Setembro
2000
Ano III - nº 25 |
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CAJUS E CAJUÍS
Capítulo XLIX |
| Daqui por diante se dirá das árvores
de fruto, começando nos cajus e cajuís Convém tratar daqui por diante das
árvores de fruto naturais da Bahia, águas vertentes ao mar e à vista dele; e demos o
primeiro lugar e capítulo por si aos cajueiros, pois é uma árvore de muito estima, e
há tantos no longo do mar e na vista dele. Estas árvores são figueiras grandes, têm a
casca da mesma cor, e a madeira branca e mole como figueira, cujas folhas são da feição
da cidreira e mais macias. As folhas dos olhos novos são vermelhas, muito brandas e
frescas, a flor é como a do sabugueiro, de bom cheiro, mas muito breve. A sombra destas
árvores é muito fria e fresca, o fruto é formosíssimo; algumas árvores dão fruto
vermelho e comprido, outras o dão da mesma cor e redondo.
Há outra casta que dá o fruto da mesma feição, mas há partes vermelhas e outras da
cor almecegada; há outras árvores que dão fruto amarelo e comprido como peros d'
El-Rei, mas não são em tudo maiores que os peros e da mesma cor.
Há outras árvores que dão este fruto redondo, e uns e outros são muito gostosos,
sumarentos e de suave cheiro, os quais se desfazem todos em água.
A natureza destes cajus é fria, e são medicinais para doentes de febres, e para quem tem
fastio, os quais fazem bom estômago, e muitas pessoas lhes tomam o sumo pelas manhãs em
jejum, para conservação do estômago, e fazem bom bafo a quem os come pela manhã, e por
mais que se coma deles não fazem mal à nenhuma hora do dia, e são de tal digestão que
em dois credos se esmoem.
Os cajus silvestres travam junto do olho que se lhes bota fora, mas os que se criam nas
roças e nos quintais comem-se todos sem terem que lançar fora por não travarem.
Fazem-se estes cajus de conserva, que é muito suave, e para se comerem logo cozidos no
açúcar cobertos de canela não têm preço. Do sumo desta fruta faz o gentio vinho, com
que se embebeda, que é de bom cheiro e saboroso.
É para notar que no olho deste pomo tão formoso cria a natureza outra fruta parda, a que
chamamos castanha, que é da feição e tamanho de um rim de cabrito, a qual castanha tem
a casca muito dura e de natureza quentíssima e o miolo que tem dentro; deita esta casca
um óleo tão forte, que aonde toca na carne faz empola, o qual óleo é da cor de azeite
e tem o cheiro mui forte. Tem esta castanha o miolo branco, tamanho como o, de uma
amêndoa grande, a qual é muito saborosa, e quer arremedar no sabor aos pinhões, mas é
de muita vantagem. Destas castanhas fazem as mulheres todas as conservas doces que
costumam fazer com as amêndoas, o que tem graça na suavidade do sabor; o miolo destas
castanhas, se está muitos dias fora da casca, cria ranço, do azeite que tem em si;
quando se quebram estas castanhas para lhes tirarem o miolo, faz o azeite que tem a casca
pelar as mãos a quem as quebra.
Estas árvores se dão em areia e terras fracas, e se as cortam tornam logo a rebentar, o
que fazem poucas árvores nestas partes. Cria-se nestas árvores uma resina muito alva, da
qual as mulheres se aproveitam para fazerem alcorça de açúcar em lugar de alquitira.
Nascem estas árvores das castanhas, e em dois anos se fazem mais altas que um homem, e no
mesmo tempo dão fruto, o qual, enquanto as árvores são novas, é avantajado no cheiro e
sabor.
Há outra casta desta fruta, que os índios chamam cajuí, cuja árvore é nem mais nem
menos que a dos cajus, senão quanto é muito mais pequena, que lhe chega um homem do
chão ao mais alto dela a colher-lhe o fruto, que é amarelo, mas não é maior que as
cerejas grandes, e tem maravilhoso sabor com pontinha de azedo, e criam também sua
castanha na ponta, as quais árvores se não dão ao longo do mar, mas nas campinas do
sertão além da catinga.
(SOUZA, Gabriel Soares de. Tratado descritivo do
Brasil
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