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| Pessoal, Parabéns por estes dois anos
dedicados à nossa cultura. Tenho um "causo" para contar. Lá vai.
Era junho de 1999. Viajava com alguns companheiros a trabalho pelo interiorzão do
Nordeste. Entra estradinha, passa porteira e cruza riacho, quando no sertão mais remoto
da Paraíba, próximo à fronteira com o Ceará, de repente topamos com uma atmosfera de
pura magia. Sem saber bem por que, reduzimos a marcha do carro até quase parar... e
afinal paramos.
À nossa frente, a única rua de um vilarejo de não mais de 100 metros, casas branquinhas
de ambos os lados. Era fim de tarde e todos os habitantes na rua, banho tomado, cabelos
ainda molhados. Os adultos, sentados nas portas das casas, proseando. As crianças
correndo, soltas. À frente de cada casa, uma fogueira ainda apagada, lenha cuidadosamente
arrumada sobre a rua varridinha, limpa como um quintal de dona-de-casa caprichosa. Era
dia, quase noite, de São João. Faltava pouco para as fogueiras serem acesas.
Arrisquei perguntar a uma senhora: hoje tem festa aqui?
- Tem nada aqui p'ra festejar não, moço...
E riu uma risada daquelas sonoras e gostosas, que - pelo menos para mim - dava notícia do
contraste entre nossos carros reluzentes (embora empoeirados) e a simplicidade daquela
vida. Ao mesmo tempo, demonstrava com uma graça cativante que era preciso pouco para
estar feliz naquele momento que parecia tão especial. Tive vontade de descer e ficar por
ali mesmo, abandonando trabalho, carro, hotel, televisão, restaurante, avião e etc. Foi
difícil conseguir fazer o carro andar de novo, atravessando aquela cena pelo único
caminho possível. Era como se estivéssemos passando a cavalo por dentro da sala de uma
casa de família.
Mais tarde, já noite, chegamos à cidade de Sousa-PB, onde passaríamos a noite. Aquela
noite sagrada para os nordestinos que nós, há dias embrenhados no meio do sertão, nem
nos déramos conta que havia chegado. No caminho até lá, qualquer paisagem vista de um
lugar um pouco mais alto era um verdadeiro chão de estrelas, salpicado de luzes de
fogueiras ao longe. A tradicionalíssima cidade de Sousa, fundada em 1766, era só fumaça
no ar. A atmosfera era quase irrespirável. Mas nem mesmo as crises de asma de muitos
e as internações em massa no hospital pelos mais variados problemas respiratórios
evitavam o inevitável: na porta de cada casa, uma fogueira.
Conversando com o pessoal de lá noite afora, mencionamos a cena mágica da tarde e
soubemos o que havia de tão especial para aquela gente que a protagonizava, o segredo
daquela alegria que nenhum contraste social podia abalar, o motivo daquele sutil convite
para que nos retirássemos de lá com nossos carros. Tudo aquilo ocorria por que era noite
de São João e um ritual delicado e íntimo estava para começar. Reza a tradição do
interior daquele sertão que, uma vez acesas as fogueiras, ocorrem visitas... Visitas às
fogueiras. E quando alguém visita a fogueira de uma família e lá deposita um cavaco de
lenha ou um pedaço de pano, está fazendo uma irrecusável oferta de compadrio, propondo
um trato de amizade e solidariedade. Por força de uma gratidão ou de uma especial
consideração, ali se estabelece um laço profundo e para sempre. Depois disso, a fartura
e a fome de uns também são as dos outros. Os casamentos dos filhos de uns também são
os dos outros. As mortes são choradas juntas. Os nascimentos também... Ali vidas se
unem, de um jeito que não conhecemos em nossas existências urbanas.
Por estas e outras, ando me perguntando: será que a verdadeira civilização brasileira
está nos valores globalizados e na competição desenfreada? Será que vamos desprezar o
aprendizado de solidariedade e responsabilidade social conquitado a duras penas pela
vivência de nossa mais pronunciada pobreza material? Será que vamos continuar repetindo
que os Europeus sabem mais do que nós por que sofreram com várias guerras e podem morrer
de frio no inverno? Quando será que vamos aprender a valorizar o que conquistamos no
calor de nosso sol e na paz lutadora e digna de nossos camponeses? Quando aprenderemos a
fazer de fogueiras em frente às nossas casas alegorias de chamas prestes a arder em
nossos corações?
Guilhermino de Oliveira Filho
51 anos
Rio de Janeiro, RJ |
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