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TICUMBINo final de 1998, por ocasião de minhas férias, resolvi viajar para
uma região de praia no Espírito Santo. Queria, porém, conciliar o meu descanso com a
possibilidade de presenciar algum festejo popular. Procurei pela internet se havia alguma
festa ou celebração nessa época do ano e descobri o TICUMBI de Conceição da Barra,
uma festa que louva São Benedito no primeiro dia do ano.
Orientei minha estadia por lá em função da proximidade com Conceição da Barra e no
primeiro dia de 1999 estava à procura da igreja de São Benedito. Qual não foi minha
surpresa ao perceber que praticamente ninguém sabia do acontecimento do folguedo: a
Secretaria de Cultura estava fechada em função do feriado e não havia nenhum aviso que
indicasse o horário e o local da festa. Depois de muitas informações desencontradas,
consegui encontrar a pequena igreja onde a missa já havia começado. No átrio (quase um
quintal tamanha a sua simplicidade), os brincantes, já paramentados, aguardavam para dar
início ao folguedo.
São somente homens que participam da brincadeira, muitos com idade bastante avançada.
Pude conversar com alguns deles e soube da dificuldade que têm para ensaiar: como moram
em regiões próximas à Conceição da Barra, precisam se reunir para preparar a
brincadeira e na maioria das vezes não têm dinheiro para o deslocamento. Naquela
ocasião, não havia qualquer tipo de apoio para que essa manifestação popular
acontecesse. Um dos brincantes que representava o Rei de Bamba tinha um projeto de iniciar
crianças na arte de representar o Ticumbi, mas não havia conseguido patrocínio.
O folguedo teve início para uma audiência composta praticamente só de parentes e amigos
dos brincantes e do mestre. Havia por lá uma jornalista de Vitória que acompanhava o
Ticumbi havia muitos anos e ficou tão surpresa com a presença de uma pessoa vinda do Rio
de Janeiro para ver a festa que acabou publicando no jornal como uma maneira de chamar
atenção para a possibilidade de investir no Ticumbi como um chamariz para o turismo.
Apesar de todas as dificuldades, o Ticumbi acontece todo ano graças à fé de seus
brincantes em louvar São Benedito. Na véspera da apresentação do folguedo, a imagem de
São Benedito chega de barco e é levada para a igreja, onde na manhã seguinte será
rezada uma missa e representada a brincadeira.
Guardo bem viva na memória a emoção de vê-los dançar e cantar o embate do Rei Congo e
do Rei de Bamba pelo direito de louvar São Benedito, santo protetor dos negros. É a
cultura popular brasileira sincrética e mestiça pulsando no coração do Brasil.
Edith Lacerda
educadora/ coordenadora da
Brinquedoteca
Carretel de Folia
Rio de Janeiro, RJ
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