Ano 3 - Setembro 2001 - nº 37

Ilustração Marcos Jardim


Manhã de 21 de agosto de 2001. Enquanto dou os últimos acertos nas páginas da edição de aniversário, penso no que vou escrever. O tempo nunca sobra.

As idéias vão passando pela cabeça. Lembranças de diferentes passados, de diferentes épocas. Lembro de menina ainda, quando meu pai armava um enorme presépio sob a escada da sala, com direito a lago feito de espelho com peixinhos de plástico nadando imóveis e um longo caminho de areia que era percorrido pelos três reis magos (um dos quais ajoelhado...) do dia 25 de dezembro até o 6 de janeiro, quando, finalmente, chegavam até o Menino Jesus. Lembro das recomendações de minha vó, para não fazermos caretas, pois poderia passar um vento ruim e congelaria nossas expressões para sempre. Lembro do motorista do táxi que peguei outro dia que passou-me uma receita infalível para gripe: chá de alho com limão. Lembro do Zé Pereira dos carnavais de infância, em Minas Gerais. Lembro das pessoas ontem, em plena Avenida Rio Branco, centro do Rio de Janeiro, desviando-se para não passar embaixo de uma escada. Lembro da farofa que comi no almoço, dos doces de abóbora que vovó fazia. E vou adiante, lembrando da pimenta, do leite de coco, da proibição da manga com leite, do ciclo contínuo das brincadeiras infantis, das cantigas de ninar, das frases feitas, dos ditos populares, das mandingas do futebol, das folias de reis, maculelê, jongo, capoeira, da rede de dormir, das simpatias para curar soluço, das orações populares, do pífaro, do pandeiro e da zabumba, das rendas, bordados e tecidos. Lembro das misturas e diferenças convivendo em franca harmonia e propiciando transformações. É disso que vem nossa riqueza e nossa identidade cultural. A sabedoria popular diz que nada se cria, tudo se transforma. Então, se a matéria-prima é rica, o resultado também o será.

Lembro-me, também, dos homens, de suas crenças, seus sonhos e suas realizações. De sua determinação e da força misteriosa que os impulsiona mesmo quando toda a corrente está contra. Vou seguindo essa cadeia de pensamentos, e lembro-me de uma certa noite, 21 de agosto de 1998, quando três amigos, agitados, ansiosos e eufóricos, embarcavam em um sonho, colocando no ar o primeiro número da Jangada Brasil e depois indo dormir meio sem saber o que esperar. Lembro da manhã do dia seguinte, quando recebemos a primeira mensagem, que veio de Fred Monteiro, do Recife, parabenizando-nos e incentivando-nos. E depois disso, tantas e tantas outras, de todas as partes do Brasil e do mundo, que nem deu para se dar conta dos três anos que se passaram.

Lembro dos versos de Newtom Barreto: “Mandou dizer: - Não desvio do caminho, que sozinho eu não vou ficar.”

E então, vejo que folclore não é lembrança, é realização.

Um grande carinho a todos,

Glaucia Santos Garcia

Jangada Brasil / Poranduba © 2001
Jangada Brasil é uma revista mensal, exclusivamente online,
dedicada ao registro e divulgação da cultura popular brasileira e suas diversas formas de expressão.