Ano 3 - Setembro 2001 - nº 37

Ilustração Marcos Jardim


"Para você, o que é folclore?"

Nosso passado, presente, futuro. A herança que recebemos de nossos antepassados e estamos preservando para deixarmos aos nossos sucessores.


HERANÇA

Nascida em 1950 e irmã (muito) mais nova de uma professora, guardei como relíquia, alguns livros que herdei, quando ela deixou de ser professora primária. Passei a infância lendo muito... muito mas, também, brincando muito... muito. E desejando ser professora, guardando "tesouros" - recortes de artigos, imagens, revistas, livros, discos, etc. Sendo o maior deles, as lembranças de tudo o que foi aprendido e experimentado. Ser criança nos anos 50, era simplesmente maravilhoso. Aprendia-se na escola, muito mais sobre o nosso país.

Nas aulas de música, éramos apresentados a todos os hinos existentes e, na minha escola, na hora da entrada nas salas de aula, perfilados, cantávamos a "Canção do Soldado". Repetíamos, muitas vezes de má vontade, pérolas do nosso folclore que, hoje, adoraríamos estar ouvindo. Éramos mais animadas (as meninas) na hora do recreio ao brincarmos de roda, cantando sem parar, selecionando jogadores com fórmulas de escolha, repetindo parlendas e rindo das línguas travadas, quando eram faladas muito rápido.

Nas aulas de arte, usávamos os mais variados materiais, para confeccionar trabalhos artísticos e objetos práticos. Não se usava cola pronta, era preciso fazer em casa, com amido de milho. Muito útil era guardar sucatas: peninhas, rendas, botões, gravetos, retalhos de pano, rolinho de papel higiênico e muitas coisas mais. Chego a suspirar quando lembro dos brinquedos que tive, feitos com caixinhas de marmelada e do queijo Catupiry, principalmente por ter tido a sorte de ter um avô muito habilidoso. Até hoje, quando vejo figuras de barro do Nordeste, lembro dos bichinhos que ele fazia, na hora do café, com miolo de pão.

Meus livros e cadernos, eram encapados com papéis trabalhados por mim (marmorizados, enrugados, etc.) e os marcadores de livro eram feitos com cartolina ou couro, ótimos para dar de presente. Poder usar e presentear com objetos "feitos por mim" dava enorme prazer. Só que, não consigo parar de rir, quando lembro os presentes que minha mãe recebeu, como umas flores feitas com bucha. A mesma bucha que minha sogra me manda, do interior de Minas Gerais, recortada e enfeitada com sinhaninha, e é a preferida dos meus filhos, pra tomar banho.

Frutas que agora só vejo em fotos (carambola, jabuticaba, pitanga, olho de boi, abíu, jambo, fruta de conde, cajá), eram corriqueiras nos quintais, aqui no Rio de Janeiro. Se o meu não tinha uma determinada fruta, certamente o do vizinho tinha. Fazer fogueira de São João no próprio quintal e assar batata-doce, tornava a festa junina inesquecível. A decoração com bambus, era contribuição dos vizinhos que ainda tinham um bambuzal e a lenha, era guardada quando as árvores eram podadas.

Festa de aniversário com a mesa cheia de compoteiras de doces fazia bem até para os olhos. O contraste das cores do doce de abóbora com o de batata-roxa, o de batata-doce e o doce de banana, hum... Que saudade que dá! Triste, algumas vezes, era o almoço de domingo, quando alguma criança desconfiava que o prato principal, era "fulana", sua galinha preferida. Hoje, só comemos galinhas anônimas, mas estamos livres de vê-las sendo mortas.

Quem me ouve falar, pensa que vivo no passado - nem tanto! Tenho calo no dedo de tanto escrever e quando surgiram as copiadoras xerox, achei fantástico. Não precisar recorrer as antigas técnicas de usar folha de papel fino, papel carbono ou rabiscar o lado contrário da imagem com lápis preto, pra depois decalcar, é extraordinário. Em casa, sou a pessoa que mais usa o computador, chego a ficar quase 48 horas trabalhando nele, pouco parando pra descansar. O que trouxe do passado para o computador, a minha experiência com técnicas artesanais, são de muito valor. Tive poucas aulas de informática e era comum a professora, após me dar alguma explicação, perguntar como eu fazia aquilo antes. Por intuição ou teimosia, sempre cheguei onde queria. Quem não aprendeu a manusear dicionários, pode ter dificuldade ao fazer pesquisas na web. Pessoalmente, tenho mais facilidade em manusear livros, mas sou muito rápida nas minhas pesquisas via internet.

Alguns livros herdados de minha irmã, as lembranças de minha mãe (que assistiu Villa-Lobos regendo corais), minhas pastas de recortes, estão me orientando atualmente nas páginas que estou criando sobre folclore, para o meu site (Lendo & Relendo). Minha memória está ajudando a relembrar cantigas de roda, parlendas, brincadeiras, etc. O presente, representado por minha neta de cinco anos, também me ajuda, ao me mostrar as transformações que as tradições orais sofreram. E assim como no carnaval de hoje, se cantam os sucessos do passado, as meninas de hoje, brincam de roda, com as mesmas antigas cantigas que sempre farão sucesso.


Lenise Resende
Poetisa, cronista, artista plástica
50 anos
Rio de Janeiro


Colaborações

A. Carlos - Bentinho da Samambaia - Cada um cai do cavalo como quer - um causo de David de Carvalho.
Andréia Nery - Benzeduras
Guilhermino de Oliveira Filho - Noite de São João
Itamar Rabelo - Uirapuru.
Lia Marchi - A montanha
Edith Lacerda - Ticumbi
Lenise Resende - Herança
Thelma Regina Siqueira Linhares - Folclore e eu
Virgínia Allan - Duas histórias de assombração
João Rodrigues Barbosa Filho - O guzerá
Gilvan Chaves, Junior - Bem-vindo seja, nortista, uma matutada de Gilvan Chaves
Peter O'Sagae - Folclore
JPVeiga - A linhagem da Cobra Grande
Gutenberg Costa - Agosto: mês de desgraça e desgosto!
Gutenberg Costa - Rezadeiras do Rio Grande do Norte
José Eduardo Ribeiro Moretzsohn - Porrinha
Valéria de Paula - Índios e cantigas
Família Garcia - Seleção de parlendas e adivinhas.
Maria Elisa Guimarães - Um estranho acontecimento narrado por Ana Suzuki
Nara Limeira - Entre o chão e o chinelo: o chiado em dança e percussão.
Rogério Duarte - A mula-sem-cabeça
Luiz Guimarães Gomes de Sá - Frevo, no coração e no pé
Cassiano Santana - Depoimento

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dedicada ao registro e divulgação da cultura popular brasileira e suas diversas formas de expressão.