Ademar Vidal
Depois que o
canavial está crescido, com as canas procurando acamar, começa então a circular a
história fantástica, acreditando-se piamente na existência de uma serpente verde e
gigantesca no tamanho. Ela é a dona imperial da plantação e, até ficar em ponto de
corte, monta guarda canina, não deixando que mãos estranhas se metam com o que não é
seu. Fica mesmo furiosa na defesa da lavoura que vai transformar-se em açúcar.
Já se conhecem as variadas formas dessa defesa intransigente do fantasma animal irritante
e servido de poderes extraordinários.
Se o rio vem com enchente, inundando tudo, trazendo água barrenta e cheia de troços,
descendo do sertão com enxurrada de cascavéis e jararacas, dentro de breves dias estará
normalizada a situação. A serpente come todos os bichos que vieram e bebe toda a água
que o rio teve a insolência de espalhar. Se aparece a peste, uns besouros que viram
lagarta preta e branca, roendo e comendo a cana, o serviço, o serviço se torna feio e
exaustivo porque o ataque é feito por meio do exército fabuloso como número. Mas não
tem nada, a luta repressora é travada e ganhará, mais hoje, ou mais amanhã.
Também se acaba logo, tem duração restrita, tão eficiente como a tal da "guerra
relâmpago".
Acontece que o guaxinim precisa manter-se de pé. E para tanto necessita entrar como
sócio do canavial. Gosta muito de doce, não pode viver sem ele. Toca a chupar cana. Não
fosse o estrago desproposital que faz (sujeito. mau e antipático eita, bicho!) e
não seria certamente combatido. Com esse péssimo caráter, o guaxinim insiste em
estragar as canas, fazendo o sarceiro mais lamentável e, por isso mesmo, determinando que
se contrarie a sua ação nefasta. A serpente monta sentido matreiro e consegue pegá-lo
de jeito, engolindo-o com aquela dentuça de fora, aquelas garras fortes, com todo aquele
ar de boneco risonho. Quebra-lhe os ossos para que a digestão corra mais fácil.
Como se vê, a defesa é em regra, faz-se por todas as maneiras e até o homem que
gosta, às vezes, de arrancar alguma caiana para chupar, não se atreve muito a fazê-lo
durante a noite, preferindo a luz do dia para se guiar melhor.
Na escuridão a serpente se confunde com o canavial. E dizem que ela tem inúmeros olhos.
Possui pernas em quantidade, é coisa também que toda gente sabe com segurança. De
maneiras que a vigilância se mostra atenta e, quando requer rapidez no bote, este se
verifica sem perda de tempo, com a maior velocidade possível. Esta é a razão porque se
nota cautela por parte dos que pretendem chupar cana, arrancando-a quando as sombras
cobrem a várzea, quando no silêncio só se ouvem uns leves passos misteriosos.
Com a queda da noite, aquelas sombras fixas e móveis ao mesmo tempo emprestam ao ambiente
uns tons impossíveis de morte espectros que perambulam sem destino. O vento
começa a cantar nas folhas e nas vassouras pendoadas, sussurrante como namorado medroso e
fazendo barulho apenas semelhante ao que se nota nos cemitérios, naqueles cemitérios
arborizados com ciprestes. Ouve-se ao longe uma voz de queixa para se ficar mesmo de
cabelo arrepiado. Mas quem disse que era o vento? Tudo não passa do resfolegar da
serpente que não dorme na sua guarda noturna.
Se faz luar de outubro, então é que o mistério toma aspectos tenebrosos, encolhendo os
corpos, aconchegados no medo, tal como se estivessem com frio polar. A luz do plenilúnio
empresta vivos tons de prata ao verde escuro do canavial. E as nuvens velozes se renovando
sempre, sem demonstrar cansaço, cobrem, ligeiras, a paisagem móvel, ondulante e
fantástica, dando a impressão perfeita de mergulhos imensos e graciosos naquele oceano
vegetal. Fica-se temeroso do que poderá acontecer.
Ninguém tem coragem fácil para se meter num mundo assim fendido pela serpente verde. E
de tamanho gigantesco. Ela vive a dar provas de que não cansa: o rugido que se ouve é
seu, perdendo-se na noite ampla e maternal, porém reavivando cada vez mais a certeza de
que existe, põe sentido e ataca também caso se faça necessário.
(Vidal, Ademar. Lendas e superstições; contos
populares brasileiros. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1950, p.295-296)
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