
"Para você, o que é folclore?"
Nosso passado, presente, futuro. A herança que recebemos de nossos antepassados e estamos
preservando para deixarmos aos nossos sucessores.
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HERANÇANascida em 1950 e irmã (muito) mais nova de uma professora, guardei
como relíquia, alguns livros que herdei, quando ela deixou de ser professora primária.
Passei a infância lendo muito... muito mas, também, brincando muito... muito. E
desejando ser professora, guardando "tesouros" - recortes de artigos, imagens,
revistas, livros, discos, etc. Sendo o maior deles, as lembranças de tudo o que foi
aprendido e experimentado. Ser criança nos anos 50, era simplesmente maravilhoso.
Aprendia-se na escola, muito mais sobre o nosso país.
Nas aulas de música, éramos apresentados a todos os hinos existentes e, na minha escola,
na hora da entrada nas salas de aula, perfilados, cantávamos a "Canção do
Soldado". Repetíamos, muitas vezes de má vontade, pérolas do nosso folclore que,
hoje, adoraríamos estar ouvindo. Éramos mais animadas (as meninas) na hora do recreio ao
brincarmos de roda, cantando sem parar, selecionando jogadores com fórmulas de escolha,
repetindo parlendas e rindo das línguas travadas, quando eram faladas muito rápido.
Nas aulas de arte, usávamos os mais variados materiais, para confeccionar trabalhos
artísticos e objetos práticos. Não se usava cola pronta, era preciso fazer em casa, com
amido de milho. Muito útil era guardar sucatas: peninhas, rendas, botões, gravetos,
retalhos de pano, rolinho de papel higiênico e muitas coisas mais. Chego a suspirar
quando lembro dos brinquedos que tive, feitos com caixinhas de marmelada e do queijo
Catupiry, principalmente por ter tido a sorte de ter um avô muito habilidoso. Até hoje,
quando vejo figuras de barro do Nordeste, lembro dos bichinhos que ele fazia, na hora do
café, com miolo de pão.
Meus livros e cadernos, eram encapados com papéis trabalhados por mim (marmorizados,
enrugados, etc.) e os marcadores de livro eram feitos com cartolina ou couro, ótimos para
dar de presente. Poder usar e presentear com objetos "feitos por mim" dava
enorme prazer. Só que, não consigo parar de rir, quando lembro os presentes que minha
mãe recebeu, como umas flores feitas com bucha. A mesma bucha que minha sogra me manda,
do interior de Minas Gerais, recortada e enfeitada com sinhaninha, e é a preferida dos
meus filhos, pra tomar banho.
Frutas que agora só vejo em fotos (carambola, jabuticaba, pitanga, olho de boi, abíu,
jambo, fruta de conde, cajá), eram corriqueiras nos quintais, aqui no Rio de Janeiro. Se
o meu não tinha uma determinada fruta, certamente o do vizinho tinha. Fazer fogueira de
São João no próprio quintal e assar batata-doce, tornava a festa junina inesquecível.
A decoração com bambus, era contribuição dos vizinhos que ainda tinham um bambuzal e a
lenha, era guardada quando as árvores eram podadas.
Festa de aniversário com a mesa cheia de compoteiras de doces fazia bem até para os
olhos. O contraste das cores do doce de abóbora com o de batata-roxa, o de batata-doce e
o doce de banana, hum... Que saudade que dá! Triste, algumas vezes, era o almoço de
domingo, quando alguma criança desconfiava que o prato principal, era "fulana",
sua galinha preferida. Hoje, só comemos galinhas anônimas, mas estamos livres de vê-las
sendo mortas.
Quem me ouve falar, pensa que vivo no passado - nem tanto! Tenho calo no dedo de tanto
escrever e quando surgiram as copiadoras xerox, achei fantástico. Não precisar recorrer
as antigas técnicas de usar folha de papel fino, papel carbono ou rabiscar o lado
contrário da imagem com lápis preto, pra depois decalcar, é extraordinário. Em casa,
sou a pessoa que mais usa o computador, chego a ficar quase 48 horas trabalhando nele,
pouco parando pra descansar. O que trouxe do passado para o computador, a minha
experiência com técnicas artesanais, são de muito valor. Tive poucas aulas de
informática e era comum a professora, após me dar alguma explicação, perguntar como eu
fazia aquilo antes. Por intuição ou teimosia, sempre cheguei onde queria. Quem não
aprendeu a manusear dicionários, pode ter dificuldade ao fazer pesquisas na web.
Pessoalmente, tenho mais facilidade em manusear livros, mas sou muito rápida nas minhas
pesquisas via internet.
Alguns livros herdados de minha irmã, as lembranças de minha mãe (que assistiu
Villa-Lobos regendo corais), minhas pastas de recortes, estão me orientando atualmente
nas páginas que estou criando sobre folclore, para o meu site (Lendo & Relendo).
Minha memória está ajudando a relembrar cantigas de roda, parlendas, brincadeiras, etc.
O presente, representado por minha neta de cinco anos, também me ajuda, ao me mostrar as
transformações que as tradições orais sofreram. E assim como no carnaval de hoje, se
cantam os sucessos do passado, as meninas de hoje, brincam de roda, com as mesmas antigas
cantigas que sempre farão sucesso.
Lenise Resende
Poetisa, cronista, artista plástica
50 anos
Rio de Janeiro |
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