Ano 3 - Setembro 2001 - nº 37

Ilustração Marcos Jardim


Gutenberg Costa é escritor, pesquisador e folclorista. Tesoureiro da Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore e do Instituto Histórico e Geográfico de Natal, RN

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REZADEIRAS DO RIO GRANDE DO NORTE

Feiticeiras do Bem

Em algumas regiões do Brasil as rezadeiras, como as denominaram no Estado do Rio Grande do Norte, são conhecidas também por "Curandeiras" ou "Benzedeiras". A curandeira foi vista, especialmente entre os séculos XVI e XVIII, como uma espécie de "feiticeira". Erroneamente foram perseguidas, oprimidas, punidas, rejeitadas e algumas até condenadas ao lançamento ainda vivas, nas "Santas" fogueiras do Santo Ofício — pelos Tribunais da Inquisição da então Igreja Católica.

Abençoado Aquele que Abençoa e Reza

Os pais e padrinhos dão a sua benção a seus filhos e afilhados. Os católicos se benzem antes de qualquer ação importante ou ao passarem diante de uma capela ou igreja. Os espíritas dão "passes" aos que estão com negatividade fluídica. Os evangélicos fazem orações e cultos nas horas alegres e tristes de seus irmãos. Tudo é oração e a rezadeira faz a sua "Benzeção" em quem vai à sua procura no intuito de curar-se de algum mal.

A Pesquisa no RN

Em uma década de pesquisa de campo pelo Estado do Rio Grande do Norte sobre as rezadeiras e seu mundo místico popular aprendi a observar algumas curiosidades e técnicas usadas por essas mulheres do povo, a quem a escritora e antropóloga ELDA RIZZO sabiamente chama de: "Cientista popular e médica popular" — "Ela é uma cientista popular que possui uma maneira muito peculiar de curar: combina os místicos da religião e os truques da magia aos conhecimentos da medicina popular." (p.25, 1985).

O Começo

Dona Joana dos Cocorotes, de Mossoró, RN, diz que começou a curar, depois que uma filhinha sua morreu e a mesma num sonho a pediu para que a curasse (1997).

Sebastiana Lima, 70 anos, católica fervorosa, analfabeta, conhecida em Patu como "Dona Bastinha", aprendeu a rezar com o seu pai — "Severino Rezadô". Reza criança e adulto, só não reza animal. Não ensina reza à "mulher", pois a sua reza "enfraquece" e daí pode vir a perder o poder da cura. Não transmitiu ainda suas rezas a ninguém, pois até agora "nenhum cristão se interessou" (1998).

Dona Nininha ou Ana Maria Gonçalves dos Santos, nascida em 17 de agosto de 1951, é católica praticante. Vive de lavar roupa e consertar punhos de rede. Sabe ler "pouco" e não sabe escrever um bilhete. É muito procurada em Pendências para curar crianças e adultos. Aprendeu a arte de rezar com dona Maria Belo — rezadeira velha da citada cidade. Cura com ramo verde e em caso de urgência durante a noite, só cura com a chave de sua casinha tão humilde como a de todos os pobres que residem no bairro Campo — periferia de Pendência.

Dona Belita, ou Isabel Vitorina da Silva é uma das rezadeiras de São Paulo do Potengi, que para ganhar o pão de cada dia vive "sentada" numa máquina de costura. Quando alguém bate palmas pedindo para rezar, para curar quebranto, mau olhado, espinhela caída, ou engasgo — Dona Belita deixa a máquina e vai no terreiro buscar o ramo verde imediatamente. — "Curar é dom de Deus e Deus não tem hora para fazê o bem!"

Quando Dona Belita cura "carne triada" pega os seus apetrechos de costureira — um paninho, agulha e linha branca — "vou rezando e cozendo o pano e quando a reza termina dou o último ponto na costura e a pessoa doente está curada, com os poderes de Deus." Dona Belita, com 53 anos, aprendeu o ofício de rezar com sua mãe, Dona Josefa, rezando os doentes. Não ensinou ainda a ninguém a sua tradição curandeira (1997).

Luíza Maria de Lima, Luiza rezadeira, 78 anos, natural de Lajes, desde 1933 reside em São Paulo do Potengi, é católica, aprendeu a rezar com sua mãe que além de rezadeira também era tiradeira de terços. Donana ou Ana Francisca da Conceição é de família de rezadores — seu irmão João Aleixo da Costa e sua irmão Maria Aleixo da Costa são rezadores. Dona Ana cura criança e adultos e até animais como uma vaca que foi picada de cobra — "quando se termina de rezá se cospe na boca da vaca" — Quando é gente pessoa picada de cobras, Donana ao final da reza sem que o doente perceba passa levemente sua saliva nos lábios deste. — "Só cura com reza e saliva!" (1997).

Dona Santa ou Vovó Santa, que recebeu de batismo em São Fernando o nome de Honorata Araújo. Vive em Caicó aos 82 anos, analfabeta, aprendeu a rezar com sua mãe que era rezadeira — Honorata Maria é católica, reza crianças, adultos e animais ditos abençoados — "Não se reza porco", quando os pais não podem levar a criança à presença de Dona Santa a mesma cura ao ver uma fotografia ou roupinha suada do "inocente". Diante de sua canseira e velhice, se o dono do animal puder levá-la um "pêlo" de seu bucho de estimação, Dona Santa também cura.

Quando chego em minha cidade faço minhas pesquisas sem o conhecimento dos padres que geralmente não aceitam as rezas das pobres católicas rezadeiras. Exceção foi o saudoso Monsenhor Expedito (1916-2000) que mandou uma pessoa de sua confiança comigo ao encontro de três rezadeiras em suas pobres casinhas: — "Gutenberg, essas mulheres que mal têm o que comer, não cobram nada pelas rezas, atendem de dia e noite os doentes, só vivem com Deus na boca, com certeza tem muito mais fé que nós — os padres. Eu mesmo quando estive doente mandei chamar a Dona Francisca que era católica, muito religiosa e não perdia uma missa ou novena da Igreja de São Paulo do Potengi..." Do Estado de Minas Gerais, quem vem pesquisando as suas rezadeiras é o Frei Francisco Van Der Poel, conhecido como "Frei Chico" que inclusive já publicou o livro — "Com Deus Me Deito, Com Deus Me Levanto" — 182 páginas, 1978. A obra inicia com a oração da noite e do dia, tão comum as rezadeiras em geral:

"Com Deus eu deito,
Com Deus eu me levanto,
Com a graça de Deus e do Espírito Santo. Jesus filhos da Virgem Maria me acompanha esta noite e todo dia.
Vós me olha e me guia
Meu anjo da guarda me ampara e me guia.
Qual é a maior luz? Jesus.
Qual é a maior guia? Maria.
Qual é o maior patrão? José.
Assim como esta verdade é, valei-me meu Jesus, Maria José."

Na cidade de Assu, encontrei a Dona Francisca Jorge da Silva, rezadeira católica, analfabeta, nascida em 06/09/1918. Mãe de 12 filhos, casada com "seu" João Evangelista Saraiva. Aprendeu a rezar com sua avó e sua mãe que eram rezadeiras. Cura crianças, adultos e animais a exceção de: "porco e burro mulo". Para rezar Dona Francisca não sai do seu quarto: — "é só me apontá em que lado fica o currá, mesmo se tivé rio atravessando o caminho". Vive atualmente doente e com paciência e fé diz que sua doença é o "peso" das doenças que já curou dos outros em sua vida. Dona Francisca certa feita rezou para um homem que havia perdido um revólver por roubo e antes de completar os sete dias, o ladrão devolveu o roubo ao próprio dono do objeto.

Em Natal existem inúmeras rezadeiras, entre elas, Dona Maria Eugênia Campos Silva, no bairro do Alecrim ou "Tia" Delza, no bairro do Tirol.

As rezadeiras por mim entrevistadas têm em comum duas coisas: a pobreza e a fé. Em suas casas é fácil observar quadros de santos nas paredes — "Santa Luzia, Coração de Jesus, Padre Cícero, Frei Damião, São Sebastião, São Jorge, Nossa Senhora, Mãe de Jesus...

As rezadeiras invocam os santos nas horas das dores dos doentes: Dor de dente (Santa Apolônia), olhos (Santa Luzia), Endividados (Santa Edvirges), na hora dos partos - gravidez (Nossa Senhora do Bom Parto), nos engasgos (São Brás), nas picadas de cobras (São Bento), para os animais (São Francisco), para azia (Santa Sofia)...

Nunca cruze os pés ou as mãos quando estiver sendo curado e ao final da cura não pergunte quanto é o preço da reza. Passados os dias visite a rezadeira e deixe um agrado: um pacote de bolacha, um vestido, como presente e não pagamento.

Existem centenas de orações, com algumas variações de região para região. Existe o rezadô — mas a minha pesquisa é só com as mulheres: "A mulher pode ensinar reza a homem que não enfraquece suas orações" — dizem quase todas as entrevistadas.

Algumas são parteiras e todas têm em seus quintais de suas casas as plantas que curam os doentes: olho de goiabeira — para dor de barriga; mastruz — para catarro e gripe; romã — para garganta inflamada; corama — para inflamação; sabugueiro — para febre; capim santo — para digestão; erva cidreira e erva doce — para acalmar...

Na região de Goiás, o renomado folclorista Atico Vilas Boas da Mota, depois de uma aguçada pesquisa publicou o seu — Rezas, Benzeduras Et Cetera, 116 páginas, 1977, onde classificou as orações e benzeduras em dois ramos: A medicina popular e a veterinária popular.

Em alguns casos e dependendo da doença as rezadeiras costumam pedir ao doente que volte três vezes no mesmo horário — "manhã depois do sol se abrir e a tarde — antes do sol sumir."

Dona Chiquinha do Assu recomendou-me na volta da viagem a seguinte oração:

— Fazendo o Pelo Sinal ao entrar no carro:

"Chagas abertas
Coração ferido
Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo
Se derrame entre eu (nosso nome)
E o perigo"
— Assu - 1994.

O estudioso das religiões, escritor Giorgino Paleari, em seu livro — Religiões do Povo, 1990, na página 58 define muito bem o nosso pensamento quanto as múltiplas funções das rezadeiras na vasta e rica Cultura Popular:

"Dependendo de cada situação social ou histórica, a religião assentada numa cultura popular pode ser fator de alienação, de identidade popular, de resistência diante da cultura dominante ou oficial..."

Portanto, essas rezadeiras é nossa resistência diante desta cultura dominante dos meios de comunicação e das religiões oficiais que as discriminam.


Bibliografia consultada

OLIVEIRA, Elda Rizzo de. O que é benzeção. 2ª edição, São Paulo, Editora Brasiliense, 1985.

COSTA, Gutenberg. Profetas do Nordeste. Natal, Editora Clima, 1994.

__________. Santo forte e lembrado: povo curado. Mossoró, Fundação Vingt-Un Rosado, 1999. Coleção Mossoroense.

__________. Santa Luzia e olhos. Natal, Boágua Editora, 1997.

MOTA, Ático Vilas Boas da. Rezas, benzeduras etcetera. Goiânia, Editora Oriente, 1977.

POEL, (Frei) Francisco Van Der. Com Deus me deito, com Deus me levanto. 6ª edição. São Paulo, Edições Paulinas, 1978.

CASCUDO, Luís da Câmara. Religião no povo. João Pessoa, Imprensa Universitária da Paraíba, 1974.

PALEARI, Giorgio. Religião do povo - Um estudo sobre a inculturação. 3ª edição. São Paulo, Editora AM, 1990.

Gutenberg Costa
Natal, RN


Colaborações

A. Carlos - Bentinho da Samambaia - Cada um cai do cavalo como quer - um causo de David de Carvalho.
Andréia Nery - Benzeduras
Guilhermino de Oliveira Filho - Noite de São João
Itamar Rabelo - Uirapuru.
Lia Marchi - A montanha
Edith Lacerda - Ticumbi
Lenise Resende - Herança
Thelma Regina Siqueira Linhares - Folclore e eu
Virgínia Allan - Duas histórias de assombração
João Rodrigues Barbosa Filho - O guzerá
Gilvan Chaves, Junior - Bem-vindo seja, nortista, uma matutada de Gilvan Chaves
Peter O'Sagae - Folclore
JPVeiga - A linhagem da Cobra Grande
Gutenberg Costa - Agosto: mês de desgraça e desgosto!
Gutenberg Costa - Rezadeiras do Rio Grande do Norte
José Eduardo Ribeiro Moretzsohn - Porrinha
Valéria de Paula - Índios e cantigas
Família Garcia - Seleção de parlendas e adivinhas.
Maria Elisa Guimarães - Um estranho acontecimento narrado por Ana Suzuki
Nara Limeira - Entre o chão e o chinelo: o chiado em dança e percussão.
Rogério Duarte - A mula-sem-cabeça
Luiz Guimarães Gomes de Sá - Frevo, no coração e no pé
Cassiano Santana - Depoimento

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dedicada ao registro e divulgação da cultura popular brasileira e suas diversas formas de expressão.