Jangada Brasil – nº 37, Setembro de 2001 – Edição comemorativa de 3º aniversário

PORRINHA
Um esboço de pesquisa

Porrinha. S.f. Bras. Jogo em que os parceiros encerram na mão certo número (entre 0 e 3) de moedas ou palitos de fósforo, para depois, um a um, tentarem adivinhar o total; basquete-de-bolso, jogo de palitinhos. (Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, 2ª ed., Editora Nova Fronteira, Rio, 1986)

Porrinha. S.f. — De porra — Gír. bras. Jogo popular com fósforos, moedas, etc, que dois ou mais jogadores escondem na mão fechada, ganhando aquele que acertar o número da soma dos objetos apresentados depois de abertas as mãos dos participantes. (Enciclopédia Brasileira Mérito, Editora Mérito S.A., São Paulo, 1958)

Porra (ô). [De porroS.f. 1. Ant. Clava com saliência arredondada num dos extremos. 2. Chulo. O pênis. 3. Bras. S. Chulo. V. esperma (…) (Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, 2ª ed., Editora Nova Fronteira, Rio, 1986)

Porra (ô), s.f. (…) Modernamente porra é plebeísmo obsceno, o mesmo que pênis e usado, em geral, em forma de exclamação por: irra!, arre!, etc. (Do lat. porru. cast. porra) (Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Editorial Enciclopédia Limitada, Lisboa)

Lona. (…) 2) Jogo com número ilimitado de parceiros, em que cada um deles fecha na mão de zero a três pauzinhos; o ganhador é aquele que acerta a soma dos pauzinhos de todos os parceiros… Jogo também chamado porrinha. (Stanislaw Ponte Preta. “É esta a gíria de hoje”. In BANDEIRA, Manuel; ANDRADE, Carlos Drummond de. Rio de Janeiro em prosa e verso. Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1965. Coleção Rio Quatro Séculos, v. 5, p. 375)

Outras possibilidades concorrentes para a origem da palavra “porrinha” ou “purrinha”


1) Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Editorial Enciclopédia Limitada, Lisboa)

Púrrias.f. Gír. Bando de garotos, súcia; conjunto de gente reles (…)
Purrinhéms.m. Bras. Nordeste. Casa ou quarto pequeno e desconfortável. w Qualquer coisa ordinária.
Púrrio, adj. Gír. Muito ordinário, reles. (…)

Pois, em arranjo de palavras extraídas da Coleção Rio Quatro Séculos: O jogo era vezeiro entre os guaribus do tempo, os velhos babosos, os maridos bilontras e a rapaziada bordelenga, que depois do jogo iam não raro em farândulas arruaceiras aos bares e locais que tais para comemorar às expensas do perdedor, não surpreende se acompanhados de raparigas estouvadas.

 

2) Santo Agostinho, já no século IV d.C., referindo-se à morra, dizia:
Porro cum quo micas in tenebris ei liberum est, si velit, fallere.” [grifo meu]
[“Com certeza, àquele com quem jogas morra no escuro, ainda que avisado, podes enganar.”]
Ora, sendo Santo Agostinho homem de destaque na religião católica, muito difundido e estudado, de influência e idéias coincidentes nos escritos de Calvino, Lutero e outros reformadores protestantes, bem como nos de Kant e Pascal, a palavra “Porro,”que inicia a frase, pode ter sido confundida com o nome do jogo.

Origem: Morra ou Mora

Encliclopédia Britânica, em “Games” (“Jogos”), informa que em Roma, no século IV d.C., “morra” (pronuncia-se “mórra”) era um jogo de adivinhação, em que dois parceiros tentavam adivinhar a soma total de dedos a serem abertos simultaneamente pelos dois. Então, honesto era aquele “quicum in tenebris mices“, isto é, com quem se pudesse jogar “morra” no escuro.

Mices, pois o jogo teria origem no divertimento romano “micare digites“, segundo Câmara Cascudo, no verbete “morra ou mora” de seu Dicionário do folclore brasileiro. Neste jogo, os parceiros erguiam a mão direita, mantendo o punho fechado, e cada um tentava adivinhar a soma total de dedos a serem abertos. Em seguida, todos os participantes abaixavam simultaneamente as destras, esticando quantos dedos lhes aprouvessem. Um ponto era assinalado a favor do participante que acertasse a soma dos dedos abertos, e esse era marcado com os dedos da mão esquerda do vencedor, um para cada ponto conquistado.

O mesmo verbete chama o jogo de “micatio” ou “mora”, que seria usado até para decidir pequenas questões nos mercados, uso que chegou a ser proibido em edito do século IV d.C. por um prefeito de Roma.

Ao sul da Itália deve ter marchado com os gregos. Dali, a unificação da península italiana, do fim do século VI ao fim do século II a.C., deve tê-lo nacionalizado.

Em “Dante Allighieri e a tradição popular no Brasil,” diz Cascudo que os legionários romanos levaram-no “para as colônias e países conquistados”. Dentre eles, diz a história, as regiões da Aquitânia, Armorica e Lugdunensis, em 200 a 100 a.C., onde estariam mais tarde França e Holanda, dois países que aqui estiveram no século XVI, comerciando e tentando colonizar.

Esta expansão do Império Romano deve tê-lo transportado à Ásia Menor, onde estão árabes e judeus, que para cá, também mais tarde, imigraram em grande quantidade.

Santo Agostinho, no século IV d.C , deve tê-lo encontrado já na região acima da Gália Cisalpina, onde estavam os germanos que foi catequisar. É dele a frase contada acima, como dito, “Porro cum quo micas in tenebris ei liberum est, si velit, fallere.” [“Com certeza, àquele com quem jogas morra no escuro, ainda que avisado, podes enganar.”]

Segundo Cascudo, a morra teria aqui aportado com os italianos que imigraram para São Paulo. Desta imigração, Francisco Cupello nos dá um resumo cronológico:”

1530 – alguns marinheiros italianos, na expedição de Pero Lopes
1836 – início da imigração oficial: fundação em Santa Catarina, às margens do Rio Tijucas, de um núcleo de agricultoes “piamonteses” (Smucker?)
1871 – decreto de 26 de março autoriza a fundação de uma sociedade para promover a imigração de italianos para a Província de São Paulo
1871 – junho: contrato é firmado com Savino Tripoli, para introdução de 2.500 imigrantes italianos
1872 – outros contratos, um deles para introduzir 100.000 “piamonteses”
1875 – é iniciada a colonização do Rio Grande do Sul, com o povoamento do antigo Campo dos Bugres, hoje Caxias do Sul
1902 – a imigração para o Brasil é extinta pelo governo italiano. Porém, mais tarde, o decreto de extinção foi revogado.

No verbete, no Dicionário do Folclore, Câmara Cascudo encerra-o dizendo que “Há uma modalidade brasileira, a porrinha, jogada com paus de fósforo.” [grifo meu]

Ainda em Dante Allighieri e a tradição popular no Brasil, o folclorista ensina: “Há, entretanto, jogo que lembra as velhas feições. É a PORRINHA, ou jogo com palitos de fósforos, com que decidem por todo o Brasil quem pagará despesa cordial no bar. Jogam vários companheiros com um número ímpar de pauzinhos, três, comumente, para cada um. Cada jogador oculta na palma da mão um número de palitos somente por ele conhecido. Cada concorrente proclama um número que será a soma de todos os palitos escondidos pelos adversários. Abertas as mãos, verifica-se quem acertou com o resultado real. Este ganhou a partida.

‘Revive o pregão antecipado no quantum futuro, como no jôgo da zara. Não sei de outra sobrevivência lúdica.’”

É provável que esteja certo, pois na Cidade de Nova Iorque, Estados Unidos da América, onde é muito grande a colônia italiana, e onde são muitos os que conhecemos, a “morra chinesa” é conhecida, mas não a “purrinha.”

Uma versão diferente aparece em Padre Henrique Koehler S. J., Dicionário escolar latino português, Editora Globo, 7ª edição, São Paulo, 1957. Em “mico, micui,—,-are“, “digitis micare” é “jogar o jogo de ‘mora’”, que consiste em “esticar e encolher depressa alguns dedos, devendo o parceiro indicar o número de dedos que entraram em ação.

Por que “micare“? O Dicionário escolar latino-português, Ministério da Educação e Cultura, organizado por Ernesto Faria, 2ª edição, dá para “MICO, -as, -are, micui, v. intr.” o sentido de “tremer, agitar-se, palpitar, abrir e fechar.” [grifo meu].

Definida no Dicionário da língua italiana, a morra é de origem grega. É jogada por dois parceiros ao redor de uma mesa, em geral sentados. Os dois erguem as mãos direitas e baixam-nas rapidamente sobre a mesa, gritando cada um, ao abaixar o braço, a soma prevista dos dedos abertos. O total a ser gritado pode variar entre 2 (dois) e 10 (dez), indicando que cada parceiro deve abrir no mínimo 1 (um) dedo e, no máximo, evidentemente, 5 (cinco).

Entretanto, na Enciclopédia universal ilustrada europeo-americana, o verbete “morra” informa que o punho cerrado indicava zero, sugerindo assim variedades na contagem.

A comprovar a origem grega do jogo, esta Enciclopédia alude a “figuras reproduzidas por Falkener em sua obra Games ancient and oriental(1892)” Ainda, a vários monumentos que o representam, como “um vaso pintado existente no Museu de Berlim e outro da Coleção Lambert de Paris. Está também representada em uma das famosas pinturas em estuque da Farnesina de Roma.” A designação na Grécia é desconhecida: “deviam ser as vozes equivalentes lachmos, kleros dia daktylon, que logo entre os latinos seria chamada de micatio.

Há uma variedade principal do jogo, que consiste em abrir e fechar os dedos sobre uma mesa, e cada jogador, um de cada vez, atento à mão do parceiro, grita a quantidade de dedos aberta por ele. Nesta modalidade, a mesa desempenha papel decisivo, pois o som causado pelo impacto dos dedos abertos contra a mesa é utilizado como auxiliar da visão.

Comum no sul da Itália, a morra teria se tornado nacional no país durante a Primeira Guerra Mundial, com o encontro dos exércitos regionais. Hoje, como recurso decisório, é proibida na Itália.

Ainda segundo a Enciclopédia universal ilustrada europeo-americana, a morra é também muito comum na China, nas ilhas do Mar do Sul.

“Morra chinesa” é uma variedade muito jogada na Itália ainda hoje pela gurizada, pois pode ser jogada por meninos e meninas em lugares onde se exige silêncio. Consiste em formar “desenhos” com a mão e os dedos da mão, quais sejam:

a) “tesoura”, com o anular e o médio abertos;

b) “pedra”, com o punho fechado;

c) “papel”, com todos os dedos da mão abertos.

Eis a hierarquia do jogo: a tesoura ganha do papel, porque corta o papel, mas perde da pedra, porque contra ela fica cega; o papel ganha da pedra, porque a envolve, mas perde da tesoura, porque é cortado por ela; a pedra ganha da tesoura, porque a cega, mas perde do papel, porque é envolvida por ele.

Há ainda a “morra muda,” que é, nada mais nada menos, que o nosso “par-ou-ímpar”, muitíssimo usado para resolver questões miúdas.

A porrinha enquadra-se entre os jogos de divulgação antecipada do “quantum“, usando a palavra de Cascudo, dentre eles o remotíssimo “jogo da zara”, com dados.

As características gerais da porrinha são:

— jogo de homens;
— cada um por si, contra todos;
— é jogado em pé;
— divulgação antecipada do “quantum”, que é a previsão do resultado;
— o blefe é possível;
— os punhos cerrados contendo os palitos ficam esticados à frente, à vista de todos os participantes;
— vence quem acerta a soma total dos palitos (ou moedas, ou outros objetos) contidos nas mãos de todos os participantes;
— o perdedor (o que fica só na roda) paga uma prenda — café ou miudeza — para os demais.

José Eduardo R. Moretzsohn
56 anos
Tradutor
Rio de Janeiro, RJ

 

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