Ademar Vidal
O engenho está moendo em ordem. Todos se acham a postos, cada qual na sua faina
determinada, ninguém se metendo na seara alheia. Tudo muito regular na sua marcha alegre
e mesmo pitoresca. Ouvem-se os cânticos da negralhada botando cana para a moagem. Aquele
"olha a cobra verde enroladinha" ou então: "tira a mão das cadera,
mulatinha". Há cantoria por todos os lados.
Nesse trabalho constante e pesado ninguém bebe, ninguém se atreve a tomar um gole de
cachaça, pois que todos sabem as vontades do senhor que está na casa-grande, na conversa
de família. Vão beber depois do serviço. Aí sim é que é beber de verdade. Todavia,
no dia seguinte, às mesmas horas de sempre, estão todos pegando firme no trabalho duro e
invariável, não faltando ninguém.
E a alegria continua a mesma nas pilhérias, nos ditos, nas adivinhações (o que é, o
que é? mastiga, mastiga, mas não engole? rodete de casa de farinha), e nos versos
de coco, nas emboladas de tão ligeiras de não se poder acompanhar. Tem negro que
"tira" com rapidez tamanha que chega a perder o fôlego. Faz confusão no ouvido
dos outros.
O ambiente mostra-se sobretudo agradável. O visitante fica horas inteiras sentado,
espiando o movimento incessante, igual, igual, porém nunca monótono nem enfadonho. Rola
o trabalho o dia todo e parte da noite. De repente a caldeira dá um gemido que ninguém
aprecia ouvir. Será possível? Ouviram? Todos ouviram. Não resta dúvida de que a
caldeira gemeu, tornou a gemer com sentimento, repetindo-se a dose, não devendo haver
mais incertezas. A sentença foi proferida e dela senhor nenhum escapara. Aquilo é raro,
senão raríssimo na vida do engenho e tem significação deveras muito particular.
É sinal de prova dos nove que o dono vai morrer em pouco tempo. Não demorará bastante,
coisa mesmo de dias.
Entanto, ele se acha na sala de jantar da casa-grande, à vontade, sentindo-se bem, bem
feliz de seu, a conversar com as pessoas da família na mais franca animação. Leu os
jornais que vieram de Recife, repletos de notícias frescas. Informa a todos os seus o que
se passa por este mundo de Deus. Não fica nada que não conte, fatos de política,
complicações de amor, crimes sangrentos tudo é relatado com minudências. E
depois começa a pensar no passeio que deve dar no fim da safra. Está bem próximo.
Viajar é bom, é ótimo. Levará todos consigo, desta vez levará, não vai ficar
ninguém. O açúcar anda na maré da alta e deve deixar compensador resultado este ano.
Está assentado de pedra e cal, coisa mesmo resolvida definitivamente: a viagem há de ser
longa, visitarão as capitais do sul e quem sabe? talvez seja possível até um
salto à Europa. Os outros não vão a Paris com tanta facilidade? Chegou a ocasião de
fazer o mesmo.
São cogitações animadas e justas, determinando grande vavavu doméstico.
Agora convém dar uma espiadela de fiscalização no engenho que apitou grosso. Ele não
apita assim fora de horas. Alguma complicação houve, mas não deve ter sido tão
importante, senão teriam ido avisá-lo. E segue com o seu cajado na mão, cachimbo na
boca e metido numas botas altas, quer olhar tudo, ver o que há de novo, como anda o
serviço, se há necessidade de alguma providência urgente. Nenhuma novidade, tudo
ordenado. Por que, então, o apito fora de tempo? Explicações. Era a pressão que andava
forte, precisando baixá-la para evitar más conseqüências. Foi preciso que parasse tudo
durante alguns ligeiros instantes. O mestre concluiu as informações e já agora meio
assustadiço, sem disfarçar embaraço, disse:
A caldeira gemeu.
Teve como resposta:
É fogo demais. Mande baixar a pressão.
Mas o mestre pessimista espia o senhor com certo ar desconsolado, ele que não quer
acreditar naquela história triste, que jamais falhou. Entanto é a verdade sem
contestação: a caldeira geme como indício de que está para acontecer desgraça fatal.
Não há quem dê jeito em sentido contrário. Só Deus, porém se é anúncio de Deus? O
senhor não aceita o que se diz na voz do povo (aquilo parece apenas dos dentes pra fora,
mesmo porque ele é velho, conhece as superstições e sabe que elas não mentem), mas o
mestre não tem a menor dúvida, a morte do patrão está assentada para breve, e trate
ele de pôr as contas em dia, trate de arranjar a família, não se descuide do
testamento, trate finalmente de ficar bem a sua alma com as graças divinas.
Não há quem possa desviar o curso do que irá acontecer. A caldeira gemeu e, se ela
geme, é a fatalidade, é a morte. O senhor anda de excelente saúde, não se deixa levar
nas águas da superstição; erra, está errado, vai ver: nem talvez caia doente por falta
de tempo, pois a coisa vem sempre de supetão.
No caso descrito, dias depois, a família chorava o seu chefe, que nascera, vivera e
morrera ali, a vida toda no meio do engenho, sabendo de tudo quanto se conta de agouros,
tanta história trágica, porém teimou em não considerar os "avisos" e, sendo
assim, teve de deixar os negócios atrapalhados, meio à toas e que iriam servir de
pasto ótimo para a fome insaciável dos advogados.
Com gemido de caldeira não se brinca, deve-se levá-lo a sério, é sintoma de que chegou
a hora, prepare-se o dono do engenho, diga adeus, faça as suas orações e
recomendações, a viagem há de ser longa, dessa vez irá além das capitais do sul, irá
a Buenos Aires é viagem de completa liberdade por todos os continentes e por todos
os oceanos.
(Vidal, Ademar. Lendas e superstições; contos
populares brasileiros. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1950, p.269-271)
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