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A montanha
Ou
Uma poeira
Lembro que conheci a Jangada muito por acaso, longe do mundo virtual. Hospedada na casa de
Gláucia a primeira edição eu vi impressa. Confesso que foi um conforto para mim. Eu
ainda não tinha "navegado" em nenhum site, simplesmente não me era de hábito,
me parecia tão longe. Não distante, só longe.
Lembro da Gláucia falando calmamente na mesa da sala (depois do jantar, nosso horário
preferido de longas conversas) sobre a estrutura, as sessões que tinha, o trabalho que
dava e depois animadamente sobre as pessoas que conheceu, as surpresas que teve, uma festa
de tambor que ela tinha ido de carro não sei aonde e lá conhecido um grupo assim,
assim... agora já bem animada, sorriso infalível a postos.
Foi me encantando a Jangada.
Me encanta ver este trabalho por três anos, mostrando com quantos paus se faz uma...
jangada. Nem muitos, nem poucos, mas aqueles de que não se pode prescindir.
Nessa disposição crível e factível fui vendo a Gláucia e seus companheiros remarem a
... jangada por tantas ondas, sobes e desces; e lembro uma vez quando ela falou que 30 mil
pessoas por mês entravam nesse barco eu pensei: "nossa, isso é um caminhão de
gente".
Me dá uma alegria ver o trabalho como um ponto de encontro, uma referência, uma
oportunidade das pessoas se cruzarem, por três anos! É um sinal para mim ver algo tão
concreto.
Uma poeira tem em si um universo, carrega todo um poder de se juntar à outras e caminhar
no vento, formar uma montanha e fincar raízes, no entanto, se olhamos isoladamente, sem
paciência, é só uma poeira.
É maravilhoso quando no meio dessa confusão de coisas que todos os dias ocupam tanto
espaço vemos uma poeirinha passando, e através dela e de seu pequeno movimento
enxergamos que ali tem mais. Enxergamos a montanha que ela carrega.
Gláucia querida, que bom que foi você quem viu a montanha.
Nas dúvidas, pergunte ao pó...
A minha poeira
Ou
A montanha
Hoje a minha montanha é uma poeira.
Há quase uma semana comecei a pensar nisso e só hoje pude sentar e assoprar essas
idéias que já estavam quase formando uma nuvem dentro da cabeça.
Em meio a reuniões de captação uma tempestade de areia na minha cabeça pensa em
Leonildo, no Abacateiro, decidido a viver longe de tudo que não lhe parece muito certo,
muito seu. Cada vez mais ele e sua família ficam mais no "centro", longe da
beira mar, no meio do mato.
Uma atitude de silêncio, de isolamento, de noção do seu conhecimento e do seu valor,
coisa que torna muito mais intenso cada encontro, cada estar junto.
Leonildo Pereira tem três casas, pra quem chega de barco vindo de Guaraqueçaba, da
esquerda para direita, a da cozinha, a de dormir, a do Fandango. Também mora em suas
rabecas e violas, também tem uma casa lá no "centro", outra em Rio dos Patos,
e sem dúvida habita os meus pensamentos, principalmente em longas reuniões, quando surge
a pergunta: "Será?"...
Ele também tem a sua montanha, nem todo mundo vê, mas ela está lá.
Leonildo está bem, poderia estar melhor. Ele sabe de seu conhecimento, de sua arte. Se
preciso for, ele até deixa passar pelos outros olhos como poeira. Está um pouco cansado.
Tem pago um alto preço por ser um grande artista, um cidadão consciente, por estar
"localizado". Um realizador de sua arte e de sua vida, o pai que olha por sua
família. Uma tempestade em minha cabeça.
A poeira corre o mundo, vira montanha, volta a ser poeira, viaja de novo e a gente a ama.
Ama a possibilidade que ela encerra. A fé de ver que ela não é poeira, tem uma montanha
ali.
Gláucia querida, o pó responde.
Parabéns por três anos de perguntas e respostas.
Lia Marchi
Atriz, professora e pesquisadora. Diretora da Olaria Projetos de Arte e Educação.
Atualmente desenvolve o projeto Tocadores, no Brasil, uma pesquisa
sobre a tradição das cordas que traçará um mapeamento dos
artistas populares de cada região, buscando as linhagens de violeiros, rabequeiros,
tocadores e cantadores do país.
Curitiba, PR |
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