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Setembro 2000
Ano III - nº 25

 

FESTA DO INHAME-NOVO

Inhame-Novo

Festa do inhame (Recife), do inhame-novo (Bahia), festas rituais dos xangôs pernambucanos (20-21-22 de outubro) e candomblés baianos (primeira sexta-feira de setembro).

O inhame (Dioscoriáceas) era uma fécula comum na alimentação de todas as classes e a festa parece uma comemoração do ciclo da germinação da planta. Constitui uma homenagem a Oxalá (Obalatá, Orixalá). Manuel Querino descreve a festa do inhame-novo:

"É o tributo de homenagem prestado a Oxalá, o santo principal do terreiro. É o início das festas do feiticismo. Na primeira sexta-feira do mês de setembro, a mãe-do-terreiro reúne as filhas-de-santo e se dirigem à fonte mais próxima, com o fim de captarem, muito cedo, a água precisa à lavagem do santo. Finda esta cerimônia, o santo é recolhido ao peji. Logo em seguida sacrificam um caprino, que é cozido juntamente com o inhame, não sendo permitido o azeite-de-dendê, que é substituído pelo limo da Costa. Retirada do fogo, a refeição é distribuída pelas pessoas presentes, que depois se retiram. Decorridos três sóis, começam as festas. Entre as cerimônias sobressai a seguinte: a mãe-do-terreiro, munida de pequeno cipó, bate nas costas das pessoas da seita. É a disciplina do rito e tem o efeito de perdoar as ações más, praticadas durante o ano." (Costumes Africanos no Brasil, 55).

O inhame é de origem africana e era de uso comum em Portugal no séc. XV. Segundo uma tradição que Roger Batiste divulgou (Imagens do Nordeste Místico em Branco e Preto, 117-118), Oxalá, bem velho, morava com seu filho Oxum-guiam, que o queria muito. Tendo saudades do outro filho, Xangô, rei de Ioruba, Oxalá montou a cavalo para visitá-lo, desprezando os presságios do Babalaô consultado e as respostas do Opélé-Ifá. Viajando, Oxalá apeou-se para ajudar a uma velha, e o cavalo fugiu. Indo segurá-lo, Oxalá foi perseguido como criminoso, vagabundo, e atirado a uma prisão, onde sofreu fome e sede. Xangô, inquieto, consultou os augúrios, que o mandaram visitar as prisões. Nelas o rei dos nagôs encontrou seu pai Oxalá libertando-o imediatamente. Oxalá morria de sede, e o rei mandou um séquito de escravas à fonte mais próxima, com as bilhas novas, buscar água fresca para dessedentar seu pai. Oxalá voltou para a companhia de Oxum-guiam e este lhe ofereceu um banquete. A festa do inhame-novo consta dessas fases tradicionais. Oxalá deixa o peji (viagem); as filhas-de-santo trazem água fresca para matar sua sede (procissão com as quartinhas) e finalmente há o banquete com os animais sacrificados: cabras, etc. A flagelação simbólica, citado por Manuel Querino, talvez significasse os sofrimentos de Oxalá ao ser preso, espancado e deixado numa prisão. Sincretismo da Paixão de Jesus Cristo, nesta última parte? Não sei.


(CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro)

Inhame

É a conhecida túbera da planta do mesmo nome (Dioscorea sativa, Linn.), de origem africana, e daí a sua denominação vulgar entre nós de inhame-da-costa, e cuja cultura já era feita em meados do séc. XVI, de batatas trazidas das ilhas do Cabo Verde e São Tomé. O termo vem de Yam, que quer dizer, comer, na língua dos negros da Costa da Guiné (Pereira da Costa, Vocabulário Pernambucano, 397-398). Na Carta de Pero Vaz de Caminha e na Relação do Piloto Anônimo, documentos de abril de 1500, escritos em Porto Seguro, testemunhas do descobrimento do Brasil, registram o inhame como alimentação habitual dos indígenas, "muito inhame... nem comem senão desse inhame que aqui há muito... uma raiz chamada inhame, que é o pão de que ali usam". Artur Neiva esclareceu a confusão entre o inhame (Dioscoriáceas) e os carás, ainda hoje dados como sinônimos, e bem diversos na realidade (Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, verbete inhame). Gabriel Soares em 1587, informava da abundância dos inhames na Bahia, onde apenas eram comidos pelos negros e os colonos brancos, preferindo a indiada os seus, não inhames mas carás (Jaime Cortesão, A Carta de Pero Vaz de Caminha, nota 57, Rio de Janeiro, 1943). Na primeira sexta-feira de setembro realizava-se (ou talvez se realize ainda) nos candomblés da Bahia a festa do inhame-novo, em homenagem a Oxalá, santo principal do terreiro (Manuel Querino, Costumes Africanos no Brasil, 55). Início das festas afro-brasileiras.

 

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