Ano 5 - setembro  2002 - nº 49


BRANCA, BRANQUINHA, MOÇA BRANCA...

FONTE INSPIRADORA

ÁGUA QUE PASSARINHO NÃO BEBE

FEITA DE CANA CRIOULA...

REMÉDIO BOM

BIBLIOGRAFIA

LOAS

Recolhidas por Alceu Maynard Araújo


Peguei a tomá cachaça
pensando que bem me fazia,
era coisa qu’eu não queria
meter-me nessa desgraça.
Bondade em mim ninguém acha,
na casa que tem função
bebendo com o meu dinheiro
caindo pelos terrero
servindo de mangação.

A cachaça trouxe uma sina
a todos ela sujeita.
Fui todo de barba feita
de barrete e barretina,
só trajo na ropa fina,
não trato ninguém por tu,
viva Deus e todo mundo,
viva a menina de azu.

A menina de azu
uma continha me deve,
é uma continha furtada
quando morrê Deus a leve.
Na festa da Tatubinha
onde ela apareceu
pela beleza que tinha
o grande prêmio recebeu.

Cupido na mão bateu
pelos andores do sul,
fala caboco Fichu
e fala comigo também,
mata dez, aleja cem
e viva a menina de azu.

As mulé não digo nada
que elas pode se zangá,
mais ela bem devagá
bebe suas bela copada
aquela mais disfarçada
bebe por trás da porta,
o sumo da cana torta
não é defeito o bebê.

Cachaça é moça branca
filha de um home triguero
quem puxa mucho por ela
fica pobre e sem dinhero,
por isso eu vi um morreno
lá no Rio de Janero.

Adeus Manué de Luanda
Adeus, meu filho Noguera
eu quero que me venha contá
o que foi que viste lá na fera.

Eu vi o Cirino bebo
Jisué no chão deitado,
como chão não é furado
eu im jejum ti arrecebo.

De primeiro só bebia
negro, caboco e mulato,
hoje até os home alto
veve bebo todo dia,
na rua tombá e pendê
contano os passo errado
até o seu delegado
já tenho visto bebê.

Aguardente giribita
feita da cana torta
herpe na língua lhe dê
quem fala o que não lhe importa
a língua encarangueja
quem confirma o que não vê.

Eu juro garanto e faço
não dô caminho a ninguém
desse poeta venha cem
juro pela luz do sol
onde eu botá o meu anzol
o vai, ou papoca ou vem.

Muler minha num passeia,
só si fô mais o pai dela,
lá em casa a vorta é séria;
caçuô vai pa curreia,
não falo da vida aleia
nem também de má vizinho,
não quero mais teus carinho,
não gosto de mulé feia.

Sabino ao receber disse:

Marica, tu deste um peido
na casa do Venceslau
derrubô cinco jirau.
Os gato correu cum medo,
na casa do Azevedo
passô uma catinga de sul
fedendo como um urubu
Marica tu deste um peido,
que o mundo ficô azu.

João Sacristão, ao beber o último gole, disse a loa abaixo que nada mais é do que a gesta de Cirino:

Cirino tava durmino
ele cum a morte assonhô.
Quando foi noutro dia
ele com a morte encontrô.
O cavalo de Cinino
de novo estrivo, estrivô.
As arma qu’ele tinha
de novo escorva, escorvô.
Amontô-se em seu cavalo,
seu caminho caminhô,
foi três santo qu’ele deu
foi três tombo que levô.
Cirino caiu no chão
com os bofe dependurado
ele cumo má criado
meteu a mão e arrancô:
corre-corre meu cavalo,
vá até Jatobá
chamá meu irmão
pra minha morte vingá.
Chegô o cavalo de Cirino
veio enfreiado e sorto
vamo vê é meu irmão
o está preso ou morto,
sinhô padre capelão
me bota na sua lista
que hoje num fica gente
que me pertença ao Batista
até as galinha do terrero
eu hoje pertendo a matá
pra morte de meu irmão
muito cedo eu vingá.

Outras loas gravadas pelo autor:

Manuel Dores — O menino que se cria
na proa de uma barcaça,
não há neste mundo coisa
que esse sujeito num faça.
Si ele na barcaça é bom
salta pá terra é milhó,
trabalha até de inxó
e veve desapertado.
Sujeito civilizado
que entende de marisia
que sabe jogá a chia,
não há quem le faça guerra
e o menino em que se cria
veve no mar ou veve im terra.
Ainda vendo-se naufragado
que possa ganhá terra,
chega no pé de uma serra
vai trabalhá no gado.
Dali a poco no roçado
pra num sê de segunda
nem que seja vagabunda
porta-se como um bom estudante
onde as moças são perdida
contra ele o supricante.

Sabino — Esse caboco dexe que avance
bote a faca na bainha,
o teu coro é como o meu
a tua vida é como a minha
minha bola não maneia
meu pensamento adivinha.

Porfírio — De duro você num venha
que encontra ca guerra civi,
dois bacamarte armado
e as bala querendo i,
o chumbo dizeno eu vô
e as bucha dizeno, espere aí.

Poeta, deixe de arranco,
num vê que tô na amarração?
Eu só cumo boi brabo
quano tá no pé do morão,
não enjeito e num gabo,
mas dexa de sê valentão.

Só cascavé de varedo
só onça do boquerão;
eu de uma banda só ortiga
da otra só cansação,
quem duvida venha vê,
quem não subé, ponha a mão.

Oia, amanhã vô m’imbora
já estô me arrumano
o cavalo de viage
tá no mato se criano,
é porque vancê não sabe
do sentido em que eu ando.
Setestrela tá em cima
e o Cruzeiro tá virano
quem furta na roça alheia
é hora, pode i chegano,
com licência de mim mesmo
eu já vô me arretirano.

As loas já nem todas se referem à cachaça, embora, proferidas quando estão bebendo. Estas, por exemplo:

Sabino — Quando eu era pequenino
vaquejava umas ovelha
encontrei um ninho com ovos
e passaninhos com orelha
o bichinho era tão mau
e tinha a boca tão feia.

Juvêncio — Minino eu vô m’embora
que meus male são conforme
quem vive como eu vivo
só descansa quando dorme,
o amô é como o sangue
que por toda veia corre.

Porfírio — Eu vi uma casa de páia
encostada im duas de teia
de caboco três aldeia,
quatro matriz na Atalaia
cinco mulé não se trabalha,
com seis máquina de cruzê,
são sete telegra a escrevê
são oito empregado de fama
com nove carrada de cana
pa dez usina movê.

Manuel Dores — Marica, aminhã vô m’imbora
tome conta de seu rancho
eu vô vê a mulatinha
apricando passo-balanço,
e na passage que eu fizé
você quera arrepará
que chegô Mané dos Prazê
são vorta que o mundo dá,
eu fui fazê minha casa
da casa véia pra lá.


(Araújo, Alceu Maynard. Medicina rústica. 3ª ed. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1979. Brasiliana, 300, p.265-269)

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