Eduardo Campos
Percorre-se o sertão e no lugar em que descansar um pouco aí existirá, por certo,
uma venda, quer esteja situada em um povoado ou improvisada à margem da estrada. E nela,
inevitavelmente, poderá ser encontrada uma garrafa de aguardente, senão várias, aberta,
para o líquido ser vendido a retalho, em pequenas doses. A produção de cachaça no
Ceará como em todo o nordeste brasileiro é atividade das mais lucrativas,
existindo centenas de fabricantes que lançam seus produtos ao mercado, amparados pelo
prestígio das marcas que cuidadosamente escolhem e que são consideradas, com simpatia,
pelos que se consagram ao seu uso.
Existe toda uma série de práticas para se conhecer as boas virtudes da aguardente que,
no hinterland cearense e acreditamos o mesmo ocorrer em outras regiões
dessa expressão geográfica tem as mais variadas aplicações. A cachaça não
serve apenas para alegrar as criaturas, sendo, pela razão de custar menos, a bebida que
está presente a todos os momentos de prazer da comunidade rural.
Não se concebe manifestação de alegria sem a consumação de pelo menos um
"trago" de boa cana. E tal é o seu uso, que vamos encontrá-la como veículo
até mesmo de garrafadas de permanente aplicação na terapêutica popular, e numa
infinidade de outros remédios, sendo, pelo seu alto teor alcoólico, o primeiro
desinfetante de que se utiliza a gente humilde para pensar seus ferimentos acidentais. É
o líquido que aplaca a picada da serpente, que elimina de uma vez a frieira, que alivia a
coceira. Por outro lado sua utilização vai mais longe, sendo empregada na própria
culinária ambiente, resultando excelentes as avoantes que se obtêm assadas em sua
combustão.
Não ficam aí, naturalmente, as aplicações e virtudes da bebida mais difundida que
possuímos. Sua existência provoca a criação de rico folclore já aproveitado em parte
por diversos estudiosos, valendo ressaltar entre os trabalhos que se conhece o
interessante livro de José Calasans, "Cachaça, moça branca", que oferece,
nesse sentido, excelente contribuição.
Entretanto, o assunto não restou esgotado. O tema é apaixonante. A cada passo
encontramos um fato que nos deixa atento ao folclore que se gera do povo em contato com a
sua bebida predileta. Bebe-se cachaça porque o princípio sertanejo de que "pancada
grande é que mata a cobra", demonstra mais uma vez a sua validade. Vinho é bebida
de branco, de gente que não "tem fôlego". Diz-se até: "Fulano, você
pode beber. É bebida de rico. Fraco que só vinho de missa".
A aguardente, ao contrário, é bebida de pobre, de gente que tem disposição para o
trabalho. Bebida de homem, enfim, sendo uma característica de emancipação dos pais o
filho que já freqüenta a bodega a pedir que lhe sirvam uma "bicada". Essa
característica de violência nos sertões. Quem bebe cachaça não deve fazer careta ao
sentir a bebida escorrer pela garganta. Bebe bem quem a ingere como se tomasse um copo de
água. Diz-se:
Queima, mas desce mansa...
A sua qualidade é de grande importância. A primeira demonstração que se faz, para
saber se a aguardente é de primeira, fabricada com esmero, está na formação de bolhas
na bebida, à altura do gargalo do vasilhame, se esse é agitado várias vezes. Se as
bolhas demoram por mais tempo é sinal de que a bebida foi destilada com cuidado, não
importando, como pensam algumas pessoas, a sua cor que varia conforme o tonel em que
esteve depositada para envelhecimento.
Os fabricantes disputam, entre si, as preferências do mercado. A importância não está
realmente no teor alcoólico. Há cachaças de quarenta e nove graus que não satisfazem e
outras de vinte e poucos graus que agradam ao mais exigente paladar. O segredo reside no
zelo do fabricante, em seu cuidado profissional, não entregando ao consumidor um produto
que não tenha ficado pelo menos dois anos a envelhecer em tonéis especiais. Cachaça do
primeiro ano, isto é, a que foi fabricada no mesmo ano da safra da cana que lhe deu
origem, não pode ser comparada a uma boa pinga de cinco ou mais anos. Fabricantes
escrupulosos guardam para seus amigos aguardente até com dez anos de envelhecimento, o
que nos faz imaginar o seu aproveitamento melhor se fosse obedecido critério mais
rigoroso em sua manipulação.
É distinção de muito bom-tom alguém oferecer a outro um cálice de aguardente antiga.
Geralmente em torno desse oferecimento giram falsas informações da bebida, sendo frases
comuns as que se seguem:
Esta é cana boa, é do Lameiro. Tem doze anos...
Veja que não relaxa. É cana do Aracati. Foi destilada em alambique de barro e
está guardada há doze anos.
O último fato que concorre para ser uma aguardente melhor apreciada do que outra está
representado na marca do produto. Um nome jocoso faz época. Marca sugestiva consegue
adeptos e se a bebida é fabricada com honestidade, seu êxito estará garantido. Dentre
as várias marcas de aguardente que em Fortaleza são vendidas, através de cento e quinze
bares e cento e doze botequins, em um total de duzentas e vinte e sete casas
especializadas na venda de bebidas espirituosas, podemos destacar as que se seguem: Pé-de-tonel,
Já Começa, Vovó, Vovô Extra, Gato Preto, Imparcial,
Guanabara, Vale do Cariri, Ipioca, Idealista, Tabatinga,
Redenção, Fio de Ouro, Amarelinha, Rayto de Sol, Granada,
Douradinha, Cearina, Sedutora, ABC, Feiticeira, Serra
Branca, Xumbe, Theotonio.
O Ceará é uma exceção na maneira curiosa de servir a aguardente. Não se concebe ser a
bebida vendida sem o "acompanhamento", chamado, com muita propriedade,
"tira-gosto". Quando alguém pede uma "bicada" ou um
"trago", a bebida já lhe é servida com a fruta ou o pedaço de carne que
representa o "tira-gosto", tudo pelo preço normal da dose vendida a retalho. O
"tira-gosto" pode ser de frutas da região, assim se terá conforme a época de
safra, as serigüelas, os cajá-umbus, umbus, limas, abacaxis, etc. Quando de todo faltam
as frutas regionais, os vendedores de cachaça preparam, como "tira-gosto",
tripa assada, farofa de carne, peixe frito, avoante, piaba, camarão e até lingüiça.
O anedotário popular está cheio de citações e episódios pitorescos a esse respeito.
São várias as histórias que sempre um bebedor sabe para contar aos circunstantes de um
"fulano" que certa vez "matou o bicho" (ato de beber cachaça) com
umas baratas que encontrou na mercearia. De outra feita, já o estranho e repugnante
"tira-gosto" não foi uma barata, mas um rato morto, guardando o povo
informações ainda mais incríveis de um bebedor que "tirou o gosto" da bebida
com um pedaço de cobra assada.
Conta-se no Ceará a história de inveterado alcoólatra que não justificava uma
"bicada" sem o devido acompanhamento. A bebida, sem "tira-gosto" não
lhe sabia bem. Tendo acabado de beber um trago respeitável (a bebida no copo é servida,
às vezes, obedecendo à hierarquia militar. Por exemplo: um cabo, quer dizer dois dedos
de cachaça, em alusão às fitas que o militar conduz no braço. Sargento, três dedos.
Segundo sargento, quatro dedos...), um segundo sargento, quando pediu:
Hum, que "tira-gosto" tem vosmincê?
Ah, esqueci disse o vendeiro. Num lhe avisei que se acabou...
Home, num faça isso. E agora?
Não sei.
Tem barbante?
Não senhor.
O bebedor olhou para as prateleiras, demorou a vista, e, de repente, sentiu-se reanimado.
Falou:
Me dê um novelo de linha quarenta.
E ao receber das mãos do outro o que pedia, colocou na boca dois ou três palmos de linha
e saiu mastigando-a, calmamente. Fora o "tira-gosto" encontrado para a sua
satisfação.
Mas, sem dúvida nenhuma, o caju é o "tira-gosto" preferido. Quando os
cajueiros frutificam não faltam nos botequins e vendas suas deliciosas frutas cortadas em
fatias que, espetadas por palitos, são servidas em pratos aos que vão "molhar a
goela".
Botequim que não oferece aos seus fregueses um bom "tira-gosto" não pode ser
considerado de boa freqüência. Cachaça velha, "tira-gosto" de primeira, eis
as duas principais condições para quem deseja tomar um "trago". O resto faz
parte de um folclore bastante generalizado e que principia desde as frases, palavras
cabalísticas, apelidos, mandamentos sobre bebidas, até a clássica cusparada para tirar
o azinhavre da boca.
Quem bebe aguardente como aperitivo não faz ponto em um botequim apenas. O boa regra
manda que passe pelo menos por três bares e tome uma "bicada" em cada um deles.
Os mais viciados é que costumam demorar no mesmo local. A etiqueta do bom bebedor de
cachaça exige essa prática obedecida por quantos se julgam profundos conhecedores da
aguardente e de suas virtudes.
Gente assim, desta classe, não bebe "pau de urubu", que é aguardente sem
recomendação, fabricada às escondidas da fiscalização; nem toma dose de um cruzeiro.
Escolhe a bebida pela marca, preferindo sempre servir-se da garrafa recém-aberta. E como
há os que agem dessa maneira, existem também os que cheiram a bebida antes de ingeri-la,
os que derramam parte do líquido no canto da sala, como se o mal estivesse ali, os que
dizem tomá-la para cortar o frio, se está chovendo, para afugentar o calor, se o dia
está quente, para matar tristezas, para festejar a alegria, para tudo enfim.
A atitude de conhecimento da aguardente é, no entanto, comum a todos. Quem bebe cachaça
diz-se profundo conhecedor de suas virtudes, embora a maioria pouco ou quase nada entenda
sobre o assunto. E há naturalmente os que sabem versos ou pequenas histórias sobre ela.
* * *
Até aqui procuramos deixar bem claro a importância dessa bebida na vida social das
coletividades rurais. Realmente, não é admitida pelo sertanejo a sua ausência aos
momentos em que se sente, juntamente com seus companheiros, invadido dessa euforia cabocla
tão de nosso conhecimento. Se ocorre uma cantoria nela se fará presente a cachaça,
sendo servida a cantadores convidados. Se se realiza, por ventura, uma festa, não
faltará, decerto, uma garrafa da violenta bebida. E até mesmo em instantes os mais
extravagantes conforme veremos a seguir poder-se-á ter a oportunidade de
verificar mais modalidades de seu uso pelo povo. Dois exemplos de situações impróprias
para a ingestão de bebidas espirituosas foram testemunhados por nós: em velórios e por
ocasião do sepultamento de pessoas pobres, principalmente em dias chuvosos.
Certo dia, que já vai longe, no Município de Pacatuba (Estado do Ceará) assistimos a um
coveiro tomar aguardente em um crânio recém-desenterrado, sem que mostrasse o menor
receio. Dizia o extravagante homem aos circunstantes, que eram muitos, principalmente
jovens:
A cana "corta" tudo, gente. Num há mal que pegue num home, se ele bebe a
"branquinha".
A cachaça é utilizada de várias maneiras, como já demonstramos: como veículo para
garrafadas, para remédios, contra a picada de insetos, mordida de cobra, etc., ao ensejo
de acontecimentos felizes e de tantos outros tristes ou trágicos, não faltando,
portanto, admiradores para as suas qualidades. Admiradores, dizemos agora, e detratores.
Sim, porque se existem os que a elogiam e a aceitam sem restrições, por outro lado, no
seio do povo, não é menor o número dos que se insurgem contra seu uso.
Reunimos neste trabalho alguns versos de cantadores e mais alguns esclarecimentos que
buscamos nas fontes populares, com o objetivo de oferecer aos estudiosos uma
contribuição desinteressada que, se não consegue ser brilhante, pelo menos tem a marca
e o prazer que nos confere uma pesquisa honesta.
Sobre a "branquinha", dizia um cantador em Águas Belas:
Nasci para beber. no mundo
Quantidade essa não pouca
Quanto levo o copo à boca
Meu desejo é ver o fundo
Seus versos não são menos interessantes do que estes que ouvimos, de certa feita, em um
balcão de mercearia:
Sou canista sem segundo
Bebo mais que toda a gente
Se o veneno da serpente
Fosse cachaça com sobra
Eu desejava ser cobra
Tanto gosto de aguardente
Em bodegas de subúrbio ou em vendas do sertão sempre é possível ouvir-se uma ou outra
história interessante a respeito do vício, da bebida e de suas conseqüências. As
cantorias ou mais precisamente os versos são mais usados nos terreiros por
ocasião de desafios, quando o assunto é oferecido no mote. Mas, de histórias assim,
contadas em mesa de bar, algumas explicando porque os homens perdem o juízo, figura
naturalmente a que se segue que reputamos possuir verdadeira originalidade. Reproduzimo-la
como a escutamos:
Moço dizia o "canista" a gente tem treze macaquinhos na
barriga e doze cadeiras desocupadas no juízo. Cada "reiada" (golada, bicada,
trago, etc.) que se toma da cachaça, sobe um macaquinho e se senta numa cadeira. A gente
vai bebendo e vai subindo outro macaquinho. O negócio é num facilitá, porque nem sempre
a gente guarda na cabeça a conta das cadeiras e num sabe se tem alguma ainda vaga. E
quando sobem os doze macaquinhos e o freguês molha a garganta outra vez, pode contar com
o estrupício. O décimo terceiro macaquinho, num encontrando lugar pra se sentar, vai
querer tomar a cadeira dos outros.., e haja briga! Aí é que a gente perde o juízo, sem
querer, e toca a fazer asneira... Vem a zuada, vem a polícia e peia no cabra...
Depois, explicava ao ouvir as nossas palavras achando estranho o número limitado de
cadeiras.
O negócio é o seguinte: quando o bebedor de cachaça é fraco, só tem seis
cadeiras no juízo. Quando é forte tem oito, tem nove, tem até vinte cadeiras... Mas
sempre há de ter um macaquinho pra atrapaiar...
Motivos como este e tantos outros são aproveitados pelos cantadores como tema para os
seus desafios. As vezes surgem versos bem urdidos, de profunda moral, embora a maioria
sirva, apenas, para louvar a bebida e os que dela se utilizam. Siqueira de Amorim e
Francisco Evaristo, dois cantadores de verso fluente, ao toque da viola, cantaram para
nós algumas sextilhas das mais interessantes das que temos sobre o assunto:
Siqueira de Amorim:
Aguardente geribita
feita da cana caiana
Eu bebo desde o começo
Até o fim da semana
O cantador só é forte
Quando canta e bebe cana!
Um pouquinho de aguardente
A muita gente conforta:
Faz esquecer a tristeza,
Revive a esperança morta
Até as mulheres bebem
Também por detrás da porta!
Quando eu pego na viola
Disposto a cantar repente
Digo ao dono do "pagode":
Traga um pouco de aguardente...
Bebo pra matar o frio
E bebo pra ficar quente!
Hoje bebe todo mundo
Deputado e senador,
Bebe o soldado, o sargento,
O juiz, o promotor.
Como é que pode deixar
De beber o cantador?
Francisco Evaristo:
O homem degenerado
Que se vicia a beber
Quando está puxando fogo
Só trata em aborrecer,
Faz coisas que o diabo
Faz questão pra não querer...
A cachaça, meus amigos,
Sempre só faz ação feia:
Logo que o cabra a toma
A todo mundo aperreia,
Precisa até a policia
Levá-lo logo à cadeia...
E termina até na peia
Devido ser imprudente
Depois se solta, mas fica
Tristonho e muito doente
Tudo isso só porque
Meteu-se na aguardente
Eis a razão porque digo
Dela qual o seu defeito:
Ataca primeiro o cérebro
Come o "figo", acaba o peito,
E depois do mal tá crônico
Não há médico que dê jeito
Cego Aderaldo, o extraordinário poeta popular dos sertões nordestinos, de quem o saudoso
Leonardo Mota recolheu sugestivos improvisos de sua lavra, é autor destas duas sextilhas
sobre a cachaça:
Cachaça é bebida boa
O povo chama "branquinha":
Botam mel pra ficar doce
Então chamam "meladinha",
Mas sai com as pernas trançando
Como quem cose bainha!
Os que gostam de aguardente
Não devem beber demais,
Que um velho de oitenta anos
Bebendo quer ser rapaz,
E no banho veste a calça
Com a barguilha pra trás.
As "saúdes de mesa", canções repetidas ou improvisadas em função de um
almoço festivo, não estão de todo desaparecidas. No Ceará, como em todo o Nordeste,
acreditamos, continuam vivas, principalmente os versos:
Oh! que lindos companheiros
Como viram tão ligeiros
Se és covarde
Sai da roda
Que nossa empresa requer valor!
Primeira bateria
Vira,
Primeira bateria
Vira.
Poucos, no entanto, são os que numa reunião assim suportam beber a aguardente aos gritos
dos companheiros mais animados pelo "vira, vira". No entanto, mesmo nas casas de
pessoas de mais conceito, por ocasião de uma panelada, não estará ausente a cachaça,
embora oferecida com certa cerimônia pelo dono da casa.
É a bebida dos fortes . É o "vinho" do povo e em torno dele, dia-a-dia, cresce
e toma vulto rico folclore.
(Campos, Eduardo. Folclore do nordeste. Rio de
Janeiro, O Cruzeiro, 1960, p.41-51) |