Ano 3 - Setembro 2001 - nº 37

Ilustração Marcos Jardim

Pessoal,

Parabéns por estes dois anos dedicados à nossa cultura. Tenho um "causo" para contar. Lá vai.

Era junho de 1999. Viajava com alguns companheiros a trabalho pelo interiorzão do Nordeste. Entra estradinha, passa porteira e cruza riacho, quando no sertão mais remoto da Paraíba, próximo à fronteira com o Ceará, de repente topamos com uma atmosfera de pura magia. Sem saber bem por que, reduzimos a marcha do carro até quase parar... e afinal paramos.

À nossa frente, a única rua de um vilarejo de não mais de 100 metros, casas branquinhas de ambos os lados. Era fim de tarde e todos os habitantes na rua, banho tomado, cabelos ainda molhados. Os adultos, sentados nas portas das casas, proseando. As crianças correndo, soltas. À frente de cada casa, uma fogueira ainda apagada, lenha cuidadosamente arrumada sobre a rua varridinha, limpa como um quintal de dona-de-casa caprichosa. Era dia, quase noite, de São João. Faltava pouco para as fogueiras serem acesas.

Arrisquei perguntar a uma senhora: hoje tem festa aqui?

- Tem nada aqui p'ra festejar não, moço...

E riu uma risada daquelas sonoras e gostosas, que - pelo menos para mim - dava notícia do contraste entre nossos carros reluzentes (embora empoeirados) e a simplicidade daquela vida. Ao mesmo tempo, demonstrava com uma graça cativante que era preciso pouco para estar feliz naquele momento que parecia tão especial. Tive vontade de descer e ficar por ali mesmo, abandonando trabalho, carro, hotel, televisão, restaurante, avião e etc. Foi difícil conseguir fazer o carro andar de novo, atravessando aquela cena pelo único caminho possível. Era como se estivéssemos passando a cavalo por dentro da sala de uma casa de família.

Mais tarde, já noite, chegamos à cidade de Sousa-PB, onde passaríamos a noite. Aquela noite sagrada para os nordestinos que nós, há dias embrenhados no meio do sertão, nem nos déramos conta que havia chegado. No caminho até lá, qualquer paisagem vista de um lugar um pouco mais alto era um verdadeiro chão de estrelas, salpicado de luzes de fogueiras ao longe. A tradicionalíssima cidade de Sousa, fundada em 1766, era só fumaça no ar. A atmosfera era quase irrespirável. Mas nem mesmo as crises de asma de muitos
e as internações em massa no hospital pelos mais variados problemas respiratórios evitavam o inevitável: na porta de cada casa, uma fogueira.

Conversando com o pessoal de lá noite afora, mencionamos a cena mágica da tarde e soubemos o que havia de tão especial para aquela gente que a protagonizava, o segredo daquela alegria que nenhum contraste social podia abalar, o motivo daquele sutil convite para que nos retirássemos de lá com nossos carros. Tudo aquilo ocorria por que era noite de São João e um ritual delicado e íntimo estava para começar. Reza a tradição do interior daquele sertão que, uma vez acesas as fogueiras, ocorrem visitas... Visitas às fogueiras. E quando alguém visita a fogueira de uma família e lá deposita um cavaco de lenha ou um pedaço de pano, está fazendo uma irrecusável oferta de compadrio, propondo um trato de amizade e solidariedade. Por força de uma gratidão ou de uma especial consideração, ali se estabelece um laço profundo e para sempre. Depois disso, a fartura e a fome de uns também são as dos outros. Os casamentos dos filhos de uns também são os dos outros. As mortes são choradas juntas. Os nascimentos também... Ali vidas se unem, de um jeito que não conhecemos em nossas existências urbanas.

Por estas e outras, ando me perguntando: será que a verdadeira civilização brasileira está nos valores globalizados e na competição desenfreada? Será que vamos desprezar o aprendizado de solidariedade e responsabilidade social conquitado a duras penas pela vivência de nossa mais pronunciada pobreza material? Será que vamos continuar repetindo que os Europeus sabem mais do que nós por que sofreram com várias guerras e podem morrer de frio no inverno? Quando será que vamos aprender a valorizar o que conquistamos no calor de nosso sol e na paz lutadora e digna de nossos camponeses? Quando aprenderemos a fazer de fogueiras em frente às nossas casas alegorias de chamas prestes a arder em nossos corações?

Guilhermino de Oliveira Filho
51 anos
Rio de Janeiro, RJ


Colaborações

A. Carlos - Bentinho da Samambaia - Cada um cai do cavalo como quer - um causo de David de Carvalho.
Andréia Nery - Benzeduras
Guilhermino de Oliveira Filho - Noite de São João
Itamar Rabelo - Uirapuru.
Lia Marchi - A montanha
Edith Lacerda - Ticumbi
Lenise Resende - Herança
Thelma Regina Siqueira Linhares - Folclore e eu
Virgínia Allan - Duas histórias de assombração
João Rodrigues Barbosa Filho - O guzerá
Gilvan Chaves, Junior - Bem-vindo seja, nortista, uma matutada de Gilvan Chaves
Peter O'Sagae - Folclore
JPVeiga - A linhagem da Cobra Grande
Gutenberg Costa - Agosto: mês de desgraça e desgosto!
Gutenberg Costa - Rezadeiras do Rio Grande do Norte
José Eduardo Ribeiro Moretzsohn - Porrinha
Valéria de Paula - Índios e cantigas
Família Garcia - Seleção de parlendas e adivinhas.
Maria Elisa Guimarães - Um estranho acontecimento narrado por Ana Suzuki
Nara Limeira - Entre o chão e o chinelo: o chiado em dança e percussão.
Rogério Duarte - A mula-sem-cabeça
Luiz Guimarães Gomes de Sá - Frevo, no coração e no pé
Cassiano Santana - Depoimento

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dedicada ao registro e divulgação da cultura popular brasileira e suas diversas formas de expressão.