Ano 3 - Setembro 2001 - nº 37

Ilustração Marcos Jardim


TICUMBI

No final de 1998, por ocasião de minhas férias, resolvi viajar para uma região de praia no Espírito Santo. Queria, porém, conciliar o meu descanso com a possibilidade de presenciar algum festejo popular. Procurei pela internet se havia alguma festa ou celebração nessa época do ano e descobri o TICUMBI de Conceição da Barra, uma festa que louva São Benedito no primeiro dia do ano.

Orientei minha estadia por lá em função da proximidade com Conceição da Barra e no primeiro dia de 1999 estava à procura da igreja de São Benedito. Qual não foi minha surpresa ao perceber que praticamente ninguém sabia do acontecimento do folguedo: a Secretaria de Cultura estava fechada em função do feriado e não havia nenhum aviso que indicasse o horário e o local da festa. Depois de muitas informações desencontradas, consegui encontrar a pequena igreja onde a missa já havia começado. No átrio (quase um quintal tamanha a sua simplicidade), os brincantes, já paramentados, aguardavam para dar início ao folguedo.

São somente homens que participam da brincadeira, muitos com idade bastante avançada. Pude conversar com alguns deles e soube da dificuldade que têm para ensaiar: como moram em regiões próximas à Conceição da Barra, precisam se reunir para preparar a brincadeira e na maioria das vezes não têm dinheiro para o deslocamento. Naquela ocasião, não havia qualquer tipo de apoio para que essa manifestação popular acontecesse. Um dos brincantes que representava o Rei de Bamba tinha um projeto de iniciar crianças na arte de representar o Ticumbi, mas não havia conseguido patrocínio.

O folguedo teve início para uma audiência composta praticamente só de parentes e amigos dos brincantes e do mestre. Havia por lá uma jornalista de Vitória que acompanhava o Ticumbi havia muitos anos e ficou tão surpresa com a presença de uma pessoa vinda do Rio de Janeiro para ver a festa que acabou publicando no jornal como uma maneira de chamar atenção para a possibilidade de investir no Ticumbi como um chamariz para o turismo.

Apesar de todas as dificuldades, o Ticumbi acontece todo ano graças à fé de seus brincantes em louvar São Benedito. Na véspera da apresentação do folguedo, a imagem de São Benedito chega de barco e é levada para a igreja, onde na manhã seguinte será rezada uma missa e representada a brincadeira.

Guardo bem viva na memória a emoção de vê-los dançar e cantar o embate do Rei Congo e do Rei de Bamba pelo direito de louvar São Benedito, santo protetor dos negros. É a cultura popular brasileira sincrética e mestiça pulsando no coração do Brasil.


Edith Lacerda
educadora/ coordenadora da
Brinquedoteca Carretel de Folia
Rio de Janeiro, RJ


Colaborações

A. Carlos - Bentinho da Samambaia - Cada um cai do cavalo como quer - um causo de David de Carvalho.
Andréia Nery - Benzeduras
Guilhermino de Oliveira Filho - Noite de São João
Itamar Rabelo - Uirapuru.
Lia Marchi - A montanha
Edith Lacerda - Ticumbi
Lenise Resende - Herança
Thelma Regina Siqueira Linhares - Folclore e eu
Virgínia Allan - Duas histórias de assombração
João Rodrigues Barbosa Filho - O guzerá
Gilvan Chaves, Junior - Bem-vindo seja, nortista, uma matutada de Gilvan Chaves
Peter O'Sagae - Folclore
JPVeiga - A linhagem da Cobra Grande
Gutenberg Costa - Agosto: mês de desgraça e desgosto!
Gutenberg Costa - Rezadeiras do Rio Grande do Norte
José Eduardo Ribeiro Moretzsohn - Porrinha
Valéria de Paula - Índios e cantigas
Família Garcia - Seleção de parlendas e adivinhas.
Maria Elisa Guimarães - Um estranho acontecimento narrado por Ana Suzuki
Nara Limeira - Entre o chão e o chinelo: o chiado em dança e percussão.
Rogério Duarte - A mula-sem-cabeça
Luiz Guimarães Gomes de Sá - Frevo, no coração e no pé
Cassiano Santana - Depoimento

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Jangada Brasil é uma revista mensal, exclusivamente online,
dedicada ao registro e divulgação da cultura popular brasileira e suas diversas formas de expressão.