Ano 3 - Setembro 2001 - nº 37

Ilustração Marcos Jardim


É difícil escrever, porque a vontade é escrever tantas coisas, da alegria de ver a Jangada completando três anos e a cabeça cheia de idéias para este quarto ano que se inicia. A primeira coisa que me passa pela cabeça são os leitores, são as mensagens recebidas em horas que a coisa parecia difícil, em que você vê tantas coisa para fazer, para prá olhar e vê que você não dá conta de fazer tudo sozinho. Às vezes batia uma angústia, de querer poder fazer mais, só que não tinha condições de fazer, e era sempre nessa hora que chegava um e-mail de leitor, com palavras de força, de incentivo, e principalmente palavras de carinho. A vocês leitores, eu vou ser eternamente agradecido.

É maravilhoso, poder fazer a Jangada Brasil. É se descobrir todo dia e ficar cada vez mais encantado. Lembro-me uma vez que a Glaucia pegou um texto para a Folhinha, que era uma "macumbinha" para "secar" os adversários no jogo de bolinhas de gude, e depois nós conversando, eu falava para ela, como eu precisava daquela "macumbinha" para jogar, já que eu era uma negação para jogar e as minhas "catiças" nunca davam certo e eu perdia sempre.

Vou me lembrando de coisas da infância e começo da adolescência passada em sítio. Dos medos de moleque, do saci que ficava nos redemoinhos (a gente sempre ficava longe deles), mas às vezes, num ato de coragem, a molecada enfrentava o redemoinho com o saci e tudo, indo brincar dentro dele. As festas juninas então, eram maravilhosas. Bandeirinhas, fogueira, mastros, comidas típicas. Balões não tinha, porque era perigoso, e a gente vivia correndo atrás deles, porque virava e mexia caía um nas redondezas e pegava fogo no mato. Mas o que eu gostava era ficar perto da fogueira brincando, aí tinha os conselhos: "Quem brinca com fogo, faz xixi na cama", nessa época eu verificava que esse ditado era verdadeiro. Tinha mais dois sítios próximos, e cada um fazia a festa para um santo, o nosso era para Santo Antônio, nessa época também tinha os terços e as novenas, e de noite as pessoas iam de um sítio para o outro e sempre tinham que passar por um pomar de laranjas e mexiricas. Aí a molecada entrava em ação de novo, aproveitando a lenda de um ex-funcionário do sítio que tinha morrido e que de vez em quando aparecia no pomar, pegavam lençóis brancos e ficavam no pomar, escondidos, quando passava a turma do terço, era uma correria só, às vezes eu assustava, outras vezes era o assustado.

Tinha as crendices alimentares, para não ficar entupido com as jabuticabas era só comer três cascas. Na época de manga, eu ficava longe do leite, porque passava no mangueiral o dia todo. Às vezes "o olho era maior que a barriga", e tinha que jogar o alimento fora, aí a gente o beijava e jogava fora sem remorsos.

Outra coisa que me lembro, é que eu tinha verrugas, e numa época eu estava passando um remédio e fiz uma simpatia que era assim: com linha de costura virgem, você media a circunferência da verruga, depois fazia uma bolinha e jogava em água corrente, as verrugas sumiram e até hoje eu não sei se foi o remédio ou a simpatia...

Vou continuar nas reminiscências...

Me lembro das férias passadas no Nordeste, quando de noite, o povo sentava para contar causos de lobisomem, com as janelas todas abertas e o menino da cidade aqui, todo assustado, porque ia ficando tarde da noite e ninguém fechava a janelas, eu morria de medo. Ainda falando de lobisomens, lembro também que na viagem de carro para as férias no nordeste, passando por Minas Gerais, todas as casas na beira da estrada tinham uma cruz na porta, que serviam para espantar lobisomens e outros bichos imaginários. Uma outra imagem que me ficou do Nordeste, quando todos iam para as praias, eu ia com o meu pai para o meio do sertão, muitas vezes (é claro que com medo de assombração!), eu dormia em redes do lado de fora da casa que estava hospedado, ao luar do sertão. (Catulo tinha mesmo razão, "Não há, oh gente, oh não, luar como o do sertão). Tinha os problemas de costumes locais, uma vez dormindo em Conceição de Coité (BA), ou melhor não conseguindo dormir por causa dos pernilongos, não entendendo porque o dono da casa conseguia roncar tanto e parecia estar dormindo tão bem, na hora do café descobrimos o motivo: esquecemos de usar o mosquiteiro. Já na outra noite, com o mosquiteiro colocado, dormimos que nem anjos. E tem coisa que me fascina até hoje, como o forró do Mirinho, que era feito à bateria de carro, já que a cidade não tinha luz elétrica e eu ficava encantado, e também sem entender, como podia eu estar no meio do nada, tomando coca-cola gelada, ouvindo forró, e hoje quando penso nisso, me vem na cabeça uma frase de Luis Buñuel: "Antigamente eu olhava para o céu, e dizia, é tão lindo e não há nada nele. Hoje quando olho simplesmente digo que é lindo".

Essas lembranças são muito fortes em mim.

Eu não queria usar esse espaço (não hoje), para reclamar, falar de problemas, do pouco caso com que se trata a nossa cultura. (Mas vão ter que ser discutidos uma hora).

Hoje eu só queria agradecer os nossos leitores, por tudo que têm feito pela gente. As pessoas sérias, que estão espalhadas por esse país, fazendo o seu trabalho, divulgando e preservando a nossa cultura, e principalmente agradecer esses milhões de brasileiros anônimos, que mesmo sofridos, passando por dificuldades, humilhados, nunca deixaram de cantar, dançar, de ter fé, de fazer festa, e que guardam (às vezes sem saber) o nosso mais valioso tesouro: a nossa identidade cultural.

A cada dia eu me apaixono cada vez mais pela nossa cultura, tão rica, tão misturada, tão simples. Se pedissem para eu explicar, o que é, eu não saberia. Eu só saberia dizer que está no meu sangue e na minha alma.


Claudio Ribeiro

Jangada Brasil / Poranduba © 2001
Jangada Brasil é uma revista mensal, exclusivamente online,
dedicada ao registro e divulgação da cultura popular brasileira e suas diversas formas de expressão.