Ir para a página principalRetornar para Festança

Setembro 2000
Ano III - nº 25

 

AS FESTAS DO CASAMENTO

Antes de entrarmos propriamente nas festas do casamento, queremos em poucas palavras contar como se arrumaram os primeiros casamenteiros na colônia de Blumenau, servindo-nos mais uma vez do depoimento de José Deeke. A história é pitoresca e não deixa de ser bastante singular. A direção da colônia, antes da chegada do barco, recebia a relação das moças solteiras e viúvas. Era escolhido então um grupo igual de homens solteiros e viúvos, candidatos ao casamento. Pôr sorteio era escolhido o nome da moça que tocava a cada um. Quando o barco chegava ao porto de destino (Itajaí, Desterro ou São Francisco), os pretendentes iam a bordo para identificar aquela que lhe estava destinada pela sorte.

Como narra o nosso avisado informante, aconteceu que em algumas vezes um moço recebia a sorte de desposar uma mulher mais idosa ou um colono mais velho ficar com um brotinho. A verdade é que ninguém se rebelou, pois o sorteio já havia selado a sorte de cada um. Entretanto, no caso em que os pares não chegassem a um entendimento, o casamento era transferido para uma data mais remota. O que os colonos almejavam era uma companheira para suavizar a vida brutal que levavam em plena mata virgem.

Antigamente, quase sempre se festejava o Polterabend e ainda hoje esse costume não desapareceu de todo da zona rural. É a festa da véspera do casamento. Como o nome já exprime (poltern – fazer barulho), trata-se de uma festa ruidosa e cheia de animação. Está isenta da etiqueta do casamento, que abrange só um número limitado de convidados. Ao Polterabend, vêm todos os parentes e conhecidos dos noivos. É servida uma mesa de frios, café com bolos e tortas; ou mesmo um jantar sem cardápio. Festeja-se o Polterabend na casa da noiva ou no clube. Geralmente, há representação de uma peça de teatro, declamações, etc. Encontram-se livros inteiros com poesias apropriadas para esta cerimônia. Meninas e mocinhas entregam os presentes declamando uma poesia. E o barulho consiste em quebrar louças. Todos trazem as peças de louças defeituosas e mesmo perfeitas, que são atiradas para dentro de casa ou do salão. Cabe aos noivos varrerem a sala de vez em quando. Quebram-se as louças para fazer jus ao provérbio alemão, que diz: - Scherben bringen Glück (Cacos de vidro resultam em felicidade).

O bolo de noiva, de aceitação geral, não é um costume tradicionalmente teuto-brasileiro. Como certos costumes teuto-brasileiros foram aceitos pelos compatriotas lusos, muitos costumes lusos também foram aceitos pelos teutos-brasileiros.

O casamento nas famílias de sociedade é geralmente realizado à tardinha, com início do banquete às 19 horas. Este é solene, com cardápio, cartões, isto é, ordem de mesa, discurso e distribuição do jornal do casamento. Nesse jornal, as qualidades dos nubentes são elogiadas e os seus defeitos criticados, tudo em tom humorístico. Os convidados entram na berlinda e também recebem elogios. Geralmente, há uma ou mais poesias que narram fatos interessantes a respeito dos noivos, seus pais, seus parentes e mesmo de alguns convidados, que são cantadas por todos com acompanhamento de uma música conhecida.

Um costume, hoje muito raro, antigamente comum nas famílias de origem alemã, era o Katerfrühstück (almoço de ressaca). No local onde foi festejado o casamento, reunia-se um grupo de parentes e de amigos mais chegados, para esse almoço dos restos, que sempre exigiam muita bebida.

Nos últimos anos, uma três ou quatro famílias tradicionais da cidade de Blumenau voltaram ao Katerfrühstück, mas o costume generalizado desapareceu.

A festa de casamento na zona rural segue geralmente o mesmo padrão em todo o Vale. Aqui e ali, observam-se pequenas variantes.

Com oito dias antes do ato, o arauto (mocinho enfeitado de fitas e com a relação dos convidados), antigamente a cavalo e agora de bicicleta, vai formular o convite em nome da família da noiva. O arauto recebe uma gratificação dos convidados.

Um casamento é acontecimento de primeira ordem nas zonas rurais. Grandes preparativos precedem o grande dia. A casa é aumentada por meio de ranchos, e cozinha-se e assa-se a valer. Deve haver de tudo em abundância e o maior elogio para o que faz a festa é poder-se dizer: - Sobrou muita coisa...

Na véspera, a casa é enfeitada com flores e palmeiras. Também as proximidades das entradas e da casa são enfeitadas com palmeiras, para que todos os que passem por ali possam dizer: - "Aqui, há casamento."

Os cavalheiros e as damas de honra que servem de testemunhas (o número varia bastante), vão com os noivos de carreta ou de carro de mola bem enfeitados. Ultimamente, os veículos foram substituídos pelo auto ou camionete, também enfeitados. Primeiro vão ao cartório e depois à igreja. Geralmente, o casamento é realizado aos sábados.

Nesse ínterim, os convidados estão sendo recebidos na casa da noiva. Cada família que chega, a orquestra executa uma peça de saudação. Ao lado da orquestra, encontra-se um prato para os convidados gratificarem os músicos.

Após o ato civil e religioso e a visita ao fotógrafo para a clássica fotografia, os noivos e as testemunhas param num bar, onde bebem. Depois os cavalheiros compram garrafas de licor, que já estão enfeitadas com fitas de várias cores. No regresso, soltam foguetes em abundância e vão bebendo no próprio gargalo das garrafas. Antigamente, os tiros eram dados de espingarda. Ao chegarem a casa, recebem os abraços e as felicitações dos presentes e as garrafas de licor enfeitadas com fitas passam de boca em boca. Depois, é servido o banquete ou almoço. Cantam e recitam poesias apropriadas. As melhores famílias arranjam um orador, que à mesa saúda os noivos. Quase sempre é convidado o pastor para pronunciar o discurso congratulatório.

Terminado o banquete, prepara-se a sala para o baile. A primeira dança é só para os noivos. A segunda, para os noivos e os cavalheiros com as damas de honra. A terceira, começa o baile para todos.

À meia-noite, os recém-casados dançam sozinhos, e então os cavalheiros e as damas de honra formam uma roda, sendo vendados os olhos da noiva, que procurará agarrar uma das damas, a qual deve tirar o véu da noiva. Essa simpatia trará felicidade para a escolhida. Depois, os olhos dos recém-casados são vendados. Em torno deles formam-se uma roda de moças e rapazes solteiros. A noiva procura agarrar um rapaz e o noivo uma moça. Os escolhidos, sentados no centro da roda, passam a usar o véu e a grinalda da noiva e o ramalhete de flores brancas que traz o noivo. As moças acreditam que mais essa simpatia propiciará um próximo pedido de casamento, por isso a disputa se torna empolgante pela conquista do troféu.

Depois, o noivo dança com a moça escolhida e a noiva com o rapaz. Nesse ato, só dançam os dois pares. Em seguida recomeça o baile. Os recém-casados trocam de roupa e voltam a dançar, só se retirando quando termina o baile.

Há nesse ponto outra versão. Após a retirada do véu da noiva, os recém-casados, os cavalheiros e as damas de honra podem então trocar de roupa, e os noivos têm direito a retirar-se da festa. Se permanecerem, cabe a eles a primeira dança; a segunda, a eles com os cavalheiros e as damas de honra; e a terceira, também a eles com os pais e os irmãos.

É freqüente surgirem pequenas brigas ocasionadas pelo excesso de bebidas. Mas se a pancadaria for sem gravidade, é considerada por todos como um fato muito engraçado.

No domingo, mais ou menos às 11 horas, os vizinhos mais próximos vão comer as sobras do banquete, que é, como já foi dito, o almoço da ressaca. As moças que serviram de testemunha (damas de honra), voltam ainda no dia seguinte para ajudar na limpeza da casa.

O casamento entre italianos e seus descendentes é geralmente celebrado aos sábados. O matrimônio religioso é realizado pela manhã, quando os nubente assistem à missa e comungam, quase sempre acompanhados dos padrinhos. Depois, vão todos para o botequim à espera que abra o cartório civil. Três a quatro padrinhos acompanhados de suas damas testemunham o ato. Em seguida, todos se dirigem para a casa da noiva, onde é servido café com lauta mesa de doces e onde permanecem até às 11 horas. Dali, rumam para a casa dos recém-casados, onde almoçam e jantam, prolongando-se os festejos até altas horas da noite. É costume a música de sanfonas acompanhar as solenidades de casamento desde cedo e depois tocar no baile.

Antigamente, nos casamentos de viúvo, que é sempre realizado às quartas-feiras, era tradição à noite o bater de latas e caixas vazias em frente à casa dos recém-casados. Era uma confusão desconcertante de sons que se prolongava até que lhes fosse aberta a porta e o casal oferecesse aos tais importunos alguma bebida. É um costume em desuso.

A festa de casamento entre os poloneses e seus descendentes começa pelo convite que é feito pessoalmente pelos noivos ou pelo correio. A festa tem início à noite na véspera do casamento, com comida, bebida e dança. No outro dia, pela manhã, vão à igreja, quando é celebrado o ato religioso. Sempre há duas testemunhas e dois sobre-noivos e duas sobre-noivas, estes quatro ajudam nos preparativos e levam uma fita para diferençar-se.

Na saída da igreja, é batida uma fotografia de todo o grupo. No acompanhamento à igreja e na volta para casa, a música segue junto ao cortejo e executa peças de seu repertório. O trajeto é vencido a pé, sob o espoucar dos foguetes. De volta, na casa da noiva, recomeça a festa com comida, bebida e dança até a madrugada do outro dia.

Outro detalhe. Na saída para a igreja há um discurso e na chegada outro. Como já dissemos anteriormente, o casamento civil só é realizado quando se lhes oferece a oportunidade.

Os menonitas já comemoram a sua festa de casamento de um modo diferente. O casamento é realizado na igreja, em qualquer dia da semana. Geralmente, começa às 14 horas. O ato e oficiado pelo Mais Sábio ou Mais Velho e no impedimento deste, por qualquer membro da comunidade, que profere uma alocução alusiva ao cerimonial. Em seguida, é servida uma lauta mesa com café e doces. Cantam e tocam. Depois, cada um segue para a sua casa.

Detalhe interessante é aquele que apuramos nas zonas de origem alemã e italiana, onde nos casamentos, até o começo deste século, os noivos e as noivas vestiam-se de preto. A diferença estava na coberta da cabeça. As descendentes de italianos usavam um xale preto e as de alemães um gorro verde com umas flores de mirta.


(SILVA, Zedar Perfeito da. O vale do Itajaí)

Topo

Jangada Brasil © 2000