Vasconcelos Torres
A questão do aguardentismo, no Brasil, tem sido largamente discutida, quer sob o prisma
científico, quer sob o ponto de vista da moral. Afirma-se por aí que o brasileiro bebe
em demasia e que a garrafa de pinga é a sua companheira inseparável. Nem sempre essas
afirmações são dignas de nossa atenção, vez que se apóiam em fatos presumidos. Na
verdade, em algumas regiões brasileiras o consumo de aguardente não é pequeno; noutras,
porém, a percentagem dos abstêmios é bastante expressiva. Hoje, uma garrafa de cachaça
está valendo muito mais que um quilo de feijão e o trabalhador, evidentemente,
não deixará de adquirir gêneros em troca de um trago que não lhe custa pouco. Seu
salário baixo mal chega para satisfazer as despesas normais e qualquer desvio na renda
lhe acarretará um deficit maior. Dessa maneira, a aguardente não é consumida
como dantes, quando, a qualquer pretexto, era ingerida em larga escala. Todavia, apesar
dos motivos decorrentes da crise atual, o consumidor viciado não se deixa vencer pelos
obstáculos e arranja um meio para atender aos reclamos de seu vício.
O Nordeste é uma das regiões brasileiras onde o consumo de aguardente é elevado e seu
uso gerou ditos e expressões curiosas. Em Sergipe, por exemplo, existe um rico folclore
sobre a cachaça, estudado habilmente pelo senhor José Calasans que; realizando uma
interessante pesquisa, teve a ajudá-lo os próprios consumidores.
Os versos dos bebedores exprimem, antes de mais nada, o ambiente social em que vivem os
cantadores, na maioria das vezes homens que afogam as suas mágoas na bebida, desajustados
de todo gênero, que acreditam nos miraculosos poderes da branquinha.
Nas nossas viagens pelo interior sergipano, não raro, visitamos as bodegas perdidas nas
curvas das estradas. Podia faltar tudo, mas o litro de cachaça lá estava na prateleira
poeirenta. O campônio chegava e olhava para o bodegueiro; este, num movimento rápido,
alcançava a bebida e, silenciosamente, servia ao freguês de todo dia. Os olhos do
consumidor faiscavam e, freqüentemente, o bodegueiro associava-se ao prazer do cliente.
Havia como que uma felicidade no gesto, quase violento, de despejar o conteúdo do cálice
na garganta. Depois, o homem se retirava e o seu trabalho árduo iria ser suavizado pelo
contentamento eufórico proporcionado pelo álcool.
O senhor Calasans, falando sobre o ritual dos cachaceiros, diz que "a cerimônia mais
comum e mais simples é a que se pratica nas bodegas, ponto de reunião dos bebedores. O
interessante ritual compreende, quase sempre, três fases: oferecimento, agradecimento e
pedidos, e louvações. O oferecimento é feito pelo pagão, cristo ou sofredor, isto é,
a pessoa que paga as despesas". Percorrendo os recantos de Aracaju, o ilustre
pesquisador teve ensejo de presenciar oferecimentos em versas, alguns improvisados, outros
já conhecidos, como os da autoria de João Martins de Ataíde, etc.
Releva salientar que, de quando em quando, aparece o nome do Brasil. No final de uma
quadra, por exemplo, lê-se: "sou cidadão brasileiro, falo em favor do Brasil",
ou então: "sou cidadão brasileiro e brigo ,a favor do Brasil". De outras
feitas, os temas variam, ora exaltando as qualidades da bebida, ora salientando que o
beber é humano, etc.
Tratando da genealogia da cachaça, escreve o professor Calasans: "a genealogia da
cachaça constitui um tema predileto dos louvadores. Explicar as origens da purinha é uma
preocupação constante dos nossos vates populares. A filiação da cachaça representa,
sem dúvida alguma, o tema mais rico do folclore poético da pinga. As variantes
recolhidas são inúmeras, em todos os pontos do Estado, Assim como os portugueses, nas
louvações ao vinho-verde, não esquecem o papel primordial da uva, os cantores anônimos
de nossa terra não olvidam a cana de açúcar". No Brasil, acentua o autor, antes da
cachaça existe a cana e também o canavial, sendo cachaça filha daquela e neta desta.
No trabalho do senhor Calasans a cada passo reponta um documentário útil, evidenciando a
vocação do escritor e o percuciente coletor de reações provocadas pela ação da
bebida. Uma quadra catalogada pelo autor exprime perfeitamente o espírito de um
autêntico bebedor. É a seguinte:
Se o beber alegra a gente,
O fumarnos dá prazer.
Quem não bebe, quem não fuma,
Que alegria pode ter?
O bom caneador é aquele que não pára no primeiro trago. Assim,
O beber não é tão bom
Quanto é o repetir;
A graça de quem tá bebo
E tombar e não cair.
Por fim, o senhor Calasans estuda a relação entre a cachaça e a morte. Recolheu o
seguinte verso, cantado pelos ganhadores da porta da igreja de São Salvador:
Cachaça é cuma morte,
Nunca escói a qualidade,
Matando pobres e ricos
E home de autoridade.
Ou então:
Quando eu morrer, minha gente,
Quero que um favor me faça:
Botem dentro do caixão
Vinte litros de cachaça.
A investigação procedida é daquelas que deveriam ser imitadas. O folclore da aguardente
nos demais estados é também apreciável, porém, até o momento, ninguém se deu ao
trabalho de recolher as cantigas. que falam da cachaça. Por isso mesmo o trabalho do
senhor Calasans ainda aparece com o mérito de ter sido o primeiro realizado entre nós. O
autor de Aspectos folclóricos da cachaça não esgotou o assunto e prometeu
divulgar oportunamente o restante do material que tão pacientemente reuniu. O trabalho
publicado, entretanto, por si só, já representa uma contribuição notável aos estudos
brasileiros.
(Torres, Vasconcelos. "Aguardentismo e
folclore". Brasil açucareiro, janeiro de 1945, p.91-92)
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