Jangada Brasil – nº 37, Setembro de 2001 – Edição comemorativa de 3º aniversário

 

BENTINHO DA SAMAMBAIA
Cada um cai do cavalo como quer
Através de uma série de contos da roça, o autor, David de Carvalho, pretende mostrar algumas realidades estratificadas no quadro sócio-cultural de Minas Gerais, procurando captar, também, na temática, traços típicos do comportamento do montanhês, tais como o humor e a tristeza.Indo para o Largo da Capela do Rosário, o Doutor Alonsinho caminha firme e prumado. Indo ao lado dele, meio encumbucado, o Bentinho da Samambaia ora coçava as costas, ora ajeitava a correia. De repente, ele tirou um envelope amarrotado do bolso traseiro da calça:

– Recebi hoje notícias do primo Florindo, que está bem de vida em São Paulo só trabalhando como servente de pedreiro, mas não entendi o raio dos rabiscos dele, porque os garranchos parecem letras de médico. Está parecendo que ele escreveu assim: “Bentinho, partiu-se o pote no cimento do meio-fio, ô fim de mundo!”

O Doutor Alonsinho pegou o cartão:

– Por favor, deixe-me ver!

O Doutor Alonsinho correu os olhos nos dizeres do cartão:

– Bentinho, você está confundindo topografia com caligrafia e posto artesiano com parto cesariano. Você fugiu da escola? O que está escrito aqui é o seguinte: “Bentinho, participo-te o nascimento do meu filho, o Sigismundo.” Tinha razão o seu pai, o velho Agripino, quando recomendava a você que alisasse mais o banco na escola do Mestre Candinho.

O Bentinho da Samambaia coçou o rosto:

– É!… De-veras, o velho Agripino me recomendava isso. E também: – “Bento, se de tudo você vier um dia a pensar em deixar a lida da roça, então aprenda primeiro o ofício de pedreiro, ainda que não seja um pedreiro inteirado e sim um meia-colher, porque na reconstrução da Europa, depois de acabar a guerra, você vai ficar podre de rico.”

O Doutor Alonsinho franziu a testa:

– Bentinho, qual é o animal que faz cocô em forma de grão de café?

– Cabrito, uai!

– Em forma de bolinho do tamanho de um ovo?

– Cavalo, ora pois!

– E em forma de uma broa?

– Cuá! Só pode ser boi.

– E em que dia, mês e ano Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil?

– Ah! Isso lá eu vou saber, doutor?!

– Você só entende é de cocô mesmo! E fique sabendo que a pessoa que não aprende a escrita e a leitura torna-se desconfiada, a ponto de deixar passar a oportunidade de ganhar dinheiro.

O Bentinho da Samambaia mudou de assunto:

– Doutor, aquele de peito estufado que vai indo ali na frente, de chapéu de aba larga, lenço vermelho no pescoço e botas de cano como sanfona, é o Já Caiu. Hi-hi-hi!… Explico melhor, é o Lindolfinho das Cachebras, mas só é conhecido pelo apelido, desde certa vez num rodeio na cidade de Cláudio, com a tropa do Zé Capitão, fazendeirão lá das bandas de Divinópolis. Antes de montar na égua Pinga Fogo, o Lindolfinho das Cachebras virou para a assistência e acenou o chapelão de aba larga: – “Vou fazer esta égua pingar fogo de suor e dançar no compasso do estalo da minha tala.”

O Bentinho da Samambaia voltou a ajeitar a correia:

– Êta diaba de calça que não pára no lugar! A gente sunga, sunga, e não adianta. Ãh? E daí? Daí que o Lindolfinho das Cachebras caminhou pomposo para o meio do campinho onde a Pinga Fogo estava arreada, laçada, sugigada pelo Quinquim Barba e dois capatazes do Coronel Quinto Tolentino. Parecendo ter o rei na barriga, o Lindolfinho das Cachebras montou nela e ficou acenando o chapelão de aba larga para Deus e todo o mundo e contando farofa: – “Ah, eguinha mixuruca e pangaré, agora é que você vai conhecer um peão bamba!” Atrás de um funilão, o Múcio da Dona Quita animava o peão: – “O Zé Capitão oferece cincoenta contos de réis para o Lindolfinho das Cachebras, se ele conseguir segurar os pulos da Pinga Fogo. Fulano oferece tanto. Beltrano oferece tanto. Sicrano oferece tanto.” E o Múcio da Dona Quita anunciou com todo o rompante: – “Agora, vai montar na Égua Pinga Fogo o …” O Quinquim Barba e os dois capatazes soltaram a bicha e o Múcio da Dona Quita completou: – “Já caiu!”

O Bentinho da Samambaia enfiou a barra da camisa por dentro da calça:

– Enquanto o Lindolfinho estava batendo a poeira da roupa, cheguei perto dele: – “Você machucou?” Com cara de tatu que caiu da garupa, ele ficou me olhando com os olhos parados: – “Eu não e você?” Ora! Que pergunta mais estonteada. Então eu estava bancando o peão? Olhei sério para ele: – “Você deu uma pirueta muito esquisita. Achei até que você tivesse quebrado o pescoço.” Ele me encarou de cara fechada: – “Deixe de ser bobo, sô, porque cada um cai do cavalo como quer! E fique sabendo que, até para cair, o peão precisa de ter a sua destreza!” Deixei para lá. Daí que ele passou a ser conhecido só por Já Caiu.

Já passando em frente da Capela do Rosário o Bentinho da Samambaia tirou o chapéu de palha, fez o em-nome-do-padre e reajeitou a calça:

– Doutor Alonsinho, este “causo” puxou outro na minha idéia. Naquele tempo, eu costumava vir cá para o Arraial do Empanturrado no fim de semana. E ficava sapeando na alfaiataria do Dico. Como o Dico tinha sempre que dar umas saidinhas, eu ficava tomando conta da alfaiataria para ele. Até passar ferro de brasa nuns panos eu passava. Certo dia, lá estava eu, quando apareceu lá um viajante de tipo prosa, pândego e gorducho e me perguntou onde era o negócio do Vivico da Venda. Expliquei para ele e, de troça, recomendei que falasse gritado com o Vivico, porque ele era surdo que nem uma porteira. Na hora, até inventei um “causo” e contei para ele, que certa vez o Vivico, quando estava com a mulher perrengue e desenganada, estava xingando no mandiocal no fundo da horta da casa dele, porque uma porca tinha fuçado por lá. Disse até que encomendei ao Vivico para colocar uma peia ou forquilha como canga na fujona. E que, no outro dia, passando pelo mesmo lugar, lá estava de novo o Vivico. Que então perguntei como ia passando a comadre, a mulher dele. E ele, que por ser surdo que nem tiú, achou que eu estava perguntando pela porca, me respondeu: – “Não usei nem peia e nem forquilha. Preferi capar e colocar a bicha no chiqueiro de engorda.”

O Bentinho da Samambaia tirou do bolso traseiro um lenço e passou na testa:

– Assim que o viajante saiu, passei em frente da venda do Vivico. Então, expliquei para ele que acabava de sair da alfaiataria um viajante procurando a venda dele. E recomendei ao Vivico que o mesmo era muito surdo e que conversasse gritado com ele. Fiquei imaginando a gritaria que os dois iam arrumar. Mais tarde, eu estava soprando atrás do ferro de brasa na alfaiataria do Dico, quando voltou o viajante gorducho, alegre e pândego e me apertou a mão: – “O senhor está de parabéns, porque, andando pelo arraial, só li letreiros escritos com erro: Bazar Ção Pedro, Pharmácia Bom Jezus…” O gorducho passou as palmas das mãos na barrigaça: – “Daí que voltei para a ospedaria, sem h mesmo e resolvi dar um prêmio de quinhentos mangos para o dono do letreiro que estivesse escrito corretamente. E o único que encontrei certo foi o do senhor. Portanto, a Alfaiataria Águia de Ouro está de parabéns. Então, aqui está o prêmio, a pelega.” Pensei comigo: – “O que ele está querendo é tirar desforra do trote, pois deve ter gritado tanto no ouvido do Vivico e o Vivico no dele, até que descobrissem a minha malasartice.” Virei para o viajante: – “Aqui mais aqui para o senhor! O senhor está querendo troçar comigo, porque o nome certo é Alfaiataria Agúia de Ouro.” Ele arregalou os olhos: – “Agulha?!” Fechei a cara para ele? – “Não. Agúia mesmo, porque cada um cai do cavalo como quer.”

(David de Carvalho, ensaísta, contista, pesquisador. Itaúna, MG. Colaboração enviada por  A. Carlos)


Colaborações

A. Carlos – Bentinho da Samambaia – Cada um cai do cavalo como quer – um causo de David de Carvalho.
Andréia Nery – Benzeduras
Guilhermino de Oliveira Filho – Noite de São João
Itamar Rabelo – Uirapuru.
Lia Marchi – A montanha
Edith Lacerda – Ticumbi
Lenise Resende – Herança
Thelma Regina Siqueira Linhares – Folclore e eu
Virgínia Allan – Duas histórias de assombração
João Rodrigues Barbosa Filho – O guzerá
Gilvan Chaves, Junior – Bem-vindo seja, nortista, uma matutada de Gilvan Chaves
Peter O’Sagae – Folclore
JPVeiga – A linhagem da Cobra Grande
Gutenberg Costa – Agosto: mês de desgraça e desgosto!
Gutenberg Costa – Rezadeiras do Rio Grande do Norte
José Eduardo Ribeiro Moretzsohn – Porrinha
Valéria de Paula – Índios e cantigas
Família Garcia – Seleção de parlendas e adivinhas.
Maria Elisa Guimarães– Um estranho acontecimento narrado por Ana Suzuki
Nara Limeira – Entre o chão e o chinelo: o chiado em dança e percussão.
Rogério Duarte – A mula-sem-cabeça
Luiz Guimarães Gomes de Sá – Frevo, no coração e no pé
Cassiano Santana – Depoimento

 

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