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Excertos de textos do Tratado descritivo do Brasil em 1587

CAP.XXXIV
Em que se declara as árvores de Espanha que se dão na Bahia, e como se criam nela.

Parece razão que se ponha em capítulo particular os frutos de Espanha e de outras partes, que se dão na Bahia de Todos os Santos.

E comecemos nas canas-de-açúcar, cuja planta levaram à capitania dos Ilhéus da Ilha da Madeira e de Cabo Verde, as quais recebeu esta terra de maneira em si que as dá maiores e melhores que nas ilhas e partes donde vieram a ela, e que em nenhuma outra parte que se saiba que se crie canas-de-açúcar, porque na Ilha da Madeira, Cabo Verde, São Tomé, Trudente, Canárias, Valência e na Índia não se dão as canas se se não regam os canaviais como as hortas e se lhes não estercam as terras, e na Bahia plantam-se pelos altos e pelos baixos, sem se estercar a terra, nem se regar; e como as canas são de seis meses, logo acamam e é forçoso cortá-las para plantar em outra parte, porque aqui se dão tão compridas como lanças; e na terra baixa não se faz açúcar da primeira novidade que preste para nada, porque acamam as canas e estão tão viçosas que não coalha o sumo delas, se as não misturam com canas velhas, e como são de quinze meses logo fiam novidade às canas de plantas; e as de soca como são de ano logo se cortam. Na Ilha da Madeira e nas mais partes aonde se faz açúcar cortam as canas de planta de dois anos por diante e a soca de três anos, e ainda assim são canas mui curtas, onde a terra não dá mais que duas novidades. E na Bahia há muitos canaviais que há trinta anos dão canas; e ordinariamente as terras baixas nunca cansam e as altas dão quatro e cinco novidades a mais.

Das árvores a principal é a parreira, a qual se dá de maneira nesta terra que nunca lhe cai folha, senão quando a podam que lha lançam fora; e quantas vezes a podam, tantas dá fruto; e porque duram poucos anos com a fertilidade, se as podam muitas vezes no ano; é a poda ordinária duas vezes para darem duas novidades, o que se faz em qualquer tempo do ano conforme ao tempo que cada um quer as uvas, porque em todo o ano amadurecem e são muito doces e saborosas, e não amadurecem todas juntas; e há curiosos que têm nos seus jardins pé de parreira que tem uns braços com uvas maduras, outros com agraços, outros com fruto em flor e outros podados de novo, e assim em todo ano tem uvas maduras, em uma só parreira; mas não há naquela terra mais planta que de uvas ferrais e outras uvas pretas, e se não há nesta terra muitas vinhas é por respeito das formigas que em uma noite que dão em uma parreira, lhe cortam a folha e fruto e o lançam no chão; pelo que não há na Bahia tanto vinho como na Ilha da Madeira, e como se dá na capitania de São Vicente, porque não tem formiga que lhe faça nojo, onde há homens que colhem já a três a quatro pipas de vinho cada ano, ao qual dão uma fervura no fogo por se lhe não azedar, o que deve de nascer das plantas.

As figueiras se dão de maneira que no primeiro ano que as plantas vêm com novidade, e daí por diante, dão figos em todo o ano, às quais nunca cai folha; e as que dão logo novidade e figos em todo o ano são figueiras pretas, que dão mui grandes e saborosos figos pretos, e as árvores não são muito grandes, nem duram muito tempo, porque como são de cinco, seis anos, logo se enchem de uns carrapatos que as comem, e lhe faz cair a folha e ensoar o fruto, os quais figos pretos não criam bichos como os de Portugal. Também há outras figueiras pretas que dão figos bêbaras mui saborosos, as quais são maiores árvores e duram perfeitas mais anos que as outras, mas não dão a novidade tão depressa como elas.

As romeiras se plantam de quaisquer raminhos, os quais pegam e logo dão fruto aos dois anos; as árvores não são nunca grandes, mas dão romãs em todo o ano, e não lhes cai nunca a folha de todo; o fruto delas é maravilhoso no gosto e de bom tamanho, mas não muitas romãs por pecarem muito, e caírem no chão estando em flor, com as quais as árvores têm as formigas grande guerra, e não se defendem delas senão com testos de água ao pé que fica no meio; e se se atravessa uma palha por cima, por ela lhe dão logo tal assalto que lhe lançam a folha toda no chão; pelo que se sustentam com trabalho estas árvores e as parreiras, que à figueira não faz a formiga nojo.

As laranjeiras se plantam de pevide, e faz-lhe a terra tal companhia, que em três anos se fazem árvores mais altas que um homem, e neste terceiro ano dão fruto, o qual é o mais formoso e grande que há no mundo; e as laranjas doces têm mui suave sabor, e é o seu doce mui doce e a camisa branca com que se vestem os gomos é também muito doce. As laranjeiras se fazem muito grandes e formosas, e tomam muita flor, de que se faz água muito fina e de mais suave cheiro que a de Portugal; e as laranjeiras doces são velhas, dão as laranjas com uma ponta de azedo muito galante, às quais árvores as formigas em algumas partes fazem nojo, mas com pouco trabalho se defendem delas. Tomam estas árvores a flor em agosto, em que se começa naquelas partes a primavera.

As limeiras se dão da mesma maneira, onde há poucas que dêem fruto azedo, por se não usar dele na terra. As limas doces são muito grandes, formosas e muito saborosas, as quais fazem muita vantagem às de Portugal, assim no grandor, como no sabor. As árvores das limas são tamanhas como as laranjeiras, a quem a formiga faz o mesmo dano, se lhe pode chegar, e plantam-se de pevide também.

As cidreiras se plantam de estaca, mas de pevide se dão melhor; porque dão fruto ao segundo ano; e as cidras são grandíssimas e saborosas, as quais fazem muita vantagem às de Portugal, assim no grandor, como no sabor; e faz-se delas muita conserva. Algumas têm o âmago doce, outras azedo, e em todo o ano as cidreiras estão de vez para dar fruto, porque tem cidras maduras, verdes, outras pequenas e muita flor; a quem as formigas não fazem nojo, porque têm o pé da folha muito duro.

Dão-se na Bahia limões franceses tamanhos, como cidras de Portugal, e são mui saborosos; e outros limões-de-perdiz e os galegos; uns e outros se plantam de pevide, e todos os dois anos vêm com novidade, os quais muito depressa se fazem árvores mui formosas e tomam muito fruto, o qual dão em todo o ano, como está dito das cidreiras; e alguns destes limoeiros se fazem muito grandes, especialmente os galegos.

Também se dão na Bahia outras árvores de espinho que chamam zamboas, de que não há muitas na terra, por se não aproveitarem nela deste fruto.

As palmeiras que dão os cocos, se dão na Bahia melhor que na Índia, porque, metido um coco debaixo da terra, a palmeira que dele nasce dá coco em cinco e seis anos, e na Índia não dão estas palmas fruto em vinte anos. Foram os primeiros cocos à Bahia de Cabo Verde, donde se encheu a terra, e houvera infinidade deles se não se secaram , como são de oito e dez anos para cima; dizem que lhes nasce um bicho no olho que os faz secar. Os cocos são maiores e melhores que os das outras partes, mas não há quem lhes saiba matar este bicho, e aproveitar-se do muito proveito que na Índia se faz dos palmares, pelo que não se faz nesta terra conta destas árvores.

Tamareiras se dão na Bahia muito formosas, que dão tâmaras mui perfeitas; foram do Reino e depois de semeadas e nascidas, daí a oito anos, deram fruto e dos caroços deste fruto há outras árvores que dão já, mas não faz ninguém conta delas; e pode-se contar por estranheza esta brevidade; porque se tem que quem semeia estas tâmaras, ele nem seus filhos lhe comem o fruto senão seus netos. Estas tamareiras não dão fruto e é mui ramalhuda do meio para cima, e as folhas são de cor verde escuro; as fêmeas têm a copa em cima, e a cor dos ramos é um verde-claro.

 

GABRIEL SOARES DE SOUZA chegou ao Brasil em 1569. Foi senhor de engenho na Bahia. O seu Tratado descritivo do Brasil em 1587 é uma das mais valiosas fontes de informação sobre o Brasil do seu tempo. A história deste trabalho é curiosa. De seu irmão João Coelho de Souza, destemido sertanista falecido às margens do Paraguaçu, recebeu Gabriel Soares de Souza um famoso roteiro, revelador de misteriosas riquezas no setor da mineração. Deslumbrado pelas perspectivas de imensos descobrimentos, planejou uma expedição em grande escala, metodicamente organizada. Era preciso, porém, obter do rei certos favores. Para isso transportou-se Gabriel Soares de Souza para a corte de Madri, onde permaneceu largo tempo na via-sacra dos ministérios e tribunais. Foi ali que escreveu este Tratado descritivo, chamando a atenção do rei e dos ministros para os valores da terra e para os perigos de perdê-la. Obtidos os favores e honrarias, voltou à Bahia e iniciou a expedição, infelizmente malograda.

Não se conhece o original da obra. Mas há dela muitos apógrafos, todos anônimos. Foi publicada pela primeira vez, parcialmente, por frei José Mariano da Conceição Veloso, no princípio do século XIX. Em seguida apareceu o texto completo em publicação da Academia Real das Ciências em Lisboa. Em 1839 Francisco Adolfo de Varnhagen identificou definitivamente o autor em trabalho célebre. Em 1851 o mesmo historiador fez a edição integral e expurgada do texto completo, reeditado em 1879.

(extraído de notas biográficas feitas por Américo Jacobina Lacombe)

 

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