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Setembro 2000
Ano III - nº 25

 

O SERINGUEIRO
(do cantador Caninana, Ceará)

Eu vou ver se introduzo
A vida do seringueiro
De noite está na barraca
De dia está na madeira

Vou principiar minha vida
Dês que me dispus a embarcar
Saí do centro e segui
Pro hotel no Ceará

Luxei, bebi, passei bem
Foi a vida irregulá
Achei uma diferença
Perto da beira da praia
No dia de me embarcar:

A maré cheia demais
Pegou o dia a ventar
O mar se encheu de calombos
Começou bote a virar
Isto é contrariedade
De quem dispôe-se a embarcar

Como é o embarque em vapor
Como eu hei de contar
Que a comida é muito ruim
Mas pior é enjoar

Já principei a viagem
Vou deixar ela de mão
Vou principiar de novo
Chegando no barracão:
Cresce a saúde e a amizade
Encontrando um bom patrão

Agora vou me avisar
Do que tenho precisão
Da jabá e do arroz
Da farinha e do feijão

Mosquiteiro para o sono...
Do café e do bulhão
Uma dúzia de tigelas
Feche-me a conta, patrão

de manhã saí à estrada
Sem nela saber andar
Com a machadinha na mão
Corta aqui, corta acolá
Colocando as tigelinhas
Cada qual no seu lugar

À tarde volto à barraca
Sem descanso ao coração
Num braço conduzo um rifle
No outro levo o bulhão

A vida não é tão boa
Quem quiser vá experimentar
Se o colher é muito ruim
Mais pior é o defumar
Ainda cortar o cavaco
E depois ir mariscar

Quando ele alcança saúde
Vê a sorte em quanto dá
Colhe todos seus trabalhos
Sai sua conta legal

Mas quando dá o caiporismo
Em tudo bate a sezão
O beribéri aparece
Incha perna e incha mão

Dá o golpe com a machadinha
Não vê leite gotejar
Cavaco ele não encontra
E nem aonde mariscar

pinhum, dá moriçoca
Encontra o paço jacaré
Perdido na mata, encontra
O choque do poraquê

Com beribéri nas pernas
Já não pode mais andar
Dá sezão e muda a cor
Olhe o bucho pra acolá

Improviso estas coisas
Que se dá com o seringueiro
Perdeu cor, perdeu saúde
Perdeu crédito e dinheiro

Agora quanto a chegada
Quando vai pro Ceará
O resultado é o vexame
O rebuliço que há

Valentim e seu Nogueira
João Martins e Ponciano
Antônio Ferreira e Barroso
É quem se vê nos vexames
Tratando destes doentes
De moléstia tão tirana

Mas algum hotel que há
Passam por estes tormentos
Sem ter maior resultado
Passando por inocentes

Sem receber os dinheiros
Sem ter nenhum pagamento
Dá saúde a todos eles
Salvando estes doentes
O hotel do Ceará
É quem passa esses tormentos


(CARVALHO, Rodrigues de. Cancioneiro do norte)

 

Vocabulário:

Estar na madeira:
o mesmo que estar cortando a seringueira.

Centro: interior do estado.

Calombos: ondulações da água.

Deixar de mão: abandonar.

Jabá: carne seca do sul, charque.

Bulhão: Vaso de guardar o leite da seringueira.

Colher: Colher o leite.

Defumar: o processo de passar na fumaça o leite a coagular-se.

Mariscar: pescar.

Pinhum: mosquito de grande ferrão.

Passo: quer dizer o bicho.

Poraquê: Peixe elétrico do Amazonas.

 

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