Danilo Fragoso
Historiador, jornalista e folclorista. Membro da
Academia Pernambucana de Letras.
Engenhos pioneiros
O engenheiro e urbanista francês P. V. Boulitreau (1812-1882) que no Recife viveu de
setembro de 1840 a outubro de 1882 chegou a convite do então presidente da província,
Francisco do Rego Barros (Barão da. Boa Vista). Boulitreau deixou obras de indiscutível
valor entre elas o Teatro Santa Isabel (a planta é de sua autoria), as estradas de
Apipucos, Caxangá e de Vitória de Santo Antão, as residências (Três) da senhora Maria
Peretti, em Caxangá numa delas chegando a residir. O magnífico solar pertencente à
Academia Pernambucana de Letras, o Palácio dos Manguinhos, a residência do Conde da Boa
Vista (hoje ocupada pela Secretaria de Segurança Pública), a residência do Conde
Correia de Araújo, hoje da família Tavares da Silva, sem esquecer a Casa Grande do
Engenho Cahypió pertencente ao jornalista Murilo Marroquim.
Boulitreau chegou até mesmo construir casa típica de Engenho em Pernambuco. Afora a do
Engenho Cahypió ele construiu também a dos seus Engenhos São João e São Caetano.
Deixando-se ficar definitivamente no Brasil, Boulitreau adquiriu ao barão de Vera Cruz
(Manoel Joaquim Carneiro da Cunha) os engenhos São João e São Caetano e torna-se Senhor
de Engenho em Pernambuco, onde sua técnica revolucionou os processos obsoletos da
agroindústria açucareira.
Instala pioneiramente no Engenho São João o primeiro tacho de cobre dos nossos engenhos.
A convite do Barão da Boa Vista instala também no Engenho São Francisco outro tacho de
cobre. O engenho hoje pertence ao pintor Francisco Brennand.
No Colonial Engenho Fragoso (Olinda) em 1872 criou Boulitreau um aparelho para o preparo
do açúcar pelo "sistema centrífugo, o qual, examinado por hábil profissional, por
incumbência do governo, mereceu os aplausos pelas vantagens que proporcionava no fabrico
do produto". A capela do Engenho Fragoso foi construída em 1845. Boulitreau, além
de pertencer à tradicional aristocracia francesa, vinha de um centro cultural, artístico
e econômico adiantadíssimo e trazia mais: a filosofia liberal que havia desfraldado a
revolução francesa e já exportava para o resto do mundo as bases de uma
conscientização filosófica moldada no respeito humano. Esse comportamento de Boulitreau
era típico de um francês culto em 1840 quando chegou no Recife.
Educado nas egrégias tradições francesas, trouxe para o Recife a noção de que sem
cultura, tomada a palavra não só no sentido do conhecimento mas, também na acepção da
força moral plasmadora da personalidade humana, não há civilização que valha a pena
ser implantada. Foi assim que Boulitreau concedeu "Papel de Liberdade" a alguns
dos seus escravos em 1837 época que ninguém pensava na Libertação da Escravatura.
O pioneirismo de Boulitreau vai além do que se possa imaginar. "A fabricação do
álcool, porém, é de época posterior, e a introdução dos alambiques de cobre para a
sua destilação é dos nossos próprios dias, figurando como o primeiro engenho que usou,
o de São João do Cabo."
Graças à criação de Boulitreau os engenhos São João, São Caetano, São Francisco e
Fragoso tornaram-se pioneiros em Pernambuco,
Ascenso Ferreira, não exaltou apenas a cachaça e as "Velhas ruas do
Recife". Soube perpetuar até com ternura os nomes dos engenhos de sua cidade
natal que tão bem conheceu e passou os dias tranqüilos e felizes de sua meninice.
Os engenhos de minha terra
Dos engenhos de minha terra só os nomes fazem sonhar:
Esperança!
Estrela dalva!
Flor do Bosque!
Bom-Mirar.
Um trino.., um trinado.., um tropel de trovoada.., e a tropa e os tropeiros trotando na
estrada:
Valo!
Eh Andorinha!
Eh Ventania!
Eh...
"Meu Alazão é mesmo bom sem conta!
Quando ele aponta tudo tem temor...
A vorte é esta: nada me comove!
Trem, automove, seja lá que for..."
"Por isso mesmo o sabiá zangou-se!
Arripiou-se foi cumer melão...
Na bandeira ela fazia: piu!
Todo mundo viu, não é mentira não..."
Bom dia, meu branco!
Deus guarde sua senhoria, capitão!
Dos engenhos de minha terra
Só os nomes fazem sonhar:
Esperança!
Estrela dalva!
Flor do Bosque!
Bom-Mirar!
Quatro velhos engenhos que Ascenso Ferreira jamais esqueceu, porque ele foi o poeta dos
engenhos e das casas-grandes."
Por outro lado, Jayme Griz poeta e folclorista, cunhado de Ascenso foi também
"menino de Engenho". Jayme Griz guardou para sempre o hoje descaracterizado
Engenho Liberdade na cidade de Palmares.
Griz, guardou tudo do velho engenho que deixou de moer há muito e muitos anos até mesmo
a paisagem.
"Engenho Liberdade
Com te sinto, e te recordo, ainda e sempre,
Através do lírico e rumoroso correr dos anos,
Oh! meu íntimo e velho amigo Engenho Liberdade!
No convívio de tua gente simples e boa,
Recolhi nobres e grandes lições de sabedoria do mundo.
Engenho Liberdade.
Terra de minha raízes.
Engenho da minha alegria.
Engenho de minha saudade.
Foi na contemplação de tua grandeza panorâmica,
Tocado pelas altas virtudes de tua alma bravia,
Que nas profundezas do meu ser despertou
O telúrico e indomável instinto da Liberdade!...
O nome "Liberdade" dado ao engenho do seu avô, revela Jayme Griz foi iniciativa
de um dos escravos, pois apesar da campanha pela abolição da escravatura estar no
início sentia-se claramente que a vitória não fugiria de José Mariano Carneiro da
Cunha, líder abolicionista em Pernambuco.
A maioria dos velhos engenhos pernambucanos estão de fogo morto. O surgimento das usinas
acabaram com eles.
Era o "progresso" que surgia, assinalam uns.
Antes de terem sidos impiedosamente esmagados pelas usinas, os engenhos tinham a sua
cantiga, a mesma "Cantiga de Engenho" que Jayme Griz fixou no seu livro Rio
Una e era cantada pelos escravos no trabalho diurno e noturno.
Cantiga de engenho
Meu engenho é banguê
Banguê, banguê, banguê!
Meu engenho roda dágua
é danado pra moer!
Fornalheiro, fornalheiro,
Bote fogo na fornalha,
Que o engenho está fumaçando,
Mas a tacha não trabalha!
Moendeiro, moendeiro,
Bote a roda pra correr,
Tome conta da moenda,
Bote cana pra moer!
Meu engenho é banguê,
Banguê, banguê, banguê,
Meu engenho roda dágua
É danado pra moer!
Seu mestre, segure o ponto,
Olhe o mel que está de vez,
Seu mestre não se descuide,
Não vá queimar outra vez!
O açúcar está pesado,
Ensacado pra vender,
Senhor de engenho na praça.
Com dinheiro já se vê!
Meu engenho é banguê,
Banguê, banguê, banguê,
Meu engenho roda dágua
É danado pra moer!
Deixando as exaltações dos engenhos, vamos encontrar outro engenho que introduziu
sistema a vapor: o engenheiro e inglês Alfred De Mornay "publicou um livro na
Inglaterra em 1847/48 com um título que muito embora não sugira ao estudioso da
história uma consulta imediata, revela ter sido também projetista às voltas com
invenções de moendas e construção de estradas de ferro, um homem também interessado
em fixar diferentes aspectos, nem sempre ligados às suas preocupações profissionais, de
um engenho de açúcar".
De Mornay criou a moenda e instalou no Caraúna, "onde também foi instalada a
primeira máquina a vapor fabricada no Brasil, em 1836, pela fundição C. Starr e Cia;
Recife".
Segundo Pereira da Costa de que "graças, porém, ao estabelecimento de uma
fundição convenientemente montada pelos anos de 1829 por Harrigton e Starr, na rua
dAurora, na casa situada junto à igreja dos ingleses, estancou a importação de
peças avulsas, até que em 1836, quando o estabelecimento atingira o desenvolvimento tal
que podia realizar trabalhos de maior fôlego. Aventurou-se a empresa a fatura e montagem
de um serviço completo movido a vapor, para o Engenho Caraúna situado em
Jaboatão".
Pelo visto, Francisco Augusto Pereira da Costa não faz a mínima referência ao suposto
criador De Mornay, a quem Fernanda Gouveia aponta como o técnico que tudo fez.
Não esqueceu Ascenso Ferreira dos senhores de engenho. "A poesia de Ascenso é
desses senhores de engenho como é dos trabalhadores de eito, dos carreiros e cambiteiros,
dos moleques tombadores de cana, dos mestres de açúcar e dos vigias de papo-amarelo à
bandoleira. É a poesia de Pernambuco, do Nordeste" como Luiz Luna tão bem o
definiu, traçando-lhe o perfil como ninguém foi capaz.
Senhor de engenho
Cainãnal
Chama aí Zé Pinga-fogo,
Batinga, Pedro Quiximbeque,
Mané Rasga Guela,
aquele Negro da orelha lambi
e o velho Pedro Canção...
Pronto, seu coronel!
Têm coragem de morrer na baía, cabras danados?!
Só a gente vendo, patrão!
Então ajuntem as redes todas,
vamos dar uma pescada,
que eu estou vontade de comer cabrito!
A casa grande de megahype
A casa-grande de Meghaype Ascenso Ferreira recorda e exalta sua grandeza fidalga.
Há muito tempo que a usina estava danada com ela!
A linda casa-colonial cheia de assombrações...
Debalte, ela, a usina,
mostrava orgulhosa
o seu boeiro com aquela pose de girafa!
Debalte mostrava
o giro das rodas
o brilho dos aços,
o espelho dos latões...
Nada! Todo mundo que lá ia
só dizia nos jornais
cousas bonitas da linda casa colonial cheia de assombrações...
Tentou um esforço derradeiro:
mandou mestre Carnaubá
fazer um samba bem marcado
a fim dela cantar alegre
ao som dos ganzás
de suas bombas de pressão:
"Olha a volta da turbina,
da turbina da turbina,
da turbina da usina,
da usina brasileira!
Olha a volta da turbina,
Da turbina, da turbina,
da turbina da usina,
da usina brasileira..."
Qual! Todo mundo só falava
na linda casa colonial cheia de assombrações...
A vaca Turina,
o cavalo Cachito,
o burro Manhoso,
o cachorro Vulcão
todos a uma vez, unidos repetiam:
É bom de dormir naquele terraço prestigiado por quatro séculos de assombrações!
Então a usina não pôde mais!
Mandou meter a picareta nas pedras lendárias
destruir os quartos mal-assombrados,
enxotar os fantasmas de sais de seda
e capas de ermitões,
respondendo, insolente, à falação que se levantou:
"Olha a volta da turbina,
da turbina, da turbina,
da turbina da usina,
da usina brasileira!
Olha a volta da turbina,
da turbina, da turbina,
da turbina da usina,
da usina brasileira!"
Se Ascenso Ferreira soube evocar o senhor de engenho em poema, Mário Sette escreveu um
romance: Senhora de engenho, em que focaliza a forte personalidade, os hábitos e
até a maneira de receber daquelas que foram realmente verdadeiras senhoras de engenhos de
Pernambuco.
Uma noite de festa na casa-grande de um dos nossos engenhos, Mário Sette, diz que
"de noitinha, as lâmpadas a álcool derramavam leitora claridade nas salas e nos
pátios do engenho; fileiras de balõezinhos desciam da capela, labirintavam todo o
cercado, multicormente. Tinham chegado convidados das localidades próximas, de Timbaúba,
do Recife: os coronéis Roberto e Fabrônio, amigos velhos da família, o "seu
Joca" do Correio, o doutor Castro e Silva, médico em Nazaré, o coletor federal
José Várzea, o vigário de Carpina, o major Silvino Rego, cunhado de dona Inacinha, o
padre Elisio, o doutor Ivan Sales, advogado em Caruaru, sobrinho do coronel Casusa e por
quem Clarice se ruborizava... Muitas senhoras, muitas moças, muitos rapazes, por todo os
cantos, rodas onde se palestrava animadamente, os creados serviam cerveja e licores em
grande bandejas volantes.
As crianças, no pátio, cirandavam, de mãos dadas, as cabecinhas beijadas pela luz das
lâmpadas, entoando."
A moda da carraquinha
É uma moda deliciosa:
Depois do joelho em terra,
Faz a gente ficar formosa...
Clotilde sacode a saia
Gustavo abre os teus braços
Joãozinho tem dó de mim
Lurdinha dá-me um abraço...
Depois era o "bota aqui o teu pezinho", ou o
Ó ciranda, cirandinha,
Vamos todos cirandar,
Vamos dar a volta e meia,
Volta e meia vamos dar...
As crianças também participavam das noitadas, menos das conversas é claro mesmo porque
só "gente grande" tinham trânsito livre.
Os pastoris era outro divertimento que fazia parte da festa. "Uma orquestra afinada
tocava as primeiras jornadas, requebrando-se as pastoras, na garridice dos trajes azuis e
vermelhos, toada voluptuosa dos versos simples."
Ó gentileza!
Tão airosa e bela,
Eu não só lírio,
Nem também jasmim...
Das pastorinhas
Sou a mais querida,
Sou a princesa
Deste pastoril...
"É sempre o azul berravam partidários, na quentura do entusiasmo, querendo a
"contra-mestra", faceira mulatinha, se remexia."
Os rótulos
Não resta a menor dúvida, de que foi no início do século atual a preocupação dos
fabricantes e engarrafadores de aguardente iniciarem a criação dos rótulos, ou melhor a
rotulagem que até então não existia. Fabricava-se aguardente, porém sem rótulos. São
realmente numerosos os verdadeiros motivos que conduziram os idealizadores a adotarem os
mais variados tipos de rótulos.
Sentimentais, alegres, exóticos, esqui sitos, alguns se apresentam assim focalizando
acontecimentos históricos, de repercussão local e nacional, sem esquecer aqueles que
são realmente jocosos e picantes. Entretanto, dispersos e espalhados em centenas de
prateleiras de mercearias, bares, restaurantes, botequins, botecos de estradas e de
cidades, nunca foi olhado com a devida atenção. Muitos são luxuosos em sua
apresentação, enquanto outros modestíssimos em todas as suas facetas. Diremos, com
certeza, que raramente se apresenta para o verdadeiro pesquisador ou estudioso da
história, oportunidade tão magnífica de fixar os rótulos de aguardente. Eles espelham
os estados de espírito ocasionais dos fabricantes e engarrafadores, refletindo,
sobretudo, o comportamento espiritual de uma classe; exibem de urna maneira clara e
insofismável o problema de pensar, sentir, vender e até de amar. Muitos rótulos
surgiram de engenhos tradicionais e que após o surgimento das usinas, foram transformados
em engenhos aguardenteiros.
Se os rótulos de cigarros fizeram alusão a acontecimentos históricos, os rótulos de
aguardente não deixaram de registrar o acontecimento: eles trazem verdadeira mensagem à
cidade, nomes e expressões sertanejas e levam de volta lembranças de fatos e
acontecimentos do mundo inteiro.
(Fragoso, Danilo. "Os rótulos na história da
aguardente (III)". Brasil Açucareiro, novembro de 1973, p.484-488)
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