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Setembro 2000
Ano III - nº 25

 

BATUQUE

O jogo que, na Bahia, tomou o nome de batuque é a mesma pernada do Rio de Janeiro. Legado do Angola, esse jogo foi expulso da capital, existindo agora, apenas, em pequenas localidades dos municípios de Cachoeira e de Santo Amaro, no Recôncavo.

No romance O alambique (1934), Clóvis Amorim descreve, rapidamente, o jogo, tal como o observou no interior de Cachoeira:

"Organizaram um batuque-boi na porta do vaqueiro... Zé Costa foi o escolhido para ser o mandão. Tomou do berimbau e iniciou o comando.

- Vamo vê o pá primeiro.

Caiçara, um agregado da Cabonha, e o foguista novato pularam na roda. Costa gritou:

- S’aperpare.

O foguista juntou as pernas, firmou-se e, batendo as mãos espalmadas nas coxas, avisou:

- Carro no toco.

Caiçara, ligeiro, deu-lhe várias pernadas, passando a primeira, a segunda e a terceira raspa, fazendo o possível para derrubá-lo. O foguista resistia. Bambeava e não caía. Palmas. A torcida se manifestava:

- Êta, caboco bão!

- Mourão de cancela!

Zé Costa batia o berimbau:

- Óia o eixo.

Caiçara ficou de pé. Juntou as coxas, prevenindo:

- Ferrão no boi.

O ofguista, mais sagaz, logo na primeira raspa deu com Caiçara no chão. O berimbau parou. O foguista, zombeteiro, chuetava:

- Ecô! Levanta, boi!

Costa anunciou a vitória:

Pica-pau de mato grosso
Tem catinga no sovaco
De dia pica no pau
De noite no teu buraco
Batuqueiro, berimbau
Mete essas perna num saco

As ocações estrugiram, aclamando o vencedor..."

Era com orquestra semelhante à da capoeira que se realizava o batuque na Bahia – berimbau, pandeiro, ganzá, - e entre as grandes figuras do jogo sobressaíam os descendentes do negro de Angola. O velho Macário, carregador, ex-batuqueiro, conheceu muitos deles – Angolinha, de Santo Antônio d’além do Carmo, Fulô Labatu, de Santana, Bexiga Braba, de São Pedro, Marcolino Moura, da Sé, Simplício Grande, da Vitória, Cassiano Balão, do Rio Vermelho, Eduardo Branco, de Itapagipe, e Alfredo Estrelinha, de Nazaré... As rodas de batuque realizavam-se aos domingos e nos dias de festa pública, no Natal, no Ano Bom, no dia dos Reis, no Carnaval, no Dois de Julho, especialmente no Terreiro, no largo da Piedade, na Ribeira, e quase sempre terminavam em conflito, bofetadas, pauladas, facadas... A intervenção da polícia eliminou os batuqueiros e expulsou o batuque para o interior.

Das canções do batuque restam algumas:

Mata m’embora
Ê-ê
Cada um tira o seu
Vai s’embora!


É de um a um, crioulá
É de dois a dois, crioulá
É de três a três, crioulá
É de quatro a quatro, crioulá...


Nega, ti [que] vende aí?
- É arroz de Maranhão
Meu sinhô mandou vendê
Na cova de Salamão...


Tiririca é faca de cortá
Não me corta, moleque de sinhá!


Aroandê
’Caba de morrê...


A competição mobilizava um par de jogadores, de cada vez. Estes, dado o sinal, uniam as pernas firmemente, tendo o cuidado de resguardar os órgãos sexuais. Havia golpes como a encruziada, em que o atacante atirava as duas pernas contra o adversário, a coxa lisa, em que o jogador golpeava coxa contra coxa, acrescentando ao golpe um raspa, e o baú, quando as coxas do atacante davam um forte solavanco nas do adversário, bem de frente. Todo o esforço dos jogadores concentrava-se em ficar de pé, sem cair. Se, perdendo o equilíbrio, tombasse, o jogador teria irremediavelmente perdido. Era comum, por isso, ficarem os batuqueiros em banda solta, equilibrados numa única perna, a outra no ar, tentando voltar à posição primitiva.

Todo capoeira joga batuque, mas, como jogo independente, o batuque já não existe na Bahia.

[1957]


(CARNEIRO, Edison. A sabedoria popular)

 

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