Setembro
2000
Ano III - nº 25 |
|
- Que está você a vender ?
- Orações, sim senhor.
- Novas ?
- Uma nova, sim - a oração dos nove.
Era num canto de rua, por uma tarde de chuva. O pobre garoto, muito magro, com o pescoço
muito comprido, sobraçava o maço de orações, a sorrir.
- Mas, criatura, a oração dos nove foi desmoralizada !
- E agora é que se vende mais. Olhe, eu hoje vendi quatrocentos folhetos. Só de oração
dos nove, trezentos e vinte e cinco.
Eu acredito nos prodígios. É uma opinião individual mas definitiva. Se a oração dos
nove, depois de assustar toda a cidade e de incomodar o arcebispo, ainda continuava com um
tão grande número de crentes, era porque tinha prodigiosas virtudes. Comprei a oração
e estuguei o passo. Que é afinal uma oração? É um levantamento da alma a Deus com
desejo de o servir e gozar, e São João de Damasco já a definia um pedido de coisas
convenientes, com medo de que os fiéis pedissem também inconveniências. Aquele menino
magro, naquela esquina de rua, era um dos insignificantes agentes desse tremendo micróbio
da alma.
Si l'on croit les savants
Pour qui toute la Nature
N'est qu'un bouillon de culture
Mortel aux pauvres vivants
Quantas orações andam por aí impressas em folhetinhos maus, vendidas nas grandes
livrarias e nos alfarrabistas, exportadas para a província em grossos maços, ou
simplesmente manuscritas, de mão em mão, amarradas ao pescoço dos mortais em forma de
breve! Há nessa estranha literatura edições raras, exemplares únicos que se compram a
peso de ouro; orações árabes dos negros muçulmins, cuja tradução não se vende nem
por cinqüenta mil réis; orações de pragas africanas, para dizer três vezes com um obi
na boca; orações para todas as coisas possíveis e impossíveis. O homem é o animal que
acredita - principalmente no absurdo. Levei muito tempo a colecionar essas súplicas
bizarras. Há mais de mil: de São Bento, de Santa Luzia, de Santa Helena, Monserrate,
São João Batista, Milagre de Jesus Cristo, Maria Eterna, Santa Bárbara, Menino Deus,
Santa Catarina, Senhora do Socorro, Santa Teresa, Santo Antônio, São Jorge, Nossa
Senhora da Guia, São Marcos, São Benedito, Santo Sepulcro, Nossa Senhora do Rosário, Magnificat,
Anjo Custódio, São Lourenço, São Joaquim, Santo Estevão, Bom Parto, Anunciação para
defumar a casa, Santa Filomena, Conceição, São Roque, São Sebastião, Santo
Anastácio, São Simão, Menino Deus contra o sol e o mar salgado, Maria Madalena, Dores,
São Pedro e São Paulo, Santo Emídio, São Tiago pelos agonizantes, Sonhos de Nossa
Senhora, Juízo Divinal, Perdão Eterno, Senhor dos Passos, São Cosme e São Damião,
Nossa Senhora da Glória, que sei eu? Há até orações a santos que o papa desconhece e
nunca foram canonizados, como a oração de São Gurmim, boa para a dor de calos, e a de
Santa Puiúna, infalível nas nevralgias. Os homens vivem no mistério das palavras
conciliadoras.
Antes de nascer tem logo a oração do Bom Parto, em que se suplica à Virgem, apelando
para o nascimento de Jesus, um bom sucesso. Toda mulher que trouxer consigo uma oração
no pescoço, rezando todos os dias sete ave-marias, e uma salve-rainha, sete dias antes de
parir, terá sempre junto a seu leito a Virgem Santíssima do Bom Parto.
Acompanham-na a oração para a dentição e a de Nossa Senhora dos Remédios, logo depois
de nascido. Quando já fala, decora a oração para ao deitar na cama: "Nesta
cama me deito, desta cama me levanto, a Virgem Nossa Senhora me cubra com o seu manto. Se
eu coberto com ele for não terei medo nem pavor, nem cousa deste ou outro mundo for"
e a oração para levantar da cama, que se pronuncia mesmo ao ruminar os mais
horrendos delitos.
Depois começam os contratos extravagantes, as rezas covardes em que se lisonjeia os
santos para obter deles altos favores e até clamorosas maldades. Têm a forma de
padre-nossos, são às vezes assinadas por homenzinhos que as precedem de palavras
contando o milagre do seu achado. Não há em todo esse baixo mundo de crença uma
oração inteiramente altruística ou desfeita dos egoísmos terrenos. Só duas existem
defendendo apenas a Igreja- a de São Pedro e São Paulo e a de São Miguel, que por sinal
começa neste violento estilo:
Ó arcanjo S. Miguel, meu poderoso protetor, a quem Deus Onipotente encarregou a defesa
geral de todos os homens, apesar de terem o Anjo da Guarda, e que sois capitão dos nove
casos angélicos, cuja prerrogativa me animo a suplicar-vos que me perdoeis o atrevimento
com que vos falo apontando-vos a relaxação, atrevimento, altivez e desenvoltura, falta
de religião e vícios de que estão possuídos os corações cristãos...
As outras pedem pelo menos o céu, e estão neste caso modesto a do Rosário e a de São
Benedito. Os autores, porém, prudentemente, numa nota à parte, comunicam aos crentes os
bens de tais rezas:
Quem usar desta oração e rezar com viva fé, ao menos uma vez por semana, não será
mordido por cão danado; se for à guerra não morrerá nem será vencido, não se
afogará nem morrerá queimado, sua casa estará em paz, tudo lhe irá bem, os invejosos,
os maus olhos, os mal intencionados, nem os que usam de maléficos e feitiçarias lhe
farão dano algum.
E ainda por cima, se rezar umas ave-marias, terá indulgências.
As outras são verdadeiros requerimentos ou cartas de empenho. O sujeito reza como vai
ao Ministro do Interior pedir um lugar de guarda-civil. A bajulação é quase idêntica.
Diante do altar, a humanidade trata de viver da mesma maneira por que vive diante dos
césares, dos senhores feudais ou do chefe-de-polícia
Ó incomparável Senhora da Conceição Aparecida, mãe de meu Deus, Rainha dos Anjos,
Advogada dos Pecadores. Refúgio e Consolação dos Aflitos e dos Atribulados, ó Virgem
Santíssima cheia de bondade, lançai sobre nós um olhar favorável.
E como um poeta sem emprego diante de um oligarca estadual:
Lembrai- vos, Clementíssima Mãe Aparecida, não constar de todos que a vós têm
recorrido e implorado vossa singular proteção, fosse por vós algum abandonado. Animado
por esta confiança, a vós recorro e vos tomo de hoje para sempre por minha mãe, minha
protetora, minha consolação, meu guia...
Algumas, talvez duvidando do poder dos santos no ócio perpétuo do paraíso, vão
diretamente a Deus, levando-os como simples advogados. Há, por exemplo, a oração de
São Elesbão e Santa Efigênia reunidas não sei por quê. Pois bem. A oração começa
assim:
Atendei, ó Deus Onipotente, às nossas súplicas, e porque nos confessar réus de muitos
pecados, permiti que sejamos absolvidos deles pelas intercessões dos gloriosos mártires
São Elesbão e Santa Efigênia e que o precioso sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo
fiquemos lavado e relavado das nossas culpas; limpo e puro mais do que quando nascemos.
Esta petição é um modelo de lisonjearia, de adulação, de humildade postiça, de
engrossamento ao velho potentado de todos os tempos, infinitamente multiplicado nesta
democrática época de potentados! É o supra-sumo do rés-do-chão, é a flor perfeita da
maneira de pedir!
Não são, entretanto, Santa Efigênia e São Elesbão os únicos atirados ao secundário
papel de advogados, São Jerônimo contra os tremores subterrâneos, também o é, tendo
como compensação um hino.
Jerônimo santo, máximo penitente,
Rogai por nós a Deus eficazmente.
Jerônimo santo, sábio e forte,
Assiste-nos agora e na hora da morte.
E São Simão, que livra do raio, não faz outra coisa senão pedir a Deus que fulmine
apenas os pára-raios, e Santa Bárbara, coitada, logo que começa a trovejar tem que
pedir a Deus menos barulho para não ouvir este hino fantástico:
Salve, virgem gloriosa
E Bárbara generosa
Do Paraíso fresca Rosa
Lírio de Castidade
Salve ó virgem toda formosa
Lavada na fonte da Castidade.
Mas as orações são antes de tudo um meio de remediar o mal. Que faz a oração de São
Luís Gonzaga, praticada pelas meninas do Rio desde o tempo em que a rua Teófilo Otoni
era musicalmente a rua das Violas? Remedeia os males de amor. Quando uma rapariga cai de
joelhos e soluça:
Ó Luís santo, adorado de angélicos costumes, eu, indigníssima devota vossa, vos
recomendo singularmente a castidade da minha alma e do meu corpo. Rogo por vossa angélica
pureza que intercedais por mim ante o Cordeiro Imaculado Cristo Jesus e Sua Mãe
Santíssima Virgem e que me preserveis de todo o passado grave, não permitindo que eu
saia manchada com alguma nódoa de impureza...
Podeis ter a certeza, ó mortais, que a tentação anda no coração da donzela de tal
forma que São Luís, apesar de angélico e santo, chegará fatalmente tarde para salvar.
E assim uma velha senhora solteira que recitar convictamente a oração de São Lourenço:
Onipotente Deus, que ao Vosso bem-aventurado mártir São Lourenço destes esforços para
triunfar dos incêndios e dos tormentos, concedei que se extingua em nós o fogo...
Ah ! Deus de bondade! esta pobre senhora, assim velha e assim solteira está muito mal!
São Luís e São Lourenço, entretanto, gozam de relativa liberdade de vir quando querem.
Santo Onofre porém, pequeno e barbadinho, vive estrangulado no cós das saias das
senhoras para ouvir todas as manhãs esta suprema ironia súplice:
Meu glorioso Santo Onofre bispo, confessor de meu senhor Jesus Cristo, em Roma fostes aos
pés do padre santo vos ajoelhar, pedistes pão para as solteiras, pão para as casadas,
pão para as viúvas, pão para as donzelas. Pedi para mim também que sou sua inquilina.
Meu glorioso Santo Onofre, vos peço que me deis comida para comer, roupa para vestir,
dinheiro para gastar e graça para vos servir. Amém!
E Santo Onofre não protesta, não grita, não foge, como São Silvestre, educado na
humildade evangélica, tolera este lamentável pedido:
Valha-me o Senhor São Silvestre, pelas três camisas que veste, no ano de trinta e sete,
matastes e feristes e abrandastes os corações dos mouros, as bocas das serpentes. Assim
eu abrandarei o coração dos meus inimigos que venham ajoelhar-se aos meus pés, porque
Deus que é Deus pode e acaba com tudo que quer, traga teu coração debaixo de teu pé
esquerdo...
Que diz o venerável santo a esse coração sem concordância pronominal metido
miseravelmente debaixo de um pé? Talvez nem saiba a mísera crendice, e ande lá por cima
no azul, esquecido da maldade humana... As almas, apesar de benditas, porém, já por aqui
andaram, já sentiram o amor, o ciúme e o medo, e a oração que as incensa é também
velhaca e cheia de sandices:
Minhas almas santas benditas, aquelas que são do mesmo senhor Jesus Cristo, por aquelas
que morreram enforcadas, por aquelas três almas que morreram degoladas, por aquelas três
almas que morreram a ferro frio, juntas todas três, todas seis a todas nove, para darem
três pancadas no coração dos inimigos, que eles ficarão humildes a mim debaixo de paz
e consolação, a ponto de terem olhos e não me ver, pernas e não me alcançarem,
braços e não me agarrarem - para sempre e sem fim.
Os homens, à solta, no recanto das alcovas deliram calmamente. Há gente que antes de
sair reza a oração de São Jorge, para não ser ofendida pelos seus inimigos, e a de
Santa Catarina para alcançar o perdão dos pecados; há senhoras que aspergem os cantos
da casa com água benta, dizendo a oração de bênção das casas que consta de 382
palavras, e oração de Santo Anastácio contra os demônios; há seres pensantes que
trazem ao pescoço a oração de São Roberto contra os feitiços, oração que, segundo o
editor, estava junto a uma "milagrosa carta, achada em um lugar três léguas
distante de São Marcos, escrita com letras de ouro e pela mão de Deus Nosso Senhor,
Filho da Virgem Maria!"
É pois natural que as almas não se ofendam com um mau pedido e que São Marcos - pobre
santo! sorria quando ouvia à meia-noite esta tremenda oração brava, que lembra
as cenas de enfeitiçamento medievo:
Chamo São Marcos e São Manços e seu confidente o anjo mau em meu auxílio para se
apoderar do meu espírito e vida, juntamente com a pessoa que desejo fazer o mal, ou bem e
com o dedo polegar da mão esquerda faço três vezes o Sinal da Cruz e com uma faca de
ponta espetada na porta da rua ou mesa, com um lenço ou guardanapo bem alvo direi as
seguintes palavras: Cristo morreu, Cristo sofreu, Cristo padeceu: assim peço-vos meu
Glorioso São Marcos e São Manços que sofra e padeça os maiores tormentos e torturas
deste mundo a pessoa que eu quero para mim e pegando na faca com toda a fé e coragem que
dá esta oração darei quatro golpes na porta, ou mesa e pela quarta vez chamarei São
Marcos e São Manços e o anjo mau, para me dar força e coragem de dizer: "Credo em
Cruz" em círculo onde se acha a faca! Amém!"
Oh! o poder da palavra pronunciada misteriosamente! Os homens de todos os países, de
todas as terras têm-lhe um terror sagrado. Essas orações ainda guardam um sentido mais
ou menos claro. A maior parte porém é um estranho jogo de disparates, uma trapalhada
alucinante. Há uma oração contra o sol, que ao lê-la sente a gente a vertigem do
desequilíbrio:
Deus quando pelo mundo andou muito sol e calor apanhou, encontrou com Nossa Senhora com
que o sol se tiraria com um guardanapo de olhos e copo d'água fria. Sim, como falo
verdade torna o sol a seu lugar, vai esta Senhora pelo mar abaixo com o copinho de água
fria, o mal que ela tem no corpo e na cabeça tire de Deus e da Virgem Maria.
É exatamente a maneira rítmica, o disparate deduzido dos literatos do Hospício e até
hoje, se eu percebi tais palavras são contra o calor, não me foi possível ainda saber o
que quer dizer esta formidável oração do mar sagrado:
Mar sagrado, eu te venho salvar, a tua água te venho pedir para fortuna por Deus para
minha casa levar; para que me dê ouro para guardar e prata para gastar, cobre para dar
aos pobres.
Como exemplo de estilo desvairado há, entretanto, outras quase tão lindas como as
poesias nefelibatas, pela sua dolorosa e obtusa ingenuidade. Está neste caso O perdão
eterno.
São José caminhava com a Virgem Maria
Tanto caminha de noite como de dia
Abre a porta porteiro
Que aqui está a Virgem Maria
Não quis parir na cama
Nem na cortina
Pariu na manjedoura
Onde o bento boi comia.
Desceram os anjos dos céus , cantando Ave Maria
Subiu para o Céu rezando Santa Maria.
O eterno lhe perguntou como ficou a parida?
Ficou coberto de ouro o seu bento filho
E o berço em que ele embalava era de ouro e latão
Aqui se acaba esta santa oração.
Quem esta oração rezar sete sexta-feiras, da paixão,
E outras tantas carnais,
Tem cem anos de perdão,
Se for seu pai, sua mãe, mais toda sua geração.
Há na Ilíada um trecho muito citado e rico de verdades. Homero fala das orações
e diz "As orações são filhas do grande Zeus, filho de Cronos. Capengas, zarolhas,
feiarronas ocupam-se em seguir a Fatalidade. A Fatalidade é robusta e ágil. Vai muito
adiante fazendo aos homens um mal que as orações remedeiam." É destino do homem
rezar, pedir auxílio do desconhecido para o bem e para o mal, é sina deste pobre animal,
mais carregado de trabalhos que qualquer outro bicho da terra ou do mar, ter medo e
desconfiar das próprias forças. A Fatalidade o vai conduzindo por caminhos que são
despenhadeiros à vezes e campos de risos raramente. O homem chora, ergue os olhos para o
azul do céu, a menor de suas ilusões povoa-o de forças invisíveis e fala, e pede, e
suplica. Que importa que diga tolices ou frases lapidares, horrores ou pensamentos suaves?
É preciso remediar a Fatalidade.
E é por isso que enquanto existir na terra um farrapo de humanidade, esse farrapo será
um moinho de orações.
É por isso, talvez, que os vendedores de orações acabam mais ou menos supersticiosos
dessa superstição teimosa que acredita apesar de tudo; é por isso que um pobrezinho
vendedor dessas fantasias do pavor ignorante não sai de casa sem recitar à estrela
dos pastores estas precavidas frases:
Desta casa me aparto em boa paz boa viagem Deus adiante, a bela cruz atrás eu no meio,
altos e montes para mim sejam. Oremos bocas de cães e lobos sejam fechadas, tenham olhos
e não me vejam, tenham pernas e não me sigam tenham boca e não me falem, tenham braços
e não me peguem, tão guardado me vejam como a Virgem Maria guardou o seu amado filho
desde as portas de Belém até Jerusalém. Amém...
(RIO, João do. A
alma encantadora das ruas) |
|