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Setembro 2000
Ano III - nº 25

 

A PESCA COM O BOTO

Um dos fatos que a meu ver, caracteriza a Laguna, porto de escoamento da produção ao Sul do Estado, é a maneira por que se realiza a pescaria em suas praias e enseadas pelos seus destemidos pescadores.

Quem convive com aquela gente tostada pelo iodo do mar, entregue completamente à pescaria, simples, afável e boa, sente por ela uma enorme simpatia. O seu trabalho se desenvolve de maneira interessante, devido, naturalmente, às certas exigências que o meio requer, a fim de mais rendosa e mais fácil se tornar a sua tarefa. Assim, por exemplo, é o auxílio prestado pelo boto. Não conheço um outro recanto onde esse recurso seja tão do agrado dos pescadores como na Laguna. Eis como se processa a pescaria: os botos criados dentro da baía vão, aos poucos, tomando contato com os pescadores, chegando mesmo a serem reconhecidos pelo nome, como canivete, miguel, bota-cega, galha cortada, etc... Desse contínuo contato eles vão se amestrando e perdendo o medo que a princípio manifestam ter. Quando se dá o acaso de ser pescado um boto em tenra idade, os pescadores têm o cuidado de fazer-lhe um sinal quase sempre à faca. Em seguida soltam-no e dão-lhe um nome.

O galha-cortada foi um dos que receberam esse brutal batismo, necessário, entretanto, para o seu reconhecimento. Principalmente no começo do inverno, quando há o corso da tainha, é que o trabalho do boto se torna mais apreciável, em virtude da qualidade do peixe. Como é sabido a tainha corseira vem do sul em grandes cardumes e para um estágio e provável desova precisa de água mansa. Por isso, ao encontrar uma lagoa procura esse refúgio, depois de caminhar mais de duzentos quilômetros sem nenhum ambiente favorável. Ao penetrar na barra os pescadores dão-lhe caça e o peixe se dispersa. Esse fato tem provocado muita desavença entre eles, pois o peixe deve ter entrada fácil na lagoa. É depois da entrada do peixe que a ação do boto se torna mais necessária. Os pescadores logo ao amanhecer se agrupam nos pesqueiros, isto é, em lugar onde o peixe possa ser atingido pelas tarrafas sem ser preciso penetrar n'água, pois se isso se der, o peixe será afugentado. Nos dias de inverno, principalmente pela manhã, quando sopra violento o vento sul, é preciso ter-se uma constituição férrea para suportá-lo.Como a praia é despida de qualquer abrigo, mesmo de touceiras, os pescadores constróem seu esconderijo escavando na areia um buraco guarnecido por alguns ramos fincados na crista do morro formado pela sobra da escavação. Esses ramos não só auxiliam a quebra do vento, como não deixam a areia se movimentar. A vestimenta do pescador, em geral, é bastante precária: um velho paletó amarrado com barbante em lugar dos botões, um calção, resto de umas calças que já foram calças, e um chapéu surrado que também serve para guarnecer os cigarros e o fósforo colocados sobre a cabeça. O uso do barbante no lugar dos botões é recomendado para não impedir a manobra da tarrafa e a colocação do cigarro e fósforo sobre a cabeça para não serem facilmente atingidos pela água. Quando o boto surge a uma certa distância, sempre em direção à barra, conduzindo o peixe, fato reconhecido pelo nervosismo com que aflora e novamente se aprofunda n'água, respirando forte e espargindo borrifos pelas narinas, os pescadores se alinham na praia e acompanham-no na sua perseguição. Os peixes perseguidos não têm outro recurso senão procurar o baixio, onde o boto não pode chegar. Este, porém, sente o momento de fazer a batida que nada mais é, senão, um avanço rápido, tomando a dianteira do peixe e, em seguida, imprime um movimento circular envolvente e com a cauda levanta o lodo do fundo do mar, toldando a água.

O objetivo do boto na batida é desnortear o rumo do peixe e com o remoinho provocado, obriga-o a uma parada momentânea, tempo suficiente para apanhá-lo. É nessa ocasião que se ouve o chuáa... das tarrafas atiradas quase ao mesmo tempo, esperando as sobras do boto. Acontecendo, porém, que o boto nada tenha obtido com seu trabalho, procura quase sempre, tirar da tarrafa do pescador o peixe já aprisionado. Aí, então, o pescador entra n'água, joga pedra, faz barulho para espantá-lo, afim de não perder sua presa e ter furada a sua tarrafa. Se, por acaso, o peixe acossado encontrou no seu trajeto um refúgio seguro ou conseguiu escapar-se de forma definitiva, o boto retrocede, isto é, volta para o ponto de partida a espera de nova oportunidade. Nessa ocasião: como para avisar o pescador do seu insucesso, levanta-se encarando-o de frente, como quem o saúda, nadando em sentido contrário. Por várias vezes tem acontecido ser o boto coberto pela tarrafa. Quando isso acontece, são sempre desastrosas as suas conseqüências, pois, a velocidade do seu nado e a força de que dispõe, não permitem tempo ao pescador para tirar do pulso a laçada da fieira. Também, não é fácil a saída do boto de dentro da tarrafa porque, em geral são elas feitas de tecum muito bem fiado, o rufo bastante grande e seguro por fortes tensos, não falando da entralha de boa fibra amparada por uma sólida chumbada. As fieiras são, geralmente, feitas de algodão de três pernas, preparado com muito esmero, sem nós, tanto no olho como no punho.

Muito antes de se falar em filas, já os pescadores da Laguna praticavam-nas com o mais estrito rigor. Aquele que primeiro tomasse lugar na praia para acompanhar o boto no seu trajeto, não teria a sua frente cortada e os que o sucediam na chegada iam se enfileirando numa verdadeira linha sagrada para todos. Nem sempre os melhores situados eram os mais felizes, pois o peixe veloz como é, dá ocasião para que, às vezes, seja apanhado pelo último da fila. O melhor ponto da pescaria com o boto era onde hoje existe o cais de embarque de carvão. Extenso, fundo, permitia aquele local, ao pescador, manobra fácil sem tropelias. Hoje que desapareceu aquela praia de tantas recordações para os velhos pescadores, eles precisam entrar n'água para esperar quieto como um joão-grande, a passagem do boto conduzindo o peixe tão desejado e que constitui o seu ganha-pão.

O boto tem sido o grande amigo do pescador; sem ele a população de Laguna, em certas ocasiões do ano não teria daquele alimento tão saboroso que vive nas águas do mar e que a astúcia do homem sabe, com sua artimanha captar. Algumas vezes o boto gosta de oferecer um espetáculo interessante aos lagunenses. Isso acontece, quando consegue, abocanhar um linguado, estando ele de pança forra.

O espetáculo consiste em manobrar com o pobre prisioneiro, atirando-o a uma altura de talvez superior a 20 metros. Depois espera a sua queda para repetir a cena. Assim brinca pelo espaço suficiente para matar o linguado que, com certeza, não lhe é um dos bocados mais preferidos. A garateia, o espinhal, a linha, a coca, a rede, a fisga, o caniço, a feiticeira, são outros recursos lançados por aqueles pescadores, os quais havemos de focalizar, afim de que, em outras regiões da nossa imensa costa, possam ser aproveitados para dar maior expansão a essa indústria tão sujeita às variações do tempo, das condições do mar e da inteligência desse marinheiro expontâneo que é o nosso destemido pescador.


(AREÃO, João dos Santos. Boletim Trimestral da Sub-Comissão Catarinense de Folclore, dezembro de 1949)

 

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