Ano 5 - setembro  2002 - nº 49


BRANCA, BRANQUINHA, MOÇA BRANCA...

FONTE INSPIRADORA

ÁGUA QUE PASSARINHO NÃO BEBE

FEITA DE CANA CRIOULA...

REMÉDIO BOM

BIBLIOGRAFIA

 


A SERPENTE DO CANAVIAL

Ademar Vidal


Depois que o canavial está crescido, com as canas procurando acamar, começa então a circular a história fantástica, acreditando-se piamente na existência de uma serpente verde e gigantesca no tamanho. Ela é a dona imperial da plantação e, até ficar em ponto de corte, monta guarda canina, não deixando que mãos estranhas se metam com o que não é seu. Fica mesmo furiosa na defesa da lavoura que vai transformar-se em açúcar.

Já se conhecem as variadas formas dessa defesa intransigente do fantasma animal irritante e servido de poderes extraordinários.

Se o rio vem com enchente, inundando tudo, trazendo água barrenta e cheia de troços, descendo do sertão com enxurrada de cascavéis e jararacas, dentro de breves dias estará normalizada a situação. A serpente come todos os bichos que vieram e bebe toda a água que o rio teve a insolência de espalhar. Se aparece a peste, uns besouros que viram lagarta preta e branca, roendo e comendo a cana, o serviço, o serviço se torna feio e exaustivo porque o ataque é feito por meio do exército fabuloso como número. Mas não tem nada, a luta repressora é travada — e ganhará, mais hoje, ou mais amanhã. Também se acaba logo, tem duração restrita, tão eficiente como a tal da "guerra relâmpago".

Acontece que o guaxinim precisa manter-se de pé. E para tanto necessita entrar como sócio do canavial. Gosta muito de doce, não pode viver sem ele. Toca a chupar cana. Não fosse o estrago desproposital que faz (sujeito. mau e antipático — eita, bicho!) e não seria certamente combatido. Com esse péssimo caráter, o guaxinim insiste em estragar as canas, fazendo o sarceiro mais lamentável e, por isso mesmo, determinando que se contrarie a sua ação nefasta. A serpente monta sentido matreiro e consegue pegá-lo de jeito, engolindo-o com aquela dentuça de fora, aquelas garras fortes, com todo aquele ar de boneco risonho. Quebra-lhe os ossos para que a digestão corra mais fácil.

Como se vê, a defesa é em regra, faz-se por todas as maneiras — e até o homem que gosta, às vezes, de arrancar alguma caiana para chupar, não se atreve muito a fazê-lo durante a noite, preferindo a luz do dia para se guiar melhor.

Na escuridão a serpente se confunde com o canavial. E dizem que ela tem inúmeros olhos. Possui pernas em quantidade, é coisa também que toda gente sabe com segurança. De maneiras que a vigilância se mostra atenta e, quando requer rapidez no bote, este se verifica sem perda de tempo, com a maior velocidade possível. Esta é a razão porque se nota cautela por parte dos que pretendem chupar cana, arrancando-a quando as sombras cobrem a várzea, quando no silêncio só se ouvem uns leves passos misteriosos.

Com a queda da noite, aquelas sombras fixas e móveis ao mesmo tempo emprestam ao ambiente uns tons impossíveis de morte — espectros que perambulam sem destino. O vento começa a cantar nas folhas e nas vassouras pendoadas, sussurrante como namorado medroso e fazendo barulho apenas semelhante ao que se nota nos cemitérios, naqueles cemitérios arborizados com ciprestes. Ouve-se ao longe uma voz de queixa para se ficar mesmo de cabelo arrepiado. Mas quem disse que era o vento? Tudo não passa do resfolegar da serpente que não dorme na sua guarda noturna.

Se faz luar de outubro, então é que o mistério toma aspectos tenebrosos, encolhendo os corpos, aconchegados no medo, tal como se estivessem com frio polar. A luz do plenilúnio empresta vivos tons de prata ao verde escuro do canavial. E as nuvens velozes se renovando sempre, sem demonstrar cansaço, cobrem, ligeiras, a paisagem móvel, ondulante e fantástica, dando a impressão perfeita de mergulhos imensos e graciosos naquele oceano vegetal. Fica-se temeroso do que poderá acontecer.

Ninguém tem coragem fácil para se meter num mundo assim fendido pela serpente verde. E de tamanho gigantesco. Ela vive a dar provas de que não cansa: o rugido que se ouve é seu, perdendo-se na noite ampla e maternal, porém reavivando cada vez mais a certeza de que existe, põe sentido e ataca também caso se faça necessário.


(Vidal, Ademar. Lendas e superstições; contos populares brasileiros. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1950, p.295-296)

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