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O PIÃO E A CARRAPETA

Esses são nome eruditos, nomes de letra de forma. O que nós jogávamos eram pinhão e carrepeta como todo mundo chamava e ainda chama. Pinhão, ou se originava do nome da conhecida planta homônima, pelo fenômeno lingüístico da contaminação, ou decorria do fato de servirem os frutos de uma variedade da mesma para fatura de pequenas carrapetas como veremos adiante. A primeira razão parece mais aceitável.

Feitos ao torno, geralmente de madeira pesada – goiabeira ou genipapeira – os piões se constituíam do castelo, no topo, o corpo, que começava por um hemisfério e se ia adelgaçando suavemente e, por fim, a ponta introduzida na extremidade inferior do mesmo, como seu prolongamento, e feita de um pedaço de prego ou ferro aguçado a lima.

O castelo, pequena bola ou esferóide, tanto era ornamento do pião, como apoio de uma extremidade da enfieira, ao enrolá-la o jogador para o arremesso. Tome-se a palavra enfieira, única usada, como corruptela de fieira, talvez por influência de enfiar.

Nem todos, porém, usavam esse processo: alguns preferiam prender a ponta do cordel com as suas próprias voltas em torno do pião. A carrapeta era quase sempre um bilro furtado da almofada de renda da vovó e do qual se amputava a haste, deixando apenas um pedaço de cerca de uma polegada, preso à cabeça e despontado para servir de bico. Tanto se jogava com a fieira, como dando-lhe o movimento brusco de rotação entre o dedo médio e o polegar e largando-o a rodopiar sobre uma superfície lisa. Era, porém, brinquedo de menino pequeno, que os taludos depreciavam. Na falta de um bilro e para jogar no dedo, servia até um fruto de carrapateira ou do pinhão brabo, branco ou roxo, desse que se planta em frente à casa, contra mau olhado ou mandinga. Enfiava-se nele um pedaço de talo de fósforo ou folíolo de coqueiro e rodava-se com os dedos.

Ia começar o jogo. Com o pé direito, apoiando o calcanhar num terreno sólido, um jogador executava uma volta completa do próprio corpo, deixando marcado um círculo no chão, determinado pela circunferência produzida pelo dedo grande vergado para baixo. A isso chamava-se infinca, do brasileirismo enfincar – fincar. Não havia limite para o número de jogadores, e esses atiravam como preferiam, de castelo ou de bico, segundo sua maneira de empunhar o pião. Fazia-se o arremesso na direção da infinca, calculando cada jogador o seu ponto, isto é, a distância em que devia colocar-se para atirar, a qual decorria do comportamento da fieira, e esse, quase sempre, da sua espessura e do diâmetro do pião. Aquele jogador que não colocasse seu pião no perímetro da figura, teria de deitá-lo no centro da mesma, para servir de alvo aos outros, resultando sair o paciente muitas vezes furado e até lascado. O jogador deveria, além disso, fazer dançar o pião, isto é fazê-lo rodopiar e apará-lo na mão ou na unha. Para isso, com a mão direita aberta, de face externa para baixo e o dedo indicador afastado do médio, formando um V, o jogador introduzia essa abertura por baixo do pião, dava-lhe uma pancada rápida e leve com o indicador e o brinquedo pulava sobre a palma da mão sem parar o movimento.

O aparo na unha dependia de técnica diferente, era mais difícil e poucos o praticavam. Havendo um pião deitado, tolerava-se que outro não dançasse ou não fosse aparado, contanto que, ao ser arremessado, pelo menos balançasse aquele. Às vezes, o balanço de ponto de enfieira, isto é, produzido pela extremidade dessa, não vogava, o que vale dizer – não prevalecia. Fora disso, o pião faltoso ia ocupar o lugar do que estava deitado e cujo dono o levantava, voltando a jogar.

Jogadores haviam que aparavam o pião no ar. Para isso, faziam o arremesso e, antes que a fieira se desenrolasse completamente e o engenho atingisse o solo, davam-lhe um forte empuxão para cima, e rapidamente, em pleno ar e com a mão espalmada, colhiam o brinquedo em movimento. Os principantes jogavam puxando camarão, método que não servia para a infinca e consistia em atirar o pião com o braço próximo ao solo e dar uma rápida puxada à enfieira. O brinquedo dançava com pouca força. Esse método era usado para jogar por baixo das pernas. Para isso, ao invés de ser a enfieira enrolada da ponta para cima, o era do castelo para baixo, até o centro geométrico do pião. O jogador curvava-se o mais possível e puxava camarão, atirando para trás. O pião caía dançando, às vezes invertido, se fora mal jogado.

Certos piões zuniam ao ser atirados, o que talvez resultasse do seu formato, ou da força do atirador, ou ainda de alguma ligeira aresta que, chocando-se com o ar durante o movimento, produzisse aquele zummmmmmmmmm característico e prolongado, mas variável na escala musical entre um e outro. A propósito de pião zumidor, contam que o senhor de um moleque exímio jogador de pião, mantinha com a mulher de um sapateiro certo comércio de ramo diferente. Quase todo dia, em hora certa, o moleque aparecia em frente à tenda do lambe-sola e começava a cantar, enrolando a fieira ao compasso da toada, que imitava o som do pião:

Meu siii-nhô mandou dizê
Que vósss... mincê fosse lá
Meu siii-nhô mandou dizê
Que vósss... mincê fosse lá
Zuuuumm!

E enquanto o pião, arremessado violentamente, roncava pra dançar, o moleque, aproveitando o acompanhamento daquele sonoro zunido e aparando na unha, terminava:

Como é bom de unha!
Como é bom de unha!
Como é bom de unha!...

A princípio, o sapateiro gostou daquilo e batia a sola no compasso da música; mas acabou desconfiado da coisa porque em tais ocasiões a mulher sempre se sumia pelos fundos da casa. Botou sentido e descobriu a maroteira. E então, nada podendo contra o donjoão, esperou o moleque e na primeira vez, assim que ele acabou o último verso, meteu-lhe de rijo o tira-pé, cantando ao som do pião:

Moleque filho da... mãe
Quem te ensinou a alcovitar?
Lepte!
Como é bom de peia!
Como é bom de peia!
Como é bom de peia!
Lepte! Lepte!...


(SANTIAGO, Paulino. Jogos e brinquedos de minha infância. In Boletim alagoano de folclore, anos VII/XIV, 1952-1969)