Ademar Vidal
Não se planta cana à vontade do corpo, sem a observação de certos preceitos, uns
tantos estilos e, sobretudo, tendo em vista condições técnicas. O terreno influencia
extraordinariamente na produção. As várzeas são preferidas a quaisquer outros lugares
e, na ausência delas, as fábricas de açúcar estão adotando o regime da irrigação.
Por meio desse processo mecanizado se vão conseguindo os melhores resultados práticos em
benefício da nobre lavoura. Os barreiros de açude estão sendo levantados cada vez mais
com o fim de armazenagem de água nas zonas favoráveis ou sujeitas à seca. Sendo assim,
as conseqüências têm sido dignas de nota, muito concorrendo para a prosperidade dos
canaviais e bem-estar dos seus proprietários. A questão de terrenos adversos já
não preocupa aos plantadores desde que exista a possibilidade de irrigá-lo
convenientemente.
Por outro lado, como é sabido, a planta de cana tem que obedecer a certos rigores
técnicos: faz-se durante certo tempo do ano, quando da permanência das chuvas finas, e
no período de crescimento, se tornam necessários extremos de cuidado nas
"limpas" para que se evite a cana seja afogada pelo mato. Para o canavial
atingir o ponto máximo há mister pelo menos de um ano de idade. Nessa altura terá
atingido o rendimento maior em sacarina. É o que se diz. É o que propalam os entendidos
camponeses. E que não acreditam nos agrônomos, achando-os complicados, cheios de
presepadas, e, nessa marcha, são conservados em desconfiança permanente. O fato é que a
cana plantada, é dirigida à conservação secularmente, por essa rotineira gente
camponesa, jamais diminuiu a beleza do conjunto e volume além da recompensa do
rendimento. Canavial de três metros de altura é coisa comum, acontecendo até a
circunstância de crescer mais, estendendo-se pelo chão: acamou, como diz o povo.
Os estragos a que o canavial está sujeito tomam aspectos variados. Não são estragos
apenas provenientes da seca em conseqüência de estios prolongados, ou de invernadas
longas e pesadas, transbordando rios e fazendo com que as terras baixas fiquem inundadas,
afogando canas e tornando-as pobres de teor sacarino; os estragos também são
originários de outros motivos sérios que devem ser levados em consideração por causa
dos resultados altamente prejudiciais. Por exemplo: mãos ocultas costumam cortar não só
por malvadez como por imposições de alimentação. Ainda: o guaxinim faz invasões
constantes e deixa o rastro de sua perigosa passagem. Às vezes não opera isoladamente,
age em bando. Parece isto um tanto raro, mas acontece. O guaxinim é animal arisco,
solitário e feio. Não é comum andar senão sozinho. No entanto, há casos em que surge
em malta nas incursões por entre os canaviais. Pinta o sete, então. Os proprietários
já agora não têm muito que temê-lo pelo motivo de ir rareando bastante na fauna
nordestina.
Acabou-se a fase em que o terrível chupador de cana dispunha de meios para ofensiva de
contrariar interesses econômicos.
A sua ausência em coortes furiosas, todavia, foi substituída pela presença prejudicial
de outro animal, mas este de categoria ofídica. E de notáveis poderes ofensivos e
destruidores. É a conhecida serpente do canavial que suga toda a substância do produto
e, fazendo-o murchar, tornando a cana chocha, esta não pode ser aproveitada em nada: tem
de ficar no próprio lugar em que se encontra.
Fala-se que o fantasma anda sobre a terra durante a noite e esconde-se ninguém sabe
aonde. Manoel Grande entende, porém, que a "enorme e gorda cobra verde" vive é
em baixo da terra, retirando o suco da cana pela raiz. Erram os que julgam em contrário.
Os antigos conversavam sobre o assunto com tão pleno conhecimento de causa que não
oferece a menor dúvida sobre a exata procedência da asserção. Que o mito ofídico
existe, não se discute, nem se põe em situação de comentários equívocos e, no
conceito popular, até ocupa lugar de respeito nos fins malignos.
Vai-se visitar um canavial lindo exteriormente, apresentando aspecto de solidez compacta,
quase não se podendo penetrá-lo e, entretanto, fazendo-se essa entrada, não será
difícil surpreender largos espaços em que a cana mirrou ou deixou de nascer mesmo. E
ainda, em certos casos, mostrando visivelmente que morreu em resultado de algum mal,
talvez proveniente de parasitas.
Mas ninguém quer saber disso não. Pelo menos o homem que trabalha de enxada e facão,
pés descalços, seminu e fumador de cachimbo, não sabendo ler nem contar, porém
carregando consigo riquezas extraordinárias de imaginação. A voz corrente é única:
"a serpente do canavial andou por aqui". Há até quem a conhece pessoalmente,
dando impressões e palpites, achando-a bonita, grossa e pintada de raios brancos no corpo
verde. É balofa, é gordíssima. Não ataca pessoa alguma. Não tem veneno. Anda
vagarosa. Mas o seu volume inconcebível mete medo, faz com que se corra de seu contato,
evitando-se este por todos os meios e modos:
Voute, peste, vá pegar outro.
Nas crônicas da história há referências ligeiras ao "mal dos canaviais como
procedentes de quê? Não se faz nenhuma segura ou simples menção de doença vegetal ou
coisa semelhante. Nem que é defeito da terra árida ou por motivo de excesso de água de
rio transbordante. Nada disso. Deixa-se antever antes é a possibilidade da existência do
fantasma.
Aliás, sobre isto, pode ser achado nos documentos jesuíticos, bem assim nos diálogos de
Alviano e Brandônio, referências vagas e que podem ser interpretadas em
benefício de esclarecimentos do assunto. Não é, pois, de estranhar que ainda agora se
fale do mito: a tendência popular é da manutenção das tradições e estas vão saindo
de geração para geração cada vez mais nítidas ao ponto de que, aos céticos,
pareceria coisa instruída propositadamente por mestres interessados.
(Vidal, Ademar. Lendas e superstições; contos
populares brasileiros. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1950, p.289-291)
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