Ano 5 - setembro  2002 - nº 49


BRANCA, BRANQUINHA, MOÇA BRANCA...

FONTE INSPIRADORA

ÁGUA QUE PASSARINHO NÃO BEBE

FEITA DE CANA CRIOULA...

REMÉDIO BOM

BIBLIOGRAFIA

A CACHAÇA, VISTA PELO FOLCLORE

Hernani de Carvalho


• Entende-se por cachaça a aguardente obtida pela fermentação e conseqüente destilação da garapa ou do caldo de cana-de-açúcar, gramínea que se desenvolve bem em todo o território brasileiro.

• A cachaça é procedente de vegetação rendosa, ‘barata e de ciclo vegetativo rápido: a cana-de-açúcar. Igualmente, a sua fabricação depende de maquinário barato. A fábrica de cachaça descreve-se assim: uma coberta sem paredes laterais; uma moenda movida por uma junta-de-bois, onde as canas são moídas; a garapa vai para os tanques onde se opera a fermentação, que consiste na transformação da sacarose (açúcar) em álcool etílico e água. A garapa fermentada e, em seguida, levada para o alambique, onde o álcool etílico, com o calor da fornalha do alambique, volatiza-se e passa às serpentinas refrigeradas, onde se liquefaz e é recolhido em recipientes apropriados, chamados tonéis. Quanto mais velha nos tonéis, tanto mais saborosa a cachaça.

• Como se verifica, a obtenção da cachaça é baratíssima: e, por isso mesmo, é vendida a baixo custo no varejo, nas bodegas e nos botequins. A cachaça é a bebida do pobre, no Brasil. O roceiro, quando vai à venda fazer as suas compras costumeiras, leva uma garrafa vazia para trazê-la cheia de cachaça. A rigor, todos os roceiros têm sempre em casa uma garrafa de cachaça para um gole ou uma bicada, de vez em quando, ou oferecer um gole a uma visita.

• A cachaça, nos nossos sertões, é mezinha para males físicos e mesmo morais: há contrariedade? toma-se um gole e tudo desaparecerá; reina alegria? saúda-se esta alegria com uma bicada; dói o dente? bochecha-se cachaça e a dor some; há falta de apetite? tome-se um aperitivo de cachaça e a fome volta voraz; falta coragem para resolver um negócio sério? uma lambada forte de cachaça, torna-se corajoso; falta-lhe disposição de falar em público? uma chamada boa de cachaça torna-o orador; faz frio? toma-se uma talagada de cachaça e esquenta-se; faz calor? toma-se um golinho de cachaça e refresca-se; enfim, a cachaça transforma a personalidade do amante do álcool etílico. É necessário distinguir-se o amante da cachaça do cachaceiro: o primeiro, bebe-a aristocraticamente (...) ao passo que o último se dá ao uso desbragado da cachaça, prejudicando-se...

• Por causa da popularidade da cachaça os seus apelidos são numerosos e pitorescos: branquinha, mata-bicho, tira-teima, malfadada, desgraçada, para-ti, abrideira, água bruta, água-de-briga, água-que-gato-não-bebe, água-que-passarinho-não-bebe, bagaceira, baronesa, bicha, bico, branca, brasa, brasileira, cândida, caiana, cana, caninha, canjica, catuta, caxaramba, caxiri, cobreiro, corta-bainha, camulaia, dindinha, dengosa, desmancha-samba, dona branca, elixir, engasga-gato, espírito, esquenta-por-dentro, filha-de-senhor-de-engenho, fruta, gás, girgolina, gororoba, gramática, homeopatia, imaculada, já-começa, jerebita, jinjibirra, jura, legume, malunga, mamãe-de-luanda, mamãe-de-aruanda, mamãe-sacode, marafa, maria-branca, meu-consolo, moça-branca, patrícia, perigosa, pinga, prego, purinha, rama, remédio, restilo, samba, sete-virtudes, sinhazinha, sumo-de-cana, suor-de-alambique, tafiá, teimosa, tiquira, tome-juízo etc. etc. Note-se que estes apelidos da cachaça são regionais, pois em cada região do Brasil tem o seu pitoresco em ser apelidada pelos seus bebedores.

• Antigamente dizia-se, pejorativamente, "que a cachaça era bebida de negro". Hoje, a cachaça popularizou-se de tal modo que os brancos superaram em muito o consumo da "tome-juízo"... Para amenizar, quando o branco quer beber uma cachaça no botequim, ou na bodega, ou na taberna, ele não pede uma dose de cachaça: "traga-me uma batida de limão!, o garçom já sabe o que o freguês quer...

• Quando a cachaça era bebida de negro (e subia para a cabeça, quando se "entornava" muito, dizia-se embriaguez, bebedeira, mona, porre, pifão, puxando-um-fogo e que tais. Estes designativos que menosprezam o alcoólatra da cachaça, com a entrada dos brancos para o cordão da "branquinha" tudo se modificou: — uma dose de uma cachaça é uma "batida"; um porre de cachaça é uma crise etílica passageira; um cálice de cachaça na mesa de um bar chique chama-se abrideira; um coquetel à base de cachaça antes de um jantar chique chama-se aperitivo.

• A cachaça tem um cheiro característico de garapa fermentada. Então, no Nordeste e no Norte brasileiros, quando se serve uma dose de cachaça vêm, também, umas rodelas de caju ou de outros frutos cheirosos para que o hálito não fique cheirando da "branquinha"... Lá, chama-se a isso tira-gosto...

• Quando um bebedor de cachaça excede-se na bebida das "batidas", sobrevém o pifão, na linguagem popular. Mas, se o bebedor de cachaça é grã-fino o fato anormal não se chama pifão, o nome técnico chama-se intoxicação etílica. Até entre as classes sociais há diferenciação entre os termos dos cachaceiros...

• No ritual dos feiticeiros, a cachaça é fartamente usada nos "despachos", nos "banhos-de-descarga" e na deglutinação pelos "cavalos" (médiuns), em estado de transe, durante os "trabalhos-de-terreiro", com o nome de marafa.

• Existe na sabedoria popular uma comparação numerosa em que figura a cachaça:
Diabo, mulher e cachaça são três tentações...
Cachaça e mulher endoidecem os homens...
Rabo-de-saia e cachaça fazem os homens virar a cabeça...
A cachaça é como o homem que ama uma mulher ruim: quanto mais bebe, tanto mais tem vontade de amá-la...
A cachaça e a mulher são capazes de fazer um frade-de-pedra pecar...
A cachaça e a mulher se parecem: quando a cachaça é deglutida pelo bebedor, este faz caretas e esgazeia os olhos; a mulher faz caretas e esgazeia os olhos, no paroxismo do amor...

• Entre os bebedores de cachaça nos botequins, nas bodegas ou nas tabernas, nota-se que eles não bebem sós: estão sempre acompanhados de "irmãos-da-opa". Logo que o garçom traz as "batidas", antes de deglutidas, eles se brindam e enaltecem as virtudes da "água-que-passarinho-não-bebe"...

• Nas rodas de intelectuais bebedores de cachaça vale a pena a gente ficar de fora ouvindo dissertações eruditas em prosa e verso. Intelectual que não bebe cachaça, parece-me, é falho de inspiração...

• A política é como a cachaça: a princípio, é uma abrideira; depois, é um aperitivo; depois, é uma batida; depois, passa a ser um hábito; daí, pula para a área do vício; e passa a embriagar-se; nessa altura, ninguém poderá mais abandoná-la...

• Os cantadores e os violeiros do Nordeste, com a sua verve cabocla, são férteis em versos, endeusando a cachaça:

"Cachaça é bebida boa
O povo chama "branquinha":
Botam mel para ficar doce
Então chamam "meladinha",
Mas sai com as pernas trançando
Como quem cose bainha!"

* * *

"Nasci para beber no mundo
Quantidade essa tão pouca,
Quando levo o copo à boca
Meu desejo é ver o fundo..."

"Hoje bebe todo mundo
Deputado e senador,
Babe o soldado, o sargento,
O juiz, o promotor.
Como é que pode deixar
De beber o cantador?"

* * *

"O meu boi morreu,
O que será da vaca,
Pinga com limão
Cura urucubaca..."

* * *

Superstições em torno da cachaça

1) quando se vai beber a cachaça, o bebedor, antes de tocar o cálice na boca, derrama um gole para "salvar os santos";

2) roubar Santo Onofre dá sorte à pessoa que o roubou, mas é preciso deixar cachaça e farinha para o santo beber e comer; é pau-d’água (Deus me perdoe...); não deixará faltar "nada de provisões de boca" ao seu dono;

3) os bebedores, depois de deglutirem a cachaça, deixam um pouquinho no cálice ou no copo e atiram-no para um lado: é para o diabo ou para os caboclos...;

4) os cachaceiros, depois de deglutirem um copázio de cachaça, cospem para um lado; acreditam ser "simpatia" para não se embriagar...

Pitorescos da cachaça

• "Ter cachaça por alguém" é expressão corriqueira empregada amiúde, quando se quer manifestar estima imoderada por determinada coisa ou pessoa.

• Em Brasília, na capital federal, entre os candangos, quando alguém convida os amigos: "vamos beijar os santos?" Quer dizer: "Vamos beber uma cachaça?" Igualmente, em Brasília, quando se pede ao garçom: "traga-me um leite de camelo". Quer dizer: "traga-me uma mistura de cachaça e cinza!" Outras vezes, ouve-se este convite: "Vamos molhar a goela?" Quer dizer: "Vamos beber cachaça?"

• Ainda outro modismo de convite: "Vamos molhar a palavra?" Quer dizer: "Vamos tomar uma dose de cachaça?"

• Outro modismo muito em voga em todo o sertão: "Vamos matar-o-bicho?" Quer dizer: "Vamos tomar um gole de cachaça?"

• Há um modo de convite gozado: "Vamos verificar se está chuviscando?" Quer dizer: "Vamos bebericar cachaça nas tavernas ou botequins?"

• Outra modalidade de convite, comum no sertão: "Vamos tomar uma talagada?" Quer dizer: "Vamos tomar uma cachaça?"

• Às vezes, o convite varia: "Vamos tomar uma chamada?" Quer dizer: "Vamos tomar uma cachaça?"

• Verifica-se, pela índole dos convites, que, entre os irmãos-da-opa, reina uma cordialidade e uma delicadeza invejáveis...

• Os cachaceiros contumazes, quando "matam o bicho", dão um estalo com a língua no céu da boca, fazem uma careta e trauteiam: "Eta coisa ruim, mas eu gosto dela assim mesmo..."

• No linguajar dos sertanejos verifica-se amiúde a deturpação de certos termos que são inteiramente desvirtuados. Por exemplo: o termo despotismo, que significa nos dicionários: autoridade de déspota. E déspota significa tirano. Pois bem, despotismo, na linguagem matuta, significa grande quantidade de qualquer coisa. Na minha fazendola de Campos, no estado do Rio de Janeiro, ouvia, amiúde, o emprego de despotismo pelos camponeses locais e eles explicavam-me o significado deturpado. O meu folclore registrou a deturpação curiosa e pitoresca. Beber-se cachaça em grande quantidade é um despotismo.


(Carvalho, Hernani de. No mundo maravilhoso do folclore. Rio de Janeiro, Tipografia Batista de Souza, 1966, p.155-159)

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