrentes saiu vencedor o telegrafista. Nesse concurso participaram elementos de destaque social da cidade, um alto funcionário estadual, que foi classificado em terceiro lugar. É desolador relatar tais fatos, porém, por eles poder-se-á aquilatar o quanto é disseminado o uso da cachaça.

É grande o cortejo de misérias que o uso da cachaça acarreta. Pedro Manuel já teve casa de negócios, disse um informante, hoje vive na cachaça. "Dizem que a esposa dele abandonou-o porque não tem mais dinheiro, vive com um velho. Pedro Manuel vivia jogando com o Sérgio. Não sabia jogar, o Sérgio limpou seu dinheiro e hoje nem quer saber do Pedrinho. Ele é bom pedreiro, mas agora vive aí na cachaça desde que amanhece. Anda pedindo dinheiro para beber, chegou a esse grau de tristeza. Não tem vergonha de pedir um óleo (cachaça) até para desconhecidos."

É muito comum no Brasil, como já apontamos, quer no Norte, Nordeste ou Sul as pessoas se referirem à cachaça preparada no local como sendo a melhor do país. Em Piaçabuçu não poderia deixar de acontecer o mesmo. O velho e saudoso João Gama narrou que "Dona Ana das Barreiras tinha um processo para preparar cachaça ficando esta uma verdadeira delícia. Ela chegava a mandar corote de cachaça até para Portugal. Em Maceió e Recife, havia doutores que esperavam ansiosos a cachaça daqui. Hoje nem alambique temos! O segredo do preparo morreu com ela. E foi uma pena, pois agora só temos bebidas de fora".

Muitas vezes é a cachaça mais preferida do que o pão, ou melhor a farinha de mandioca. O trabalhador braçal depois da semana árdua de trabalhos de sol a sol, quando recebe os minguados níqueis, se dirige ao povoado, à feira, levando um pequeno picuá ou samburá para trazer farinha de mandioca que é o seu alimento básico e o inseparável litro para comprar cachaça.

Convite para beber cachaça — É muito comum o convite para beber cachaça ou um "quente", isto é, mistura de aguardente de cana com vermute ou outra bebida amarga de infusão de folhas, frutos ou sementes dando colorido à bebida. O "cachimbo" está mais ou menos excluído disto por ser mais uma bebida caseira, é um aperitivo doméstico e não de boteco.

Rodada — A "rodada" é o cerimonial no qual o participante precisa dizer loas à cachaça. Na "rodada", aproximam-se do balcão de uma bodega, e num copo comum o bodegueiro entorna a cachaça até quase transbordar. A pessoa de quem partiu o convite da "rodada", tomará o copo, derramará um pouquinho no chão e dirá: "este é para os santo", e o dará a um dos companheiros, o qual, tomando um gole passará depois o copo para outro. É a "rodada".

Às vezes, por causa da "rodada" acaba acontecendo algum crime. Se a pessoa que oferece já está mais ou menos embriagada, e uma qualquer se recusa a beber, tem acontecido surgir aí um desentendimento e conseqüentemente a "peixeira" entra em ação, porque a pessoa que oferece espera que não haja recusa por parte de ninguém. Às vezes, de nada vale a recusa "já tomei o meu gole"; o que oferece espera que a pessoa, pelo menos, tome o copo e faça que bebe.

Loas — As loas de cachaça se dão em geral por ocasião de alguma festa ou, mais comumente, quando há a ajuda vicinal que é o "batalhão". Reúnem-se várias pessoas e ao passar o copo ou cuia de cachaça, proferem uma loa. Há também na maconha idêntico cerimonial. A pessoa ao tomar o gole de cachaça profere uma loa, a que recebe faz o mesmo ao passar à outra e assim vão se sucedendo elogios versificados, improvisados ou não, à cachaça. A loa é uma forma lúdica muito em voga nesta comunidade.

As loas de cachaça colhidas em julho de 1953 foram gravadas em fita plástica de gravador Ampro. Dela participaram: Porfírio, Sabino, João Sacristão, Mané das Dores e Juvêncio.

Loa de cachaça

Porfírio, tomando o primeiro gole, disse:

Do copo eu não recuso
e nem eu deixo de bebê.
Bebe eu. bebe você,
Bebe Dão Pedro Segundo,
vem do começo do mundo
e não é defeito o bebê. (
ver Loas)


Notas

1. Monografia do autor. Alguns ritos mágicos.
2. Calasans, José. Cachaça, moça-branca. Bahia, Secretaria de Educação e Cultura, 1951. Um dos mais completos estudos sobre o folclore da cachaça. O A. no final de seu livro publica um vocabulário deveras interessante.
3. Baldus, Herbert. "Bebidas e narcóticos dos índios do Brasil", Revista Sociologia. São Paulo, v.5, nº 3, 1943, p.161-169.
4. No Egito o número cabalístico em medicina é o quatro, ao qual atribuíam uma virtude mágica especial, como nós atribuímos ao número três. Erman, Adolf. Aegypten and agyptisches Leben ia Altertum, apud Dr. Ernest Hemeneter, Atas Oeba, Rio de Janeiro, março de 1941, nº 3, ano 8.


(Araújo, Alceu Maynard. Medicina rústica. 3ª ed. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1979. Brasiliana, 300, p.127-132)

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