Leonardo Mota
Um humorista português afirma que o que distingue o homem do bruto é o seu amor ao
álcool e ao fumo. Acrescenta que beber água engarrafada é uma inversão da natureza,
pois nem a água se fez para as garrafas, nem as garrafas para a água.
Também o poeta paulista Martins Fontes, em conferência sobre "A alegria",
disse não haver nada de mais triste, de mais fúnebre entre duas criaturas sentadas a uma
mesa do que uma garrafa de água de Caxambu... E Martins Fontes indagava:
Mas, lealmente, sinceramente, onde entre homens de inteligência, conhecedores da
tortura da vida, grandes tristes por serem grandes lúcidos, já houve alegria sem bebida?
Não pode haver. Quando a sabedoria popular diz que alguém está alegre, é porque, na
certa, esse alguém bebeu alguma coisa.
Do meu convívio com os cantadores me resta suficiente autoridade para garantir que os
cantadores, que são também "homens de inteligência e grandes lúcidos", não
gostam de água mineral. Entre os mortos tenho notícia de muitos que iam à perfeição
de não abusar, sequer, da água do pote, embora não repetissem a velhaca escusa daquele
boêmio que se abstinha do uso da água, para não roubar o pão às pobres lavadeiras...
Zé de Matos, Rita Medêro, Chica Barrosa... Esta última, a Barrosa, foi assassinada a
cacete e faca, durante uma cantoria, na qual andou, embriagada, a dizer rebarbativas
inconveniências.
São inumeráveis os versos populares em que, com ingenuidade ou cinismo, se celebra a
cotréia:
Aguardente é jiribita
Feita de pau de capucho...
Bate comigo no chão,
Bato com ela no bucho!
Aguardente é jiribita,
Não há bebida tão boa!
Quanto os padres gostam dela,
Que dirá quem não tem croa!
Aguardente é jiribita,
Feita de cana crioula...
Quem beber em demasia
Quebra o botão da ceroula.
Meu amo, meu camarada,
Agora vou lhe dizer:
Carro não anda sem boi
E eu não canto sem beber.
Eu fui aquele que disse
Que aguardente não bebia,
Porém já estou debicando
Canada e meia por dia.
Minha mãe teve dois filhos,
Fui eu só que dei pra gente:
Vendi tudo o que era nosso,
Bebi tudo de aguardente.
No sertão, a verdade, dolorosa embora, é a que está expressa na quadrinha:
Não há função
Ou brincadeira
Que não acabe
Por bebedeira.
São populares na Paraíba umas décimas rematadas com o mote "Não é defeito
beber". Um exemplo:
Para quem bebe aguardente,
Se mete num grande porre,
Dá, apanha, mata ou morre
O beber não é decente...
Porém dando pra contente
Ou mesmo pra entristecer,
Podendo a cana fazer
Tornar-se franco um sovino,
Direi sempre que combino:
Não é defeito o beber!
(Mota, Leonardo. Sertão alegre; poesia e
linguagem do sertão nordestino. 2ª ed. Fortaleza, Universidade do Ceará, 1965,
p.134-136) |