Mário Sette
Anquinhas e Bernardas. Liv. Martins, p.73-75
Minha mãe me case logo
Não me deixe envelhecer.
Que eu não sou planta de cana
que cortam, torna a crescer.
A paisagem da zona da mata, no Nordeste, desde os tempos coloniais, foi caracterizada pelo
canavial. O ornamento predominante dessas terras. Viajar por ela, ainda hoje, será
atravessar plantações e mais plantações de canas. E a vista que as vá contemplando
descortinará canaviais pelas encostas, pelas várzeas, pelos altos, pelas beiras do
rio... Canas, sempre canas, corno um símbolo de predomínio.
O engenho, ontem, como hoje a usina, de boeiro a fumegar era como um carco de posse desses
canaviais quase sem fim. Eles eram o mel, o açúcar, a riqueza, o poderio. Dir-se-iam, em
esquadrões, de folhas eriçadas, as baionetas com que os "senhores de engenho"
contavam para apoiar a sua força, a sua autoridade.
Léguas de canaviais. Ora na limpa, ora no corte. Trabalhadores, de chapéus de carnaúba,
manejando as enxadas, ao sol, ou repousando escorados nos cabos, a ver passar o trem por
cima do boeiro. Mulheres atilhando as canas e entregando os feixes ao carreiro que os
arruma entre os boeiros para partir de caminho afora com o carro a cantar...
Dias de caldeiras apagadas, de reparos no assentamento, de azeitamento da moenda para a
botada que vinha próxima. Dias de moagem, lufa-lufa no picadeiro, caldo a escorrer para o
paiol, o "mestre de açúcar" a vigiar o melaço para que saía bom de ponto.
A cana era tudo.
Cogitações de estado, de comércio, de família. Assunto de "casa-grande" e do
mocambo. Esperanças da "senhora de engenho" que sonha com um adereço de
brilhantes ou um título de baronesa; esperanças de mulher do caldeireiro que deseja um
vestido novo para a missa do galo...
Canaviais. Canaviais. Canaviais.
Os bois arrastam o carro de ladeira acima. Os de cambão, à frente, com os pescoços
baixos na tração; os de coice, atrás, de cangotes altos para agüentar o peso da carga.
Os cocões gemem. Um rechinar nostálgico, longo, de cortar corações.
E o cheiro do mel saindo do cercado e indo se espalhar por toda parte.
A filha do mestre-purgador olha da porta do seu casebre a fumaça do boeiro que vai embora
como que espantada para o lado do açude.
Ela espera que a moagem, naquele ano seja farta e que o açúcar ache preço. Seu
casamento, no mês de maio, depende disso. E ela não quer ficar velha, não quer ficar
para "tia"... Sabe que a mocidade não torna. Não é como a cana que torada
rebrota na soca e na ressoca.
Mulher, ao contrário, vira dobrão.
(Em Condé, José. A cana-de-açúcar na vida
brasileira; textos coligidos. Rio de Janeiro, Instituto do Açúcar e do Álcool,
1971/1972. Coleção canavieira, 7, p.60-61)
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