Setembro
2000
Ano III - nº 25 |
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A MÉTRICA DOS
CANTADORES: EMBOLADA, MARTELO E CARRETIA |
De outros gêneros de métrica usam ainda
os nossos cantadores, não só os violeiros, como os que acompanham os atabaques e
maracás com os seus cantares, nas zonas dos engenhos e nas praias. São as emboladas, o
martelo e as carretias, estas muito usadas nos engenhos de Pernambuco e Alagoas.
Ao senhor Andrade Lima, conhecedor dos costumes nortistas, devo as seguintes:
A embolada é invariavelmente em dois versos, cada um de doze sílabas, com a sucessão de
sílabas agudas e breves, de duas em duas, formando um ritmo convidativo a dançar.
Exemplo:
Muié véia, de que chora esse menino,
Chora de barriga cheia, somente pra aperriá
Vai lá dentro, a parmatória tá no torno
Dá dez bolo nesse corno, que é meio de acalentá
Zaco, zaco, bizaco, saco de chumbo
Minha mão não sai do prumo da pancada do ganzá
Uma faca, uma pistola, uma ruína
Quando o nego se arrepuna bole em baixo o tiro pá!
Uma pataca, dois minréis, mile quinhento
É dinheiro de um sargento da guarda municipá
Matuto besta quando chega no mercado
Fica todo embatucado sem sabê o que comprá
Pega a taboca, o barbante e o soquete
Embaixo sorta o foguete, em cima tara-ta-tá
Papa-capim, curió, fura-barreira
Ruxinó e lavandeira, aima de gato e trocá
Peixe piaba, tubarão, baleia e serra
Ô lelê eu vou por terra, vou tarrafiá no má
Tiririca dessas grande navaieira
Burinhem, cordão, ponteira, unha de gato, marraiá
Sordado novo
Do bonete arrevirado
Tem o olho aboticado
Que nem cachorro do má
Mas cumigo tem gegê
Dou-lhe um papouco pru á
Mando-o o diabo comê
Cum farofa de imbuá
Em regra a embolada tem a última tônica em a, como são os versos heróicos. O
uso, porém, já desvirtua a regra involuntária dos matutos, e temos:
Cabra danado, se não tem corage eu tenho
De dizê ao sinhô de engenho que o cercado tá no chão
Vou lhe dizê pra me dá cipó e ripa
Que amarro aquela futrica
Prá não entrá boi ladrão
Pelo ritmo do verso, sente-se que o canto é de música em binário, com alegro muito
vivo:
Roda, volante
Puxavante
Manivela
Meu mano, carrega nela
Bota azeite no mancá
O martelo é mais simples. Consiste em quadra redondilha bipartida, cantando cada um
violeiro dois versos por sua vez.
1º
Vou-me embora, vou-me embora
Lá pra cima do sertão
2º
Caboco você não vai
Que apanha no Boqueirão
3º
Ora, si vou, vou bonito
Levo pistola e facão
Sempre que a cantiga é dialogada, o assunto não varia: são valentias, arrogâncias,
desaforos cara a cara, o apurar de boas qualidades de raça, problemas e adivinhações.
A carretia é em sextilhas de cinco sílabas:
O que não subé
Que eu sou cantadô
No lugá que eu estou
Me venha falá...
Porque no cantá
Eu digo quem sou
Cantador goteira
Cumigo não canta
E nem se alevanta...
Eu cavo cacimba
E faço mandinga
Que o povo se espanta
O desafio clássico, o do uso de todos os tempos, fere-se em sextilhas de sete sílabas:
Cachorro briga de dente
Galo briga de peitada
Cavalo briga de coice
E novio de marrada
Home só briga de ferro
E muié sempre agarrada
Na hora que tô cantando
Toda a terra se estremece
Que é de morro vai abaixo
Todo o baixio umedece
Sou mesmo que dois curisco
Quando um assobe, outro desce
São Pedro tem uma chave
São Migué uma balança
São José tem dois cajados
Santo Antônio uma ovêia mansa
Quem não fizé boas obra
Do céu que perca a esperança
Amigo, eu vou lhe contá
O meu modo de entendê
Raio, curisco, trovão
Pode deixar de se vê
Menos a água no má
E no inverno não chovê
De casca de jatobá
Também se faz rapadura
Má que se diz, não tem cura
Também se pode curá
E quando é tempo de festa
Se sorta fogo do á
Si qué sabê do meu nome
Na pia fui batizado:
Eu me chamo Pau Barriga
Cantadô de pau passado
Inda tenho outro apilídio:
Pau-Ferro ou Quebra-Machado
Boi tem força no cupim
Cavalo tem no espinhaço
Gato tem força nas unha
Tamanduá tem nos braço
Muié na ponta língua
E eu em tudo qui faço
(CARVALHO, Rodrigues de. Cancioneiro do norte. 3ª
ed. Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1967)
Vocabulário:
Bonete: Boné conservado na altura da gaforina ou a
três pancadas
Gegê: dificuldades, luto
Papouco: estouro. Dar papouco pro ar: suspender o adversário
e jogá-lo ao chão.
Imbuá: miriápode muito conhecido |
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