O perigo do ofidismo é grande no meio
rural. Muitos dos que embora vivendo na cidade, trabalham na roça, podem ser inscritos
entre os que estão ameaçados pelo perigo das serpentes.Várias são as espécies
encontradas e grande é a quantidade de cobras, principalmente da terrível jaracuçu, da
cascável.
Para a cura às vezes o fumo sobre a própria mordida, ou come-se toucinho, ou bebe-se
gás (querosene) ou benzimentos, rezas e simpatias. Porém, há uma pessoa a quem recorrer
na maioria das vezes, é o curador-de-cobras. Sua presença é reclamada nas diversas
cidades onde há feiras. É ali que ele aparece para "curar". Sua
"arte" tem função preventiva como curativa. A "arte" preventiva de
curar é executada pelo curador-de-cobras, nas feiras, ao ar livre, benzendo os
"pacientes", evitando-lhes o perigo do ofidismo. É comum a crença de que a
pessoa benzida por ele pode ser ofendida por cobra que nada lhe acontecerá, já que de
corpo fechado e "insensível ao veneno da cobra serpente", fica curado-de-cobra.
A "arte curativa" é feita sobre o paciente que tenha sido vitimado.
O curador-de-cobras aparece nas feiras trazendo uma caixa de madeira com uma ou duas
cobras dentro. A roupa do curador chama a atenção por ser um terno de brim, de cor
verde, como se fosse farda do exército nacional. Era paletó comum, chapéu de couro,
vários anéis nos dedos, óculos escuros. Caboclo de estatura pequena, porém, retacado de corpo, bem falante, bons dentes.
Palrador, tirando da caixa uma das víboras, começou a
falar. Sua voz é matraqueada e cantante. Logo ao seu redor muitas pessoas se achegaram.
Uma pediu para ser curada. Não tinha sido "picada" por cobra. Outras mais foram
se chegando para as curas. Da algibeira retira um crucifixo
preto, coloca sobre a palma da mão do paciente. Sem chapéu, começa a dizer palavras
quase incompreensíveis entremeadas de um latim estropiado e com a mão direita traça o
sinal da cruz sobre a mão do paciente. Este, finda a cura, apanha a cobra que o curador
lhe entrega. Uns medrosos, outros corajosamente seguram a cobra. Há os que deixam, após
o benzimento, que a cobra os morda. O curador recebe três cruzeiros pelo
"benefício" feito.
O pesquisador submeteu-se à cura, porém, não teve nenhuma disposição para apanhar
a cobra, ao que o curador disse que, sem fé, não poderia haver cura. Certamente o
observador participante não ficou curado-de-cobra.
Se alguém queria pegar a cobra e ser por ela mordido, para verificar se ela mordia
realmente, o curador-de-cobras o satisfazia, fazendo morder por uma salamanta.
Um dos clientes informou-nos: "O curador cura tanto contra mordida de cachorro louco
como de cobra". O fazendeiro coronel Dionísio disse: "Eu já fui curado pelo
Zé do Arvoredo lá da Cotinguiba, mas quis outra vez; é que eu queria ver se a cobra
morde mesmo". Outro replicou: "Abaixo de Jesus Cristo é só este mesmo, o Zé
das Cobras. Cura tudo que é nação de cobra até jaracuçu e cascável, que dizem que
depois que elas ofendem, vêm à noite para a sentinela (velório) porque é morte na
certa".
Outra opinião que ouvimos sobre o curador foi proferida por Otávio Mole: "O Zé
das Cobras cura pastos também. Ele benze um pasto e a gente pode ficar esperando que dali
a pouco começam a passar as cobras. Saem todas do pastos que ele benzeu. Não deixa que
gente as mate. Eu vi ele benzê um pasto, dali à pouco vi passar duas cobras, eu quis
matar, mas ele não deixou. Ele é o melhor curador-de-cobra que existe por aqui".
Além dos benzimentos, das simpatias, das rezas para curar a "ofensa de
serpente" é costume, enquanto se espera o curador-de-cobras ou benzedor, dar três
colheres de "gás" (querosene) ao "ofendido". Deve-se também esfregar
no lugar das cicatrizes um pouco de "gás". Outras vezes, dão ao doente
pequenos pedaços de toucinho cru que ficou de molho alguns minutos numa tigela de
querosene, onde desmancharam uns nacos de fumo de rolo.