Ano 3 - Setembro 2001 - nº 37

Ilustração Marcos Jardim


ÍNDIOS E CANTIGAS

Em julho fui trabalhar com índios de Minas no Curso de Formação de Professores Indígenas, no Parque Estadual do Rio Doce (MG). Nos intervalos do trabalho que estava realizando - curso de vídeo-, eu gravava depoimentos, cantigas, benditos e brincadeiras. No começo da conversa com Isael Maxacali, (tribo em que os índios só aprendem português a partir dos 18 anos), eu perguntava: "Como é viver lá?". E ele dizia alguma coisa em Maxacali, que eu não sabia o que era. Eu fazia outra pergunta: "Como é o dia de vocês?". Ele dizia outra coisa, em Maxacali, e eu sem entender. Fiz mais algumas perguntas e nada. Quando já estava quase certa de que ele estava é sem vontade de conversar e de me dar aquelas informações, perguntei "Como é lá nos Maxacali?" e ele: "Machacadi" (este é o som do que ele falou, devagarzinho). Percebi que ele estava entendendo que eu queria saber como se pronunciava tal palavra ou frase na língua dele, e então repetia, em Maxacali, o que eu dizia na pergunta. Depois disso, conseguimos conversar o suficiente pra que ele risse muito quando eu falei que nunca tinha visto um quati.

As Xacriabá cantaram muitas cantigas de roda, de trabalho e também benditos. Vou deixar aqui uns versinhos de uma cantiga:

Despedida de amor
faz chorar, faz chorar
despedida de amor
faz chorar, faz saluçá
(essa estrofe se repete depois de todo verso "jogado")

Eu mandei fazer um vestido
com 25 babado
toda vez que eu visto ele
25 namorado

Da laranja eu quero um gomo
do limão quero um pedaço
de sua boca quero um beijo
de seu corpo dois abraço

Lembrança fica
e lembrança vai
minha mãe ficou banguela
de tanto beijar meu pai

Quem quiser pegar rapaz
arma um laço no fogão
ontem mesmo eu peguei um
na panela do feijão

É vem a lua saindo
saia meu bem, venha ver
não tem quem empate a lua
nem o nosso bem querer

Menino dos olhos preto
sobrancelha de retrós
dá um pulo na cozinha
vai fazer café pra nós

Do que vale um pingo d’água
no fundo de uma bacia
do que vale eu ter amor
se não vejo todo dia

Cantiga cantada por Iracema, Quitéria, Azilda, Ducilene, Adnan, Marli e Lenice.


Valéria de Paula
25 anos
Jornalista integrante do projeto Umdolasi - documentário sobre brinquedos e brincadeiras
Belo Horizonte, MG


Colaborações

A. Carlos - Bentinho da Samambaia - Cada um cai do cavalo como quer - um causo de David de Carvalho.
Andréia Nery - Benzeduras
Guilhermino de Oliveira Filho - Noite de São João
Itamar Rabelo - Uirapuru.
Lia Marchi - A montanha
Edith Lacerda - Ticumbi
Lenise Resende - Herança
Thelma Regina Siqueira Linhares - Folclore e eu
Virgínia Allan - Duas histórias de assombração
João Rodrigues Barbosa Filho - O guzerá
Gilvan Chaves, Junior - Bem-vindo seja, nortista, uma matutada de Gilvan Chaves
Peter O'Sagae - Folclore
JPVeiga - A linhagem da Cobra Grande
Gutenberg Costa - Agosto: mês de desgraça e desgosto!
Gutenberg Costa - Rezadeiras do Rio Grande do Norte
José Eduardo Ribeiro Moretzsohn - Porrinha
Valéria de Paula - Índios e cantigas
Família Garcia - Seleção de parlendas e adivinhas.
Maria Elisa Guimarães - Um estranho acontecimento narrado por Ana Suzuki
Nara Limeira - Entre o chão e o chinelo: o chiado em dança e percussão.
Rogério Duarte - A mula-sem-cabeça
Luiz Guimarães Gomes de Sá - Frevo, no coração e no pé
Cassiano Santana - Depoimento

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dedicada ao registro e divulgação da cultura popular brasileira e suas diversas formas de expressão.