Ano 3 - Setembro 2001 - nº 37

Ilustração Marcos Jardim


FOLCLORE E EU

Parei para pensar e escrever sobre a presença do Folclore em minha vida.

Nesses 47 anos, com certeza, é marcante, rica e variada, a influência dos diferentes fatos e manifestações folclóricas em minha vivência.

Ainda, na vida intra-uterina, tabus, crendices e superstições nos ligaram - mamãe Ivanice e eu.

Já nascida, cantigas de ninar e histórias da carochinha marcaram minha memória, nas vozes de mamãe e madrinha Getrudes.

De papai Nami, brincadeiras de trava-língua e confecção de brinquedos populares - papagaio/arraia/pipa e móveis de caixinhas de fósforo.

Com minha irmã Edna, muitas brincadeiras de casinha, bonecas de pano (bruxinhas), que conviviam, harmoniosamente, com os brinquedos comprados e sofisticados.

Já na escola, em Fortaleza e, posteriormente, em Recife, as primeiras leituras de folclore: lendas indígenas (Boitatá, Cobra Norato), tipos humanos, danças e folguedos.

No recreio, marcando a socialização com colegas e amigos, as brincadeiras de roda, as parlendas, as histórias sem-fim, as piadas, os jogos de espião/queimado, etc.

Com minhas tias, Beta, Nida e Dulce, oportunidades de leituras variadas do universo do Folclore.

Na universidade, o primeiro contato formal - um curso de especialização em pesquisa folclórica. micromonografias. O início de amizade com um grande folclorista – Mário Souto Maior.

Na vida profissional, como professora de crianças, a possibilidade concreta de oportunizar vivências e resgate das diferentes manifestações folclóricas.

Num baile de carnaval, o encontro com Edvaldo, o marido. Não faltou, naquela noite, frevo, maracatu, samba e fantasia.

Anos depois, o nascimento de Sthella e de Rodrigo e o sentir, na própria pele, as crendices e superstições ligadas à identificação do sexo do bebê - em desprezo das ultra-sonografias realizadas. Não usar chave no seio (para o bebê não nascer com lábio leporino). Cheirar casca de limão ou chupar gelo para passar enjôo. Usar, na primeira roupinha do recém-nascido, algum detalhe vermelho - para atrair sorte. Usar alguma peça do batizado, durante todo o dia, para trazer felicidade. Chumaço de algodão molhado na testa do bebê para passar soluço.

Para os filhotes e o sobrinho Raimundo Júnior, passei a ser o elemento de ligação entre o Folclore e o cotidiano da turminha da televisão, do vídeo-game e do computador, que caracterizam as gerações a partir dos anos 80.

Muitas vezes, numa relação desigual, onde a tecnologia exerce influência mais poderosa e significativa - não necessariamente qualitativa.

Mas fica, em mim, a tranqüilidade de que o Folclore permanecerá junto ao ser humano, independente de transformações, mudanças, mutilações, sufocações ou adaptações que possam ocorrer em suas diferentes manifestações, pois na realidade, se trata – o Folclore - das maneiras de pensar, sentir e agir de um povo, como bem sintetizou o mestre Câmara Cascudo.

Thelma Regina Siqueira Linhares
47 anos
Recife, PE

Texto enviado para a revista JANGADA BRASIL, nas comemorações do seu terceiro aniversário.


Colaborações

A. Carlos - Bentinho da Samambaia - Cada um cai do cavalo como quer - um causo de David de Carvalho.
Andréia Nery - Benzeduras
Guilhermino de Oliveira Filho - Noite de São João
Itamar Rabelo - Uirapuru.
Lia Marchi - A montanha
Edith Lacerda - Ticumbi
Lenise Resende - Herança
Thelma Regina Siqueira Linhares - Folclore e eu
Virgínia Allan - Duas histórias de assombração
João Rodrigues Barbosa Filho - O guzerá
Gilvan Chaves, Junior - Bem-vindo seja, nortista, uma matutada de Gilvan Chaves
Peter O'Sagae - Folclore
JPVeiga - A linhagem da Cobra Grande
Gutenberg Costa - Agosto: mês de desgraça e desgosto!
Gutenberg Costa - Rezadeiras do Rio Grande do Norte
José Eduardo Ribeiro Moretzsohn - Porrinha
Valéria de Paula - Índios e cantigas
Família Garcia - Seleção de parlendas e adivinhas.
Maria Elisa Guimarães - Um estranho acontecimento narrado por Ana Suzuki
Nara Limeira - Entre o chão e o chinelo: o chiado em dança e percussão.
Rogério Duarte - A mula-sem-cabeça
Luiz Guimarães Gomes de Sá - Frevo, no coração e no pé
Cassiano Santana - Depoimento

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dedicada ao registro e divulgação da cultura popular brasileira e suas diversas formas de expressão.