Setembro
2000
Ano III - nº 25 |
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A ORIGEM DO NOME
DAS AMAZONAS |
É conhecido o conto de Hoffmann, onde um
ingênuo original se diverte construindo uma casa. O processo por ele empregado é de um
idealismo por demais transcendente para resultar em uma obra comum de simples alvenaria. O
homem, um Balzac qualquer das margens do Reno, se pôe a recortar o ar em todos os
sentidos, a medir um prado, e a evocar, por aqui e por ali, muros, portas, janelas,
torres, tudo o que é necessário para realizar um castelo na Espanha e nele jogar uma
pura imaginação de poeta.
Não seguiremos este exemplo, edificando nas nuvens. Traçamos as grandes linhas de nosso
plano. O material está reunido. Comecemos pelos alicerces. escavemos o passado destas
terras.
A primeira pergunta que se faz no início de um trabalho desse gênero, é a da
etimologia.
- De onde vem o nome de Amazonas?
Um helenista, amigo nosso, nos forneceu explicações sobre este curioso assunto de
lingüística:
Os gramáticos, nos disse ele, estão divididos sobre a palavra grega Amazon: gramatici
certain. Uns se baseiam num relato de Diodoro da Sicília sobre as amazonas
asiáticas, que com a idade de dezoito anos, se submetiam a ablação do seio direito para
não serem impedidas de usar suas armas, e fazem derivar seu nome do prefixo a -,
privativo e de mazos, seio. Esta opinião não pode ser sustentada, a não ser que
se tome a expressão sem seio no sentido figurado, designando mulheres que tenham
sacrificado as funções naturais de seu sexo. Com efeito, todas as figuras de amazonas
que possuímos, representadas em vasos antigos, assim como os baixo-relevos do sarcófago
do Museu do Capitólio, representam as guerreiras sármatas sem qualquer mutilação. Seu
busto nada deixa a invejar ao das outras mulheres; bem pelo contrário. Ele se espalha à
vontade sob a clâmide, e o escudo o cobre com dificuldade. As rainhas: Pentesileia, que
socorreu os troianos em suas dificuldades; Antíope, mãe de Hipólito, que atacou Teseu,
rei de Atenas; Talestris, que visitou Alexandre; Tomiris, que matou Ciro, e tantas outras,
que foram as mais belas e as mais corajosas, não eram incomodadas por seu duplo fardo.
Manejavam o arco, a espada, a lança, o machado de dois gumes tão galhardamente quanto
Joana D´Arc ou Joana Hachette. Devemos pois descartar esta versão e procurar outras
fontes...
Certos historiadores pretendem que, bem antes das heroínas da Capadócia que habitavam
às margens do Termodon, - por conseguinte, bem antes do ano 1600 A.C. floresciam
na África mulheres conquistadoras, combatendo duas a duas, unidas por cintos e por
juramento. Essas amazonas negras subjugaram os númides, os etiópios e os atlantas
africanos, americanos ou oceânicos. São chamadas de amazonas, ou seja unidas, ligadas,
do grego ama, denotando união, e zona, cinto. O cinto que usavam era
também guardião de seu voto de virgindade. Foi essa tira de fazenda que criou sua
reputação na história... Prefiro esta explicação à outra, já que tem a vantagem de
melhor nos revelar os costumes primitivos dessas mulheres que os citas chamavam oiorparta,
matadoras de homens... No meu entender, a Amazônia deve sua denominação às amazonas
africanas que a invadiram e povoaram nas épocas pré-históricas, a não ser que lhe
venha simplesmente de seu grande rio, que se desenrola como o zona (cinto) dos
helenos.
Por mais sábia que parecesse, essa explicação não nos satisfez inteiramente, e
continuamos nossa pesquisa.
No século XVI, o maravilhoso ainda reinava. O sobrenatural imbuía todas as
imaginações. Sonhava-se em toda a cristandade. A miséria da época forçava as almas a
se refugiarem nas Tebaidas povoadas de delícias. A feitiçaria tinha invadido tudo. A
alucinação era geral e se misturava ao gênio. Foi o que nos valeu as admiráveis
descobertas do Renascimento. Assim como a alquimia incentivou a ciência da matéria, o
sonho impeliu os homens, através de uma espécie de sonambulismo, a tomar pé em
continentes vagamente entrevistos desde a época de Platão.
Nesse tempo, nas palhoças, contavam-se histórias maravilhosas. Sem sair de perto da
lareira, empreendiam-se viagens fantásticas. O camponês se comprazia em relembrar as
loucas campanhas das cruzadas. Entre seu boi e seu burro, o mundo lhe parecia uma remota
terra prometida.
Havia, além dos mares, no país da Etiópia, um reino banhado em sol. Aí viviam, entre
montes de ouros e vagas de púrpura, um amigo de Deus, um pontífice tão poderoso quanto
Davi, tão rodeado de glória quanto Salomão. Este homem extraordinário era o padre
João, um batizado, que devia espalhar o cristianismo em todo o universo. Este papa in
partibus tinha como vizinho um grande soberano catecúmeno, que ardia por abraçar a
doutrina do evangelho. Tratava-se do grande Kahn na Tartária, forte como Carlos Magno.
Essas narrativas eram aceitas como artigos de fé. Colombo, como sabemos, entusiasmou-se
por elas. Com a cabeça cheia dessas quimeras substituindo a geografia, quis ver essas terras
ocultas. Seu itinerário era tão racional quanto um argumento escolástico. Ele iria,
pelas terras de Verágua, aos estados do misterioso monarca. Em seguida, voltaria de Cuba
por terra, tomando a rota da Etiópia, de Jerusalém e de Jafa. O esquema não apresentava
maiores dificuldades.
A América se encontrava em seu caminho e assim foi descoberta.
Soube-se bem cedo que padre João era um pobre diabo de rei sem maior importância.
O consolo passou a vir de outras lendas.
Existia, em algum lugar, um país atravessado por um mar branco, cujas vagas
rolavam em areias de ouro e calhaus de diamantes. Sua capital, Manoa (note-se, de
passagem, a identidade com o nome da tribo índia Manau ou Manoa, que deu seu nome à
atual capital do estado do Amazonas), era uma grande cidade cheia de palácios. Alguns
eram construídos de pedras ligadas por prata; os tetos de outros eram feitos de lâminas
de ouro. Pisava-se sobre os metais mais preciosos. Manoa era o depósito de todas as
riquezas da Terra. Nela reinava um homem, a quem se dava o nome de le Doré, ou
seja El-Dorado em espanhol, porque seu corpo era coberto de faíscas de ouro, assim
como o céu é cravejado de estrelas.
A loucura da riqueza se apoderava da Europa e substituía as histórias místicas. Essa
nova corrente carregou consigo muita gente.
Gonzalo Pizarro, irmão do conquistador do Peru, Alonso Pizarro, deixou-se tentar. Em
1539, pôs-se à frente de um bando de aventureiros armados até os dentes, amplamente
munidos de provisões, e partiu do Peru à conquista dos escudos e das couraças de ouro,
usadas, segundo a tradição, pelos guerreiros de El-Dorado. A caminho, a uma centena de
léguas de Quito (hoje capital da República do Equador), alistou um soldado da fortuna,
do qual fez, por infelicidade, seu tenente. Esse homem chamava-se Francisco de Orellana.
Caminharam dia e noite, através de florestas e de grandes rios. Alimentavam-se como
podiam, de ervas e frutos selvagens. O cansaço, as febres, as privações dizimaram os
ávidos exploradores. Após muitos meses de lutas e de sofrimentos inauditos, Pizarro e
seus companheiros não tinham conseguido descobrir a cidade encantada com o seu velo de
ouro. Tiveram de se contentar em descobrir algumas pepitas do precioso metal ao longo de
sua rota (alguns pretendem que foram encontrados 50.000 quilos de ouro). Orellana é
encarregado da guarda do tesouro. Ele o carrega num pequeno barco, leva consigo cerca de
cinqüenta homens e parte.
Desce, ao acaso, um rio, o Coca, que o conduz a um grande rio. Sem nenhuma dúvida, estava
navegando no mar branco de ondas prateadas do reino de El-Dorado.
Seu plano estava pronto. Nosso tesoureiro infiel se considera desde então como o
legítimo proprietário de sua carga de ouro. Só se preocupa em ganhar velocidade e se
afastar cada vez mais de seu chefe. O rio era rápido: abandona sem escrúpulos o navio à
correnteza. Dois de seus companheiros lhe observam que talvez estejam navegando
rapidamente demais, e que Pizarro não poderá segui-los. Orellana se desfaz desses
homens, incapazes de compreendê-lo. Ele os deixa sobre a margem, sem armas nem
provisões, em plena floresta virgem. Um desses infelizes era um dominicano, Gaspard de
Carvajal; o outro, um fidalgo de Badajoz, Hernando Sanchez de Vargas.
Porém outros obstáculos se apresentam. As tribos ribeirinhas o atormentam sem cessar com
flechadas. Orellana consegue passar incólume. Enfim, a 26 de agosto de 1541, deixar o Mar
doce, a que dá o seu nome, e que depois foi chamado de rio das Amazonas.
Enquanto o confiante Pizaro, privado de seu ouro, retornava a Quito de mãos vazias, seu
associado, mais feliz, conseguia fazer chegar seus tesouros à Espanha. Fez acreditar a
seus compatriotas que tinha sido atacado por mulheres selvagens, uma espécie de amazonas
louras, que o tinham emboscado a caminho. Contou-lhes a esse respeito histórias
mitológicas, que deram a volta à península.
O germe da lenda estava lançado, e, semeado em bom terreno, ia produzir frutos.
Orellana tornou a partir da Espanha a 11 de maio de 1544, em direção ao Novo Mundo. Foi
menos bem sucedido dessa vez. Como era de justiça, morreu.
A Inglaterra de Jacques I (1603-1625) acreditou nessas lendas, como sabe acreditar em tudo
o que não perturba por demais o equilíbrio de seus interesses, e Raleigh apoiou essas
crenças.
Foi durante o reinado de Elisabeth (1558-1603) que Sir Walter Raleigh começou a ficar
famoso. É por demais conhecida a aventura que lhe atraiu as boas graças da soberana o
seu brilhante papel na América do Norte, onde fundou os primeiros estabelecimentos da
Virgínia, e de onde levou para a Inglaterra, pela primeira vez, o tabaco e a batata.
Durante o reinado de Jacques I, envolveu-se em uma conspiração com Lord Grey e Lord
Cobham, conspiração essa que ficou célebre com o nome de The Main. Seus dois
companheiros foram executados; Sir Walter Raleigh foi processado e, apesar de toda sua
eloqüência e da brilhante resistência ao promotor-geral Edwards Coke, foi declarado
culpado de traição e igualmente condenado à morte. Foi preso na Torre de Londres, onde
permaneceu durante 13 anos, empregando seus lazeres de prisioneiro de Estado a escrever
sua História do Mundo. O duque de Buckingham tentou-lhe obter o perdão. Em 1617,
conseguiu do rei que Raleigh fosse posto em liberdade: este se comprometia a equipar uma
expedição às suas custas e ir descobrir os tesouros do El-Dorado em proveito do rei;
mas devia respeitar os estabelecimentos espanhóis, já que na ocasião se negociava o
casamento de Charles, príncipe de Gales (filho de Jacques I e da princesa Anne, da
Dinamarca) com a Infanta da Espanha. Raleigh partiu para a América do Sul. Não descobriu
o El-Dorado, mas em compensalção, desentendeu-se com os espanhóis, e apoderou-se de
São Tomás; após a revolta de seus homens, voltou inteiramente despojado à Inglaterra.
O embaixador da Espanha exigiu sua punição. Jacques I fez vigorar a antiga condenação
à pena capital, e, a 29 de outubro de 1618, Raleigh subia ao cadafalso e morria como
homem de coragem e espírito, lançando ao carrasco epigramas semelhantes aos que havia
dirigido outrora ao promotor-geral.
Mas ele também, para justificar sua falha e salvar a cabeça, havia falado dos batalhões
de amazonas que guardavam seus tesouros.
Todos aqueles que, desde então, nutriram a fantasia de ver por si mesmos, Jean de Léry e
Gandavo particularmente, não ousaram lançar dúvidas sobre a existência das terríveis
guerreiras. Esses viajantes deviam mentir muito, para dar a aparência de terem ido muito
longe. Não hesitaram em enxertar suas próprias fantasias romanescas em simples dados
fornecidos por seus antecessores.
Gandavo, que tinha alguns conhecimentos da História Antiga, assim traduzia Diodoro de
Sicília:
"Existem, entre as tribos indígenas, algumas índias que fazem votos de permanecer
castas. Não têm nenhum contato com os homens, e preferem morrer a romper seu celibato.
Abandonam todos os ofícios femininos e se entregam a ocupações viris. Usam os cabelos
cortados como homens; vão à guerra e à caça com arcos e flechas. Cada uma tem uma
mulher que a serve, com a qual se diz casada. Esses pares mantêm entre si relações
íntimas como as que existem entre marido e mulher..."
Trata-se certamente de criaturas inseparáveis da África, unidas por um mesmo cinto que
nada têm de casto, as amazonas, em resumo.
Como resistir a tais testemunhos? Evidentemente, pormenores tão precisos não são
inventados. É demasiadamente inverossimil para deixar de ser verdade.
Entretanto, todos esses rumores fantásticos talvez caíssem no esquecimento, se um
autorizado historiador não lhes acrescentasse a autoridade de seu testemunho. O padre
Pedro Cristóbal de Acuña, reitor de Cuenca que acompanhou o capitão Pedro Teixeira na
volta de sua grande exploração do Amazonas, e do qual falaremos mais tarde, fez-se o
verdadeiro disseminador da lenda. Sua boa fé enganou os mais incrédulos; sua ingenuidade
pareceu isenta de toda segunda intenção e de intuito de enganar. Ora, tendo realizado
uma pesquisa de veracitate facti, eis o que relata, com a maior seriedade do mundo,
em seu Nuevo Descubrimiento:
"A trinta e seis léguas abaixo da última aldeia dos tupinambás, descendo o rio
Amazonas, encontra-se ao norte, um rio que vem da província do mesmo nome e que é
conhecido pelos habitantes da região pelo nome de cunuris. Esse rio recebe seu nome das
tribos de índios que habitam perto de sua embocadura. Acima destes se encontram os
apotos, que falam a língua-geral (o tupi-guarani). Depois deles se acham os
tagaris, depois os guacaris, a tribo bem-aventurada que goza dos favores das valentes
amazonas. Os guacaris construíram sua aldeia em montanhas de altura prodigiosa (as
Cordilheiras da Guiana). Entre elas se encontra um monte, chamado tacamiaba, cujo cume se
eleva muito acima dos outros, e que é estéril, porque é incessantemente batido pelos
ventos. Aí, habitam as amazonas.
Essas mulheres vivem sozinhas e se protegem sem a ajuda dos homens. Apenas, em certas
épocas determinadas, recebem a visita de seus vizinhos, os guacaris. Quando estes chegam,
elas correm às armas, temerosas de serem surpreendidas. Mas, logo que reconhecem seus
amigos, precipitam-se em direção aos barcos dos recém-chegados. Cada uma pega uma itamaca
(rede) e vai armá-la em sua casa, esperando os homens. Ao fim de alguns dias, os
hóspedes das amazonas voltam à sua aldeia, não deixando nunca de retornar na próxima
estação. As filhas que nascem dessas uniões são criadas por suas mães. Ensinam-lhes a
trabalhar e a manejar armas. Quanto aos meninos, não se sabe ao certo qual o seu destino.
Ouvi dizer por um índio que, quando jovem, tinha ido com seu pai a um desses encontros,
que as amazonas entregam ao pai, no ano seguinte, o menino nascido da união. Mas
acredita-se geralmente, que esses meninos são mortos. Eu não saberia dar a resposta
certa.
De qualquer forma, essas mulheres possuem tesouros capazes de enriquecer o mundo inteiro.
A barra do rio em cujas margens habitam as amazonas se encontram a 2 graus e meio de
altitude meridional".
O bom padre de Acuña escrevia história a seu modo, entremeando-a de algumas de suas
evocações clássicas. É preciso compulsar Heródoto para encontrar a chave dessa
fértil imaginação. Eis o que escreve o historiador de Helicarnasso que batizou, sem
saber, o maior estado do Brasil:
"Por volta do meio-dia, as amazonas se afastavam do acampamento, sozinhas ou duas a
duas... Os eitas se aperceberam e fizeram o mesmo. Um deles se aproximou de uma dessas
amazonas isoladas e esta, longe de afastá-lo, concedeu-lhe seus favores... O jovem eita,
de volta ao acampamento, contou sua aventura, e no dia seguinte voltou com um companheiro
ao mesmo lugar, onde encontrou a amazona que o esperava com uma companheira. Os outros
jovens, informados do fato, conquistaram assim as outras amazonas, e, reunindo em seguida
os dois acampamentos, permaneceram juntos, e cada um tomou como mulher aquela que primeiro
lhe concedera seus favores... Daí provém que as mulheres saromatas conservaram seus
antigos costumes: elas montam e vão à caça, ora sós ora com seus maridos. Elas os
acompanham à guerra e usam as mesmas roupas que eles..."
Foi portanto a lenda grega que serviu a Orellana, a Raleigh e ao padre Acuña para
construir sua lenda amazônica.
Essas fábulas tinham-se espalhado entre os habitantes da Amazônia, e De La Condamine
propagou-as por toda a Europa no século XVIII.
Hoje, parece fora de dúvida que as amazonas do Brasil jamais existiram da forma que foram
descritas por esses antigos viajantes. O que pôde dar lugar às amplificações de
Francisco Orellana e dos que o seguiram, foi o hábito que grande número de índias
conservou de acompanhar os homens à guerra, de excitá-los ao combate mesmo de tomar
parte nos ataques dirigidos contra povos rivais. Esses costumes índios nos ajudam a
compreender melhor o que eram outrora as mulheres do Termodon.
Já em 1774, Ribeiro de Sampaio observava que os tuturicus, então em franca hostilidade
contra os centros de população fundados no Tocantins, levam suas mulheres à guerra, e
que estas, não só lhe fornecem flechas durante o combate, mas suportam muito bem o fogo
dos brancos. Os otomacas também assim faziam, com a diferença que suas mulheres
apanhavam as flechas inimigas, envenenavam-nas imediatamente, e as entregavam aos maridos
para que as lançassem contra o inimigo. Acrescentava, espirituosamente, que esta fábula
convinha ao espírito dos espanhóis, tão inclinados aos contos maravilhos.
Entretanto, como a história procura sempre explicar a lenda, sustenta-se com seriedade,
ainda hoje, que as amazonas realmente existiram, e tenta-se justificar sua existência
antiga por meio de inscrições lapidares e da máscara de Jurupari.
O Jurupari, hoje considerado pelos índios como um gênio mau, a personificação do
diabo, teria sido, nos tempos pré-históricos, um guerreiro estrangeiro, proveniente, sem
dúvida, das Antilhas para o Amazonas. Na embocadura do rio, teria começado a ter choques
com bandos de mulheres guerreiras, com elas combatendo ao longo do rio. As incrições que
se pode ver ainda hoje em pedras e rochedos, na época em que as águas abaixam,
principalmente na embocadura do Oiapoque ou rio de Vicente Pinzón, em Itacoatiara e no
Rio Negro, são o relato, até hoje não decifrado, de suas vitórias e da derrota das
amazonas. Em seu curso triunfante, o jurupari chegou ao alto rio Negro, após ter
completamente destruído as amazonas. os descendentes destas adotaram como símbolo de sua
terrível derrota a couraça do vencedor, que, por uma lenta mudança, transformou-se na
máscara sagrada, que nenhuma mulher índia pôde ver, sob pena de morte. É por isso que,
ainda hoje, elas se afastam e se refugiam nas profundezas sas florestas quando se exibe o
antigo instrumento de sua derrota.
(NÉRI, Frederico José de Santana. O país das amazonas) |
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