Setembro
2000
Ano III - nº 25 |
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Era uma classe nitidamente distinta das
mais a dos médicos no Recife de ontem.
Se hoje os doutores de curar se misturam com o resto dos mortais a ponto de só serem
reconhecidos pelo anel de grau, antigamente até uma criança os destacaria de longe pelo
tipo, pelo traje, pelo modo de condução.
Um médico nunca deixava de ser um senhor grave, de maneiras policiadas, vestindo um croisé
preto, usando uma cartola espelhante e trazendo no, bolso de cima um termômetro
aparecendo no seu estojo de metal. E, quase sempre, andava num cabriolé.
Fora dessa representação respeitável e reservada, pesada e escura, não havia jeito de
ser médico, a menos que não se quisesse ser tomado a sério. Surgisse um de paletó,
bengalinha, e estava perdido no conceito público. Não entrava numa casa nem para ver um
doente nem na hora da morte.
Um pelintra!
Demais, o médico, com ser o aliviador dos males do corpo, era também o conselheiro nas
doenças do espírito, nos maus bocados da vida, nos descarrilamentos de uma moça, nas
loucuras de um filho, no virar de cabeça de uma esposa.Quando algum entrava num
domicílio não se poderia afirmar tratar-se de uma febre palustre ou de um sarampo,
porque talvez se tratasse de uma filha fugida ou de uma desarmonia do casal.
O amigo de confiança da família intervinha também nesses delicados casos.
Muitos havia que aos clientes antigos e bem amigos não tiravam conta. Contentavam-se com
os presentes nos dias de aniversários ou dos santos do seu nome. Uns botões para punhos,
um relógio de ouro, uma carteira com monograma, um peru, um bolo... Quando não recebiam
uma casa ou um cabriolé.
A visita do médico revestia-se da maior solenidade. Alguém da casa o esperava na janela.
E de repente o aviso:
- Lá vem o Dr. Adrião!
Era o tempo dos doutores Veloso, Ermírio Coutinho, Carneiro da Cunha, Bruno Maia, Santa
Rosa, Pontual, João Paulo, Berardo, Batista de Carvalho, Pereira da Silva, Leopoldo de
Araújo, Barros Carneiro, Raul Azedo, Nunes Carneiro Curio e Silva Ferreira.
Desses antigos médicos ainda vive o Dr.Simões Barbosa, uma das figuras mais cultas e
simpáticas da classe. Quem não se lembra do seu freqüentadíssimo consultório no Largo
do Corpo Santo e da sua intensa clínica domiciliária? Com o fraque bem talhado, o seu
porte de diplomata, o seu boulanger branco, o Dr. Simões se impunha pelos seus
conhecimentos médicos e pelo seu trato social.
O cabriolé parara no portão. Descera o facultativo.
Transpondo o jardim com ares de quem é familiar ao ambiente, abre uma porta, limpa os
pés na capacho de coco com um Entre em letras azuis, tira a cartola, entrega-a à
copeira, abraça a dona da casa, bater no ombro do compadre, afaga os rostos das meninas
que vira nascer e já estavam umas moças feitas. Levam-no em seguida ao quarto do doente,
o Juca.
- Ontem começou com uma dor de cabeça, tremendo, todo encolhido, sem querer brincar...
Demos um chá de salgueiro com acônito, botamos um sinapismo... E a febre subindo. A
noite inteira sem pregar olhos, Por isso hoje Totônio mandou chamar o doutor.
Em roda tudo se prepara. O jarro do lavatório cheio, a bacia de porcelana com água
mudada, a toalha limpa, sabonete novo. E todos de roupas cheirando a baús.
O médico bota o termômetro na axila e tira o relógio do bolso. Enquanto espera,
conversa com os pais. Gaba uns sapotis que recebeu há dias.
Foram aqui do sítio.
Excelentes!
Depois indaga se têm ido ao Santa Isabel. A Companhia dramática é magnífica. O drama João
José esteve soberbo. E A dama das camélias?!
38 e meio. Ausculta o médico. Tussa. Respire alto. A língua? Vamos ver a garganta.
Trazem uma colher de sopa.
Sai do quarto com o compadre. Não é cousa de mais. Uma influenza. E na mesa de jantar
onde já o espera uma folha de papel almaço, um tinteiro e a caneta de pena nova,
receita: óleo de rícino, antipirina, xarope de tolu. Quando se levantar da cama:
emulsão de Kleper.
Cuidado com o vento encanado.
O doutor reabotoa o croisé Aceita um licor de jenipapo feito pela comadre.
Dá ainda uma prozinha. E depois faz despedidas. Novo abraço na dona de casa que lhe
pergunta:
- Ele pode tomar um caldozinho de galinha?
- Hoje, não. Somente chá com torradas. Deixe passar a febre.
Bota a cartola e sai.
O cabriolé roda à primeira chicotada do boleeiro.
Sinhá Generosa, que criou o Juca, diz para antiga patroa:
- Não vai só atrás de médico, não, D. Iaiá. Dê ao menino, também, uns gargarejos
de tansagem...
(SETTE, Mário. Maxambombas e maracatus) |
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