Setembro
2000
Ano III - nº 25 |
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Os portugueses
encontraram na Índia uma pequena balsa denominada Janga. Três a quatro paus
amarrados com fibras vegetais ou seguros por madeira em forma de grade.
O nome era dravidiano, do tâmil, tâmul ou timul, popularizado pelos malaios. Os
portugueses escreveram Janga (Gonçalves Viana) ou mais propriamente Jangá
(monsenhor Sebastião Rodolfo Delgado) e ainda Changgah e Xanga.
Jangada (Changadam) é a Janga de maior porte, com cinco e seis paus roliços. Os
portugueses encontraram a Jangada nas lutas pelo domínio nas Índias Orientais e
divulgaram o vocábulo.
A Jangada, leve, rápida, eficiente, trazia guerreiros que afrontavam as caravelas de
Portugal.
Vendo a Piperi ou a Igapeba indígenas no Brasil, iguais à jangada
oriental, passaram para elas o nome já familiar e registado nos clássicos quinhentistas.
Damião de Góes (1502-1574), na Crônica do rei dom Manuel, escrita de 1558 a
1567, menciona várias vezes a Jangada dos mares da Índia em pleno teatro guerreiro:
"Chegada a frota que era cousa medonha de ver, as balsas de fogo guiadas pela
corrente, e barcos de que as empuxavam com varas, foram cair sobelos mastros que estavam
encadeados, e ancorados diante das caravelas, as quais pela distância não fez o fogo
nenhum dano, mas antes em quanto ardeu tiveram os nossos algum repouso, por que os
inimigos com medo dela não ousavam de se chegar mas como cessou todos los paraos, e
outros navios, se começaram de chegar para a nossa jangada, tirando com a
artilharia as caravelas, ao que os nossos lhe respondiam, arrombando alguns dos seus
navios, em que lhes mataram muita gente". Damião de Góes, Crônica do rei dom
Manuel, parte I, capítulo 91.
"A multidão dos inimigos era tanta que se embaraçavam uns com os outros, com tudo,
a jangada dos vinte paros, que vinham encadeados, se adiantou de toda a frota chegando-se
pera nossa caravela, e bateis, tirando muitas bombardadas, com que davam assas de trabalho
aos nossos". Idem, parte I, capítulo 86.
"Mas havendo já bom pedaço, de uma e da outra parte servira a artilharia, de
maneira que com o fumo, e fogo da pólvora se nam viam uns aos outros, mandou Duarte
Pacheco tirar com um camelo que tinham nam descarregara, o que se fez em tam boa hora, que
do segundo tiro desmanchou de todo a jangada, arrombando quatro paraos que logo se
foram ao fundo". Idem.
"Uma bastida de paus, a modo de jangada". Idem, f. 70, col. 3.
Bastida foi um nome portugês da Jangada, possivelmente anterior ao conhecimento da
verdadeira nas Índias Orientais. Foi verbete corrente nos velhos vocanulários e frei
Joaquim de Santa Rosa de Viterbo recolheu-o no Elucidário das palavras, termos e
frases que em Portugal antigamente se usaram e que hoje regularmente se ignoram na sua
princeps de 1798-1799: "... mas também se deu o mesmo nome [Bastida] a
uma balsa, ou jangada de muitos paus presos, e ligados entre si". (vol. I, p. 128,
Lisboa, 1865)
A Bastida terreste era o torreão de paus entrançados, a estacada coroada por cimeira
fechada e daí seu sinônimo francês de Bastilha. Nágua caracterizava-se a
tábua ou pau transversal, segurando os troncos. Uma ou mais destas travessas dariam
idéia da grade e assim registam nos dicionários de ontem e de agora.
A primeira acepção foi a construção improvisada na hora do naufrágio e assim frei
João dos Santos, Etiópia Oriental, 2º, 128, escrevia em 1586: " Os
terceiros se salvaram em uma jangada, que fizeram sobre os baixos da madeira da nau, e de
tábuas de caixões". Mas no Brasil, um ano depois, já Gabriel Soares de Souza
empregava o vocábulo ligado às igarapebas e piperis que via no mar e nos rios.
Da origem não há mais disputa e João Ribeiro fixou o assunto em linhas definitivas:
" A jangada é de origem asiática, Na Índia os ingleses chamam-na jangar e o
termo deriva da língua malaiala xangadam e mais remotamente do sânscrito sanghata,
com o sentido de ligagem ou união de tábuas flutuantes ou de canoas ajougadas. Os
portugueses que serviam na Índia e no Brasil para cá trouxeram o vocabulário, que
correspondia perfeitamente à igarapeba dos tupis do norte, entre a Bahia e o
Maranhão". Curiosidades verbais, 188.
Paulino Nogueira (1842-1908) estudando o Vocabulário indígena em uso na província
do Ceará com explicações etimológicas, ortográficas, topográficas, históricas,
terapêuticas, etc. (Revista do Instituto do Ceará, ano I, 4º trimestre, 1887)
sugeriu a origem do nheengatu. Parte de uma forma convencional ñan-ig-ára,
passando por yan-ig-ára e chegando a jan-ig-ára, dando, na prosódia
portugesa a jangada, valendo aquilo que corre nágua. Foi apenas
tentativa nacionalista do erudito estudioso cearense sem possibilidade de repercussão
lógica.
No primeiro registo por mão européia Pero Vaz de Caminha denomina-a almadia em
abril de 1500. Em 1557 Jean de Léry dava-lhe nome local de Piperi, boiando nas
águas da Guanabara. Antes de 1570 Pero de Magalhães Gandavo indicava o título atual: vão
pescar pela costa em jangada...
E esta jangada ficou vencendo a nomenclatura tupi do litoral.
Além da piperi e da igarapeba ou igapeba, formas desaparecidas na
linguagem usual, existe o cadandu, jangada velha, verbetizado pelo tenente Alberto
Vasconcelos no seu Dicionário de ictiologia e pesca, (recife, 1938).
Os nomes conhecidos são:
Jangada, Jangada-de-vela, Jangada do alto.
Paquete, Jangada menor.
Ximbelo, Jangada com dimensões inferiores ao Paquete. De madeira aproveitada.
Bote ou Catraia, Jangadinha.
Burrinha, Jangada pequena. "As jangadas pequenas, que usam de uma só vela,
são chamadas burrinhas", Almirante Alves Câmara, Ensino sobre as
construções navais indígenas do Brasil. 1888, segunda edição em São Paulo, 1937,
p. 29.
Candandu, Jangada velha (Alberto Vasconcelos).
Igapeba, citada em Marcgrav, Johann Nieuhof, etc. século XVII.
Piperis, citada em Jean de Léry (século XVI).
Catre, espécie de jangada (Alberto Vasconcelos).
Caçoeira, pequena jangada que leva a rede caçoeira em pesca noturna.
(CASCUDO, Luís da Câmara. Jangada; uma pesquisa
etnográfica) |
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