 |
 |

|
|
Manhã
de 21 de agosto de 2001. Enquanto dou os últimos acertos nas páginas da edição de
aniversário, penso no que vou escrever. O tempo nunca sobra.
As idéias vão passando pela cabeça. Lembranças de diferentes passados, de diferentes
épocas. Lembro de menina ainda, quando meu pai armava um enorme presépio sob a escada da
sala, com direito a lago feito de espelho com peixinhos de plástico nadando imóveis e um
longo caminho de areia que era percorrido pelos três reis magos (um dos quais
ajoelhado...) do dia 25 de dezembro até o 6 de janeiro, quando, finalmente, chegavam até
o Menino Jesus. Lembro das recomendações de minha vó, para não fazermos caretas, pois
poderia passar um vento ruim e congelaria nossas expressões para sempre. Lembro do
motorista do táxi que peguei outro dia que passou-me uma receita infalível para gripe:
chá de alho com limão. Lembro do Zé Pereira dos carnavais de infância, em Minas
Gerais. Lembro das pessoas ontem, em plena Avenida Rio Branco, centro do Rio de Janeiro,
desviando-se para não passar embaixo de uma escada. Lembro da farofa que comi no almoço,
dos doces de abóbora que vovó fazia. E vou adiante, lembrando da pimenta, do leite de
coco, da proibição da manga com leite, do ciclo contínuo das brincadeiras infantis, das
cantigas de ninar, das frases feitas, dos ditos populares, das mandingas do futebol, das
folias de reis, maculelê, jongo, capoeira, da rede de dormir, das simpatias para curar
soluço, das orações populares, do pífaro, do pandeiro e da zabumba, das rendas,
bordados e tecidos. Lembro das misturas e diferenças convivendo em franca harmonia e
propiciando transformações. É disso que vem nossa riqueza e nossa identidade cultural.
A sabedoria popular diz que nada se cria, tudo se transforma. Então, se a matéria-prima
é rica, o resultado também o será.
Lembro-me, também, dos homens, de suas crenças, seus sonhos e suas realizações. De sua
determinação e da força misteriosa que os impulsiona mesmo quando toda a corrente está
contra. Vou seguindo essa cadeia de pensamentos, e lembro-me de uma certa noite, 21 de
agosto de 1998, quando três amigos, agitados, ansiosos e eufóricos, embarcavam em um
sonho, colocando no ar o primeiro número da Jangada Brasil e depois indo dormir meio sem
saber o que esperar. Lembro da manhã do dia seguinte, quando recebemos a primeira
mensagem, que veio de Fred Monteiro, do Recife, parabenizando-nos e incentivando-nos. E
depois disso, tantas e tantas outras, de todas as partes do Brasil e do mundo, que nem deu
para se dar conta dos três anos que se passaram.
Lembro dos versos de Newtom Barreto: Mandou dizer: - Não desvio do caminho, que
sozinho eu não vou ficar.
E então, vejo que folclore não é lembrança, é realização.
Um grande carinho a todos,
Glaucia Santos Garcia
|
|
|